por Felipe Cuesta
A Rússia e o Brasil, apesar de estarem distantes um do outro, tem traços de conexão bastante íntimos. E isso não tem nada a ver com os BRICS, a sigla que inventaram para agrupar os países mais poderosos do segundo escalão do poder econômico. Assim como a Rússia, o Brasil também tem um território gigante e os dois povos estão conectados pela imensidão geográfica e pela miscigenação enraizada de sua gente. As duas línguas têm uma série de fonemas comuns e a fluência oral e fonética do russo é bem similar a do português, e vice versa com a lingua de Camões frente a de Puchkin. São dois países cristãos e religiosos, fiéis e devotos, maioria católica por aqui e ortodoxa por lá. E, tal como no Brasil, lá eles também tem o “jeitinho russo” de dar pequenos dribles no sistema institucionalizado, puro instinto de sobrevivência aos rigores vigentes.
Os leitores brasileiros, de algumas décadas para cá, vêm redescobrindo as letras eslavófilas com entusiasmo renovado e se tornaram ávidos consumidores das obras e dos autores mais conhecidos da fantástica literatura russa, cujo maior expoente por essas bandas, segue sendo Fiódor Dostoiévski. malgrado o sucesso de outros tantos, como Tolstói e Tchekhov, Gogol, Puchkin, Leskov, Turgeniev, Bulgarov e Gontcharev. A restauração do público brasileiro também deve atenção a nomes importantes que passaram a realizar traduções diretamenete do russo para o português, facilitando e estreitando o alcance real da mensagem textual dos escritores de lá, em especial os do século XIX. Antes do trabalho de Boris Schnaiderman, Rubens Figueiredo e Paulo Bezerra, os brasileiros eram obrigados a ler os russos, mediados por uma primeira tradução para o francês e só deste, depois, para o Português.
Isso era problemático e inconveniente, pois a França tem um estilo de tradução muito peculiar. Eles querem a todo custo domesticar os textos traduzidos de quaisquer outros idiomas, tornando-os similares o tanto quanto possível ao estilo lirico e elegante dos autores franceses. Tal característica afeta e modifica em demasia os sentidos dos textos nativos do russo, mais rudes e não tão estéticos quanto os franceses. Isso fez com que leitores familiarizados aos dois idiomas afirmassem ter lido traduções de Anna Karienina por exemplo, que pareciam o texto de Madame Bovary. Logo, as traduções diretas do russo para o português, aproximaram o leitor brasileiro do texto original, algo há muito desejado e nos oferecem uma expressão mais verosímil das ideias dos autores.
Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nasceu em Moscou, em 11 de novembro de 1891. Escritor, filósofo e jornalista do Império Russo, é considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores “psicólogos” que já existiu. Dostoiévski sofre críticas pontuais e importantes de alguns segmentos. Não seria um escultor literário da palavra mais exata e lírica. Seus textos careceriam de uma revisão e reescrita cuidadosa em relação à primeira versão. Por isso o resultado final apresentaria um estilo deselegante. As vezes truncado. Na Russia sofre ressalvas sobre seu estilo, por uma linguagem supostamente chula, pobre em sinônimos e repetida. Muitos por lá exaltam mais os méritos estéticos e linguísticos de Tolstói e Tchekhov, como exemplo. Esses dois são escultores de uma prosa esteticamente limpa e elegante.
Aqui não se buscam comparações. Mas, Dostoiévski chama à atenção da crítica por uma característica que o faz único. E imortal. Ninguém o supera na criação de personagens que vivem no extremo da condição humana – humilhados, atormentados, torturados pela própria personalidade mesquinha, traumatizados, apaixonados, doentes mentais irreversíveis, assassinos, prostitutas, alcoólatras e viciados. As suas construções dos conflitos da psique e da mente subjugando a condição humana não encontram paralelo literatura universal.
Ele é incompreendido por muitos, devido às mensagens por vezes ambíguas de seus textos. Comunistas defendem seu feroz anticapitalismo. Reacionários de direita encontram em seus livros elementos de sobra para uma leitura conservadora, nacionalista e ultra religiosa, apesar de defenderem que o autor também fraqueja ao oferecer teses de acolhimento às posições socialistas. Em resumo ele agrada e desagrada a todos os segmentos. E há certa confusão na plateia, muito por conta dessa apropriação partidarista indevida, que atrapalha a compreensão adequada da dimensão da riqueza de sua literatura, que transcende esse viés meramente maniqueísta, dogmático e datado. Dostoiévski vai muito além ao ultrapassar as ambivalências, as incoerências e as contradições de seus discursos e escritos. Conservador e revolucionário, religioso e pagão, deus e demônio, vida e morte, loucura e sanidade. Ele é tudo isso ao mesmo tempo e muito mais.
Dostoiévski é como um espelho, em que temos a possibilidade de nor ver refletidos em suas páginas, com toda nossa vulnerabilidade e humanidade. Ele criou um tipo de narrativa, o tal romance psicológico, que responde muito às necessidades da nossa época. Seus livros têm embates de ideias, opiniões diversas, dramatizações de pontos de vista, espaços de discussão em aberto, desconstruções filosóficas, expiação religiosa e todas as neuroses e psicoses dos confins da mente humana. As pessoas representadas por seus personagens não são caricaturadas, muito menos tratadas de forma condescendente. A realidade nua e crua bate na porta do leitor e acaba indo buscar cada um desses protagonistas e coadjuvantes na vida real, dando a eles todo o sofrimento e toda a redenção que for possivel e a que estiverem dispostos.
Dostoiévski projeta uma literatura caótica, uma literatura que nos arremessa no espaço urbano, no meio do barulho e da confusão, mas também nos leva mais para longe dentro do cérebro humano, com todas as suas contradições, patologias, neuroses e genialidades.
Dostoievski escrevia sobre o que sentia. Pensemos em um cara atormentado por fantasmas. De infância pobre e órfão ainda bem novo, inimigo do absolutismo, extremamente religioso e contraditório, fez curso superior e depois tornou-se jornalista, vindo a integrar a elite literata Russa, círculo de intelectuais e escritores opositores ao regime da Monarquia secular dos Romanov. Foi preso por seus escritos e condenado por suas ideias revolucionárias a passar seis anos degredado em trabalhos forçados na Siberia, pena assim definida após ter tido a sentença de morte comutada pelo Tsar, minutos antes da execução no paredão de fuzilamento. Dostoievski adoece com tamanha provação e angústia. E padece com crises de epilepsia constantes. É viciado em jogos de azar e assume dívidas impagáveis. Escreve seus livros após receber adiantamentos como forma de atender a seus credores. Como não poderia deixar de ser, todo o seu estado anímico de perturbação, angústia e sofrimento é transplantado para as páginas de seus romances, servindo como matriz para as caracteristicas subjetivas de seus personagens.
Homem de fé e devoto da religião, para Fiodor Dostoiévski, um racionalismo de ideias meramente empíricas seria considerado amoral e só levaria o ser humano ao precipício. Seus personagens niilistas, na maior parte das vezes, sucumbem vítimas de suas próprias ideias, pois apenas aqueles que expiam suas faltas e optam pelo caminho da fé e da penitência, a exemplo de Raskolnikov de Crime e Castigo, se arrependendo e se ajoelhando perante Deus, têm alguma chance de redenção.
A síntese de tudo que esse homem pensou e produziu se encontra em “Os Irmãos Karamazov”. O cume de sua produção literária, seu derradeiro livro. Seu legado para o mundo e para a eternidade. Uma obra que inicialmente foi planejada para ter uma continuação ao volume que foi escrito e publicado, projeto interrompido e não levado a termo em virtude da morte precoce do escritor aos sessenta anos por hemorragia pulmonar decorrente de um enfisema, cerca de um ano e meio apos finalizar a “primeira parte”. O óbito nos privou dessa sequência literária, que traria um recorte mais focado na vida de um dos irmãos. Alieksei, considerado o eixo familiar.
Em “Os Irmãos Karamazov”, Dostoiévski se transporta e se transmuda por inteiro. Ele se doa à obra. Suas vivências, o período que conviveu com criminosos na Sibéria, os vícios, a lembrança do pai autoritário, a epilepsia, a morte de um filho, tudo está explicito ali. Assim como um amplo painel da Rússia do século XIX, de suas classes sociais, das religiosidades e contradições de seus homens, de seu povo, mulheres e profetas, os bêbados, os equilibristas, os loucos e os criminosos.
A disfuncional família Karamazov sintetiza bem tais elementos, com seus dramas existenciais, morais e econômicos, escancarada em suas mazelas ao longo do romance. O eixo da trama passa pela órbita gravitacional do pai e de seus três filhos. Uma relação distante e de nenhum afeto entre eles, com exceção de um dos descendentes, Aliocha, que mantém alguma conexão, ainda que pequena, com todos os demais membros do clã.
Os irmãos se chamam Aliexei Fiodorovitch, Dimítri Karamázov e Ivan Fiodorovitch. Os três tem personalidades distintas, cada um representando diferentes arquétipos da faceta humana. O primeiro, Aliocha, representa o amor ao próximo, a bondade e a generosidade de um santo, incrustado com ótima capacidade de ouvir as pessoas e sentir empatia pela dor e pelos problemas alheios. É de longe o personagem mais bondoso do livro.
O segundo irmão, Dimitri, um representante da obscuridade confusa dos sentimentos humanos de ódio, impulsividade, amor romântico e obstinação. Exagerado e passional, passa a vida cometendo excessos e metendo os pés pelas mãos atrás de seus desejos e padrões inatingíveis. Por fim, o terceiro e último, Ivan. O espelho da inteligência que mata e corrói por dentro da alma e faz brilhar toda a filosofia niilista, embora com viés um tanto diferente do normal, provocado pela confusão das ideias. Um intelectual atormentado e ineficiente.
Eles são filhos de um pai canalha e cafajeste, um pai irônico e descuidado com os três, egoísta e sem afeto, que tenta manter uma dependência das pessoas ao seu redor pela força do dinheiro, não apenas com os descendentes, mas também na relação amorosam com a personagem Gruschenka, se servindo da mesma estrutura de poder hierárquico e de influência vertical.
O livro “Os Irmãos Karamazov”, (não é novidade para ninguém) encaminha a trama para uma situação de parricídio do genitor, Fiodor Pavlovitch mas, na verdade, o enredo é muito mais amplo do que um mistério de um crime. O alcance maior da obra é de ser um romance sobre choques de visões de mundos opostos e um colapso absoluto da estrutura familiar. O estilo de vida hedonista de Dimitri é contrastado com o ateísmo de Ivan e o cristianismo bíblico e resiliente de Aliócha. Três irmãos, três visões de mundo. As descrições de extravagância e embriaguez de Dimitri são intercaladas com os jorros intelecto-verbais de Ivan e as lembranças da fé e generosidade do mentor de Aliócha. E é nesse conflito, no meio dessa salada russa, que a história vai ganhando profundidade para a compreensão de cada personagem.
Após a apresentação e desenvolvimento dos conflitos existenciais e familiares entre os protagonistas e as questões morais mais importantes e delicadas de cada um deles, chega o momento de ápice da história em que Fiódor Pavlovich, o patriarca dos Karamázov será assassinado e Dmitri surge como o principal suspeito. Daí em diante, as questões de honra e decoro circundando o ambiente das discussões dos personagens, ganham uma premência incontornável, que muito atormentarão Ivan, Aliocha, Dimitri e a todos que os cercam. É em torno desta disputa ética e moral que a trama tem sequência e aflora uma tempestade de virtudes, falhas de caráter e um vendaval de humanidade (no que ela tem de mais sublime e torpe, para o bem e para o mal). Dimítri é então formalmente acusado de parricídio e um comentado julgamento decidirá seu futuro.
Dostoiévski consegue manter o suspense e inserir elementos da psicologia para analisar o desfecho dos personagens diante dos diversos acontecimentos vividos por eles, e com isso construir a idiossincrasia e o legado de cada um. Leia a versão da Editora 34. Traduzida diretamente do Russo por Paulo Bezerra. A tradução de Bezerra baseia-se em uma edição crítica da obra de Dostoievski realizada por um time de filólogos russos nos anos setenta. Esse grupo buscava corrigir os cortes realizados pelas censuras czarista e stalinista. É, de acordo com o posfácio do tradutor, “a única efetivamente integral em língua portuguesa”.

Os irmãos Karamázov. Editora 34. 2019. 888 páginas. Preço de Capa: R$ 120
Lembre-se: “Os Irmãos Karamazov” é o livro da vida de muita gente boa que gosta de ler. Freud, por exemplo, foi influenciado por ele para criar a sua psicanálise anos mais tarde. Essa uma boa medida do tamanho do legado do autor. De repente, o livro pode se tornar o seu favorito também. Boa leitura!
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado à literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.