Por Patricia Carvão
Talvez eu esteja bem atrasada para comentar sobre a série “Adolescência”, disponível na Netflix. Já li muito a respeito em praticamente qualquer mídia. Os textos vão de elogios à forma como a série foi filmada (através do emprego da técnica de filmagem chamada de plano-sequência, que registra a ação de uma sequência inteira sem cortes) aos comentários sobre os impactos nocivos do uso descontrolado da internet (seja por crianças, adolescentes ou adultos), onde se encontra um discurso de ódio sem filtro que desencadeia comportamentos indesejados ou até mesmo criminosos.
A série nos traz a história de Jamie Miller, um garoto de 13 anos detido sob a suspeita de assassinar sua colega de escola Katie Leonard. A inquietação inicial que nos toma é tentar dar uma explicação lógica para o que aconteceu. Jamie tem pai, mãe e até uma irmã mais velha, que corresponde a todas as expectativas familiares nela depositadas. Como e por que, então, o menino teria feito aquilo? O que aconteceu para se chegar a esse ponto?
A complexidade do que significa ser humano não permite muitas explicações racionais para essa pergunta. Não há lógica que dê conta de inserir nossa humanidade em uma equação matemática ou num manual. Isso é exatamente o que nos torna frágeis ao extremo e suscetíveis — ou melhor, permeáveis — de forma contínua ao discurso do outro, notadamente quando atravessamos períodos de intensa demanda emocional (as fases de luto, o nascimento de um filho e um divórcio são alguns exemplos). Temos fragilidades e feridas emocionais que muitas vezes são escondidas, varridas para debaixo do tapete, que afloram nesses momentos e podem nos desestabilizar com questionamentos profundos sobre a própria existência.
A adolescência é um desses períodos de extrema vulnerabilidade, no qual há forte demanda subjetiva para a construção da própria identidade. Não só na adolescência, como antes afirmado. Há também muitos outros períodos e fases delicadas que atravessamos ao longo da vida. Justamente por essa razão a necessidade de construção de valores é tão fundamental. Serão eles que nos farão, mesmo nas tempestades da vida, não ultrapassar certos limites. São nossos valores, ética e amizades verdadeiras que nos sustentam na crise.
A questão é que, durante a infância e a adolescência, esse arcabouço de valores ainda está sendo construído e sedimentado. Nesse período da vida, a permeabilidade e a vulnerabilidade a discursos de ódio e valores equivocados é imensa. Daí a relevância da série “Adolescência”, que nos mostra que, mesmo em uma família tradicional, um adolescente criado com amor e carinho — com presença de pai e mãe atentos, dentro de suas possibilidades (na criação de um filho, todos queremos acertar, sempre, e mesmo quando erramos, o fazemos tentando acertar) — pode cometer um crime.
A série traz também uma reflexão sobre o papel da escola. Há cada vez mais conteúdo formal a ser passado aos alunos. Mas há muito mais do que isso a ser ensinado, coisas tão fundamentais (ou até mais, eu arriscaria dizer) quanto as matérias tradicionais. A escola precisa saber fazer acontecer a diversidade, inobstante todos os desafios que tal assertiva representa, e compreender que o saber é algo cada vez mais compartilhado. O aluno aprende, mas também ensina. Não apenas o conteúdo formal, não é bem a este que me refiro. Ensina a lidar com a diferença, com o que não nos é familiar. É esse o maior aprendizado. Gritos e punições não têm se mostrado um recurso pedagógico eficaz. A série demonstra esse aspecto também.
Para todos nós, sejamos crianças, adolescentes, adultos, executivos, professores, alunos, pais, filhos… seja lá qual for nosso lugar, há também um outro grande desafio a vencer, além de saber lidar com a multiplicidade de formas de ser e estar no mundo, como nos mostra “Adolescência”. Há um enorme desafio de linguagem e comunicação. No ambiente social, as formas de interação têm se tornado precárias a ponto de não conseguirmos mais acessar determinados segmentos ou grupos e fazer a informação chegar aonde ela se faz necessária. Até mesmo no seio familiar a comunicação tem se tornado precária. Não sabemos mais decifrar os símbolos na internet, os emojis (um simples coração, a depender da cor, pode ter diversos significados). Talvez não estejamos mais conseguindo nos comunicar. A ruína da comunicação pode ser o primeiro degrau da escada para baixo.
Essa limitação da comunicação, além de danosa, abre espaço para que pessoas nomeadas como “incels” (celibatários involuntários, na sigla em inglês, que se refere a pessoas que se descrevem como incapazes de ter um relacionamento ou uma vida sexual, embora desejem estar em uma relação) tenham livre trânsito nos computadores e celulares para tranquilamente propagar um discurso de ódio nas redes.
“Adolescência” mostra o lado duro e sombrio da maternidade e da paternidade. São muitos desafios. Muitos abismos. Muito trabalho duro.

Há filmes igualmente intensos sobre a incompreensão que a atitude de um filho pode trazer para a família. “Precisamos Falar sobre o Kevin”, um filme britânico-americano de 2011 dirigido por Lynne Ramsay e estrelado por Tilda Swinton, John C. Reilly e Ezra Miller é um deles. A produção é baseada no livro “Temos de Falar Sobre o Kevin”, de Lionel Shrive. Trata-se de um filme forte e intenso, que nos traz a angústia materna e a incapacidade de compreensão do envolvimento do filho em uma tragédia. O longa está disponível na plataforma MUBI.
Outro exemplo é “Um Lugar Secreto”, filme de 2021 que conta a história de um menino de 13 anos que esconde os pais em um bunker no quintal da casa da família, invertendo toda a lógica familiar de hierarquia e cuidado. O longa está disponível no Prime, na Apple TV e no Google Play.

Por fim, cito ainda dois outros filmes: “Querido menino” e “Luce”. O primeiro nos traz a história verídica de Nic Sheff, rapaz viciado em drogas cuja dependência abala completamente a rotina da família. A narrativa mostra o desespero da família na tentativa de entender o que aconteceu com o filho, que teve uma infância repleta de carinho e suporte emocional, ao mesmo tempo em que estuda as características da droga. O longa está disponível no Prime, na Apple TV e no Google Play.

“Luce”, por sua vez, está disponível na Claro Video e no Google Play. A narrativa, assim como nas demais sugestões antes mencionadas, nos traz a inquietação familiar ao ter conhecimento de um artigo político escrito pelo filho, que revela traços de personalidade desconhecidos pela família.
Penso que não há respostas para os questionamentos que essas produções nos trazem. Tenho muitas dúvidas, muitas perguntas e apenas uma certeza: não há receita ou fórmula exata para a amplitude do existir. O que funciona para um filho, não funciona para o outro.
A procuradora de Justiça Patricia Carvão escreve uma coluna quinzenal na newsletter da Amperj, comentando filmes e séries aos quais assiste nos cinemas e plataformas de streaming. Conheça suas sugestões!