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Clarice Lispector: a maior de todas

Inserido em 4 de abril de 2025
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Por Felipe Cuesta

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

O cânone literário ocidental deve parte de sua alma a uma escritora brasileira-ucraniana que se tornou lenda viva no meio, uma mulher na vanguarda do seu tempo. De personalidade enigmática e investida de uma linguagem poética complexa e inovadora, a autora é reconhecida como uma das mais importantes literatas do século XX, dona de uma obra só compatível com a do tcheco Franz Kafka. Ela forjou uma mitologia ao redor de si que só faz crescer — e está cada vez mais atual. Chaya Pinkhasivna Lispector. No Brasil, onde chegou ainda criança, emigrada com sua família pela perseguição russa aos judeus Ashkenazi após a revolução de Lênin, se tornou famosa com o pseudônimo Clarice Lispector. Uma feiticeira das palavras.

Clarice é uma referência, com legiões crescentes de fãs em distintos nichos literários, que cultuam sua embaralhada personalidade. Japoneses, americanos e europeus chegam a estudar português para ler Clarice no original. O mito se transformou numa obsessão e Clarice foi sugada pelo mundo da indústria pop e das mídias sociais, com frases e trechos autorais pinçados fora de contexto, dando a falsa impressão de uma escritora de letras simples. Pelo contrário. Sua obra não é fácil nem palatável a olho nu. Clarice é uma escritora filosófica e intrincada. As pessoas caem na armadilha de querer encontrar passagens simples e de boa reflexão para a “filosofia da rotina”. Não é o caso com ela, pois quem se debruça em seus textos de maneira afoita cai rápido da sacada do encanto. Clarice exige concentração e esforço.

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Clarice Lispector é literatura erudita de ruptura. Literatura exigente e de experimentalismo formal. Não se trata de um desconvite à exploração de sua leitura, muito pelo contrário. Deve a advertência funcionar como cartão de visitas e um desafio. Seus manuscritos complexos de se extrair significado, malgrado sua prosa poética, afastam o público que almeja somente uma leitura de entretenimento. Para esta maioria, Clarice acaba sendo inalcançável. A rigor, ela queria mesmo era ser decifrada. Implorava por isso — e deixava brechas para que o leitor a incorporasse e encontrasse significados ocultos no sentido de seus arranjos. 

Seja nos romances, seja nos contos (ambiente em que ela parece mais se sobressair), Clarice vai deixando pistas sutis do que pretende em cada parágrafo escrito de modo não linear. Ela traz um autêntico quebra-cabeças para o leitor. Recusava o rótulo de hermética: “Os leitorres é que têm medo de mim. Eu sou simples, quando me conhecem”. (Puxava mesmo os erres com sua língua presa.) Escrevia para si mesma e não para agradar ou se tornar palatável a terceiros. Sempre esclareceu que escrevia para se manter viva. Dependia disso. Para ela, era uma atividade vital, como beber água.

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

Ler Clarice é ir devagar, desarmado, não se importar de retornar e retornar ao texto para recuperar aquilo que se perdeu. Se a pessoa for com pressa, vai deixar para trás um labirinto de nuances essenciais. É preciso respirar e desacelerar. Não se vai em Clarice acreditando em uma entrega de bandeja. Ela não vai te dar nada de graça! Ela era como a esfinge: “Decifra-me ou te devoro”.

Segundo o crítico Alfredo Bosi, há três características bem demarcadas no estilo narrativo de Clarice Lispector: o uso intensivo da metáfora insólita, a entrega ao fluxo de consciência e a ruptura com o enredo factual. Bosi acrescenta que, na gênese das histórias da autora, há uma exacerbação tal do momento interior que a própria subjetividade entra em crise, ela precisa se reencontrar, ou seja o próprio espírito precisa buscar um novo equilíbrio, tamanha a amplitude da quebra de paradigma. Não há como discordar do ensaísta, pois Clarice proporciona um salto em distância do meramente psicológico na direção do metafísico existencial.

Sobre a descrição mais introspectiva do fluxo de consciência, marcante em seus escritos, trata-se de uma técnica narrativa muito mais voltada para descrever sensações do que apresentar sequências de fatos objetivos. O fluxo de consciência é um estilo narrativo sofisticado, uma técnica literária em que se almeja transcrever o enigmático processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibição objetiva dos processos de associação de ideias. Esse estilo é conhecido pelas frases e parágrafos longos, contendo reflexões rebuscadas que ocupam a mente fervilhante dos personagens e de seus discursos. William Faulkner, Virginia Woolf, James Joyce e Fiodor Dostoiévski são exemplos de escritores que se serviam do recurso.

E ela fazia como ninguém o efeito textual da epifania, dentro de uma das narrativas mais intimistas da literatura nacional, uma espécie de “momento de revelação” que seus personagens têm a respeito de si mesmos ou do mundo. Essa é Clarice Lispector, alquimista e feiticeira das palavras, mestre do assombro. Uma escritora decidida a desvendar as profundezas da alma humana. Também uma jornalista que escolheu a literatura como bússola em sua busca pela essência do indivíduo. Sua tentativa de transpor o cotidiano vulgar se revela através de personagens na iminência de um milagre, uma explosão ou uma singela descoberta. Todos paradoxalmente suscetíveis aos acontecimentos banais do dia a dia. Vidas que se perdem e se encontram em labirintos formados por linguagem única, meticulosamente estruturada, que rompe barreiras e constrói uma obra de caráter universal.

José Castello, em ensaio sobre a escritora nos contextualiza de algo essencial que forja seu estilo: “quando tinha nove anos de idade, Clarice perdeu a mãe, e com isso a voz estrangeira, ucraniana, que a habitava. Dizia, mais tarde, que seus longos ‘rrrr’ eram só um efeito da língua presa. Talvez não fosse apenas isso. Mas sua dificuldade com a língua era evidente — e sua grandeza como escritora é, em grande parte, um resultado dessa dificuldade. Só uma pessoa que não se adapta à língua, que a revira, que dela desconfia, pode escrever uma obra como a de Clarice Lispector.” 

Talvez isso explique o ineditismo de sua forma de se expressar, se servindo de um português ausente de sua origem primordial, um idioma adquirido de modo secundário, quando chegou emigrada ao Brasil, como se escrevesse também para descobrir uma língua que não lhe acompanhou desde o berço.

Clarice Lispector tem uma famosa entrevista, que pode ser encontrada na rede mundial, onde está sozinha, sentada em uma poltrona, fumando de pernas cruzadas com um ar triste, respondendo a perguntas feitas pelo jornalista Julio Lerner em um programa gravado para a TV Cultura. Essa foi sua derradeira aparição e ela morreria pouco tempo depois. A conversa traz aflição ao espectador. Não se consegue escapar da impressão que Clarice se alimentava por um sentimento de melancolia permanente e de afastamento voluntário das emoções positivas. Talvez fosse seu combustível. A entrevista também passa a ideia de amargura e de solidão bem no entardecer da vida, o que pode ter sofrido a contribuição do câncer avançado que já lhe consumia nos ovários, com tributos de muita dor e desconforto físico, justificando sua aura menos alegre.

Clarice era tudo isso e fez parte do Terceiro Tempo Modernista, que com seu romance inovador, com seus contos de alto impacto e com sua linguagem altamente poética, colocou em xeque os modelos narrativos tradicionais. Clarice é complexa e sim, é hermética. Não há como disfarçar. Não é à toa: romances intensos e com desfechos pouco prováveis, como “A Hora da Estrela”, “A Paixão segundo GH” e “Perto do Coração Selvagem”, alteraram a dinâmica de uma literatura ainda muito afeita às heranças do modernismo e da busca do movimento por uma literatura mais popular. Clarice é uma das figuras a romper com esse modelo ao se inserir no meio com obras desconstrutivas que prezam por uma profunda reflexão acerca da existência humana.

Apesar dos romances, Clarice se sobressai ainda mais no ambiente da narrativa breve, a Clarice mestre da técnica descritiva do nocaute (nas palavras de Julio Cortázar), a Clarice dos contos geniais. É a parte que se sobressai em sua literatura. Foi na seara do conto, a meu sentir, que a escritora se projetou no mundo de maneira invulgar. Dominando como poucos esse gênero literário tão difícil, que exige precisão, concisão, criatividade e ritmo, ela entregou tudo de si, revelando seu talento impecável e inimitável. 

Clarice Lispector: Todos os contos. Rocco. 2016. 656 páginas. Preço de Capa: R$ 159,90.

“Clarice Lispector: Todos os Contos”, da Editora Rocco. O volume é composto por oitenta e cinco textos, publicados de 1929 até sua morte em 1977. Centenas de personagens marcantes desfilam nas páginas desta coletânea. Bichos, homens e mulheres — a grande maioria mulheres. Todos dividindo as alegrias e os horrores da existência. Mulheres novas, de meia idade, idosas, mulheres de diferentes tipos, trejeitos, profissões, sonhos, desejos, inquietações e questionamentos. Clarice, é claro, se faz presente autobiografada em várias delas. Na maior parte de modo implícito; em outras, de forma explícita, sobretudo em seus últimos contos, nos quais sua personalidade aparece mais destacada, especialmente quando a dimensão reflexiva, mais sexualizada e também melancólica, passa a ganhar espaço importante no direcionamento de sua escrita.

A obra é uma viagem, desde o primeiro conto, publicado quando Clarice tinha 19 anos, até a implosão intelectual e sexual da artista à medida que se aproximava da morte. Os contos revelam diferentes retratos da autora, bela mulher de diplomata, alta e loura, longas pernas que se deixavam fotografar na Praia do Leme, mas também a intelectual das letras desbravando um mundo machista e preconceituoso, a filha de imigrantes judeus pobres do Leste Europeu e mãe de classe média que, separada do marido, teve de se virar para ganhar a vida e trabalhou como jornalista de moda, beleza e comportamento, usando pseudônimo. 

Tudo no livro evoca seu fascínio feminino e sua tragicidade de fumante inveterada que, certa feita, quase se matou ao provocar um incêndio, adormecendo de exaustão com o cigarro aceso na boca. Os contos de Clarice, como não poderiam deixar de ser, abordam temas associados ao universo feminino e ao cotidiano e dilemas da rotina de uma mulher em grande parte dos casos, mas mesmo assim não se inserem na literatura de nicho. Em outras palavras, esta impressão digital marcada no mundo feminino, esta escrita de uma mulher sobre mulheres, não a circunscreve a qualquer gueto literário específico e não afasta a ampla universalidade das experiências ali narradas. Clarice transcende todos os possíveis estereótipos.

Eu vou trazer 20 sugestões primorosas de contos da autora. Valem como parâmetro. Minhas indicações: “Amor”, “Feliz Aniversário”, “O Ovo e a Galinha”, “Mineirinho”, “Obsessão”, “A Fuga”, “O Jantar”, “O Búfalo”, “O Triunfo”, “A Menor Mulher do Mundo”, “Ruído de Passos”, “Menino a Bico de Pena”, “A Procura de uma dignidade”, “Perdoando Deus”, “Uma Galinha”, “Evolução de uma Miopia”, “A Quinta História”, “A repartição dos Pães”, “Felicidade Clandestina” e “A Imitação da Rosa”.

As narrativas breves mencionadas estão dentre as que eu mais gosto na obra de Clarice. Contudo, não se prenda por elas. São apenas as minhas preferências. Vá ler e fuxicar, para investigar e constatar por você mesmo a magistralidade dessa autora incrível. Descubra por conta própria quais são seus contos preferidos. E aí faça sua lista — e indica depois para outras pessoas que você conhece. Não uma lista de “ouvi dizer”, mas uma lista de “esses eu li e gostei”!

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.