Por Patricia Carvão
Noutro dia, lendo uma matéria da Folha de S. Paulo, vi que Adélia Prado, prestes a completar 90 anos de idade, vai lançar “O Jardim das Oliveiras”, seu novo livro de poesia, neste mês de setembro. Esta frase em especial me chamou atenção: “Estou madura só por fora; por dentro, tenho 17 anos.” Lembrei dela quando assisti ao filme “O Último Azul”, em cartaz no cinema.
Em que momento envelhecemos? É uma indagação difícil de responder, a depender da lente que usamos para orientar a resposta. A medicina tem critérios e marcadores. A própria lei estabelece também a partir de qual idade nos tornamos idosos. Mas temos ainda nessa equação a nossa própria subjetividade, a partir da qual nos sentimos e nos apresentamos ao mundo. A partir dela é que nos perceberemos idosos ou não.
Indo um pouco além, convém perguntar: o que significa envelhecer — e o que fazemos a partir do momento em que envelhecemos? “O Último Azul” é um filme sobre o envelhecimento, com reflexões conduzidas por uma narrativa distópica na qual uma idade limite é fixada pelo governo. Depois desta, o idoso deve ser afastado da sociedade. Literalmente: o trabalho é feito pelo cata-velho (uma espécie de gaiola de metal sobre rodas), que leva as pessoas para uma “colônia”, na qual não se sabe o que se passa. O objetivo é simplesmente retirar os idosos antes que representem um problema social.
De forma bem sincera, e sem qualquer pudor, o diretor transporta para a tela aquilo que já acontece não apenas na sociedade, mas também em algumas famílias. Socialmente, um idoso pode ser visto, em muitos casos, como alguém que não produz, não faz circular renda e — muitas vezes — não tem força de trabalho. No seio familiar, os mais velhos se tornam alvo de preocupação e cuidado mais intenso, o que consome tempo e dinheiro. Muitos conflitos familiares surgem nessa fase. O processo de envelhecimento não é linear, além de múltiplo.
Nesse cenário distópico, conhecemos Tereza, uma mulher de 77 anos de uma cidade industrializada na Amazônia. Quando chega sua hora de ser “recolhida”, ela recebe um chamado do governo para abandonar sua casa e residir na colônia. Tereza não se conforma com o destino imposto a si e deseja realizar um último desejo antes de ser compulsoriamente expulsa de seu lar e enviada para longe de tudo e todos.
Ela, então, embarca em uma viagem pelos rios e afluentes da região, sem imaginar que essa viagem mudará o rumo de sua vida para sempre. O filme é cheio de metáforas e simbolismos, e a fotografia é lindíssima, utilizando como cenário a exuberante natureza da Região Norte do Brasil. O filme mostra que envelhecer pode ter múltiplos significados e diversos percursos. Acima de tudo, oferece a mensagem de que velhos também podem ser jovens sonhadores.