por Patricia Carvão
Com a proximidade da cerimônia de premiação do Oscar 2025, é inevitável trazer por aqui comentários sobre alguns filmes indicados. Na categoria “Melhor Filme Internacional” temos os seguintes concorrentes: o nosso “Ainda Estou Aqui”, “A Garota da Agulha”, “Emilia Pérez”, “The Seed of the Sacred Fig” e “Flow”. Na coluna de 31 de janeiro, comentei “The Seed of the Sacred Fig” (que recomendo muito), em cartaz nos cinemas e já disponível no streaming (Telecine e Belas Artes à La Carte). Ainda nessa categoria, falo nesta quinta-feira sobre “A Garota da Agulha”, que concorre à estatueta pela Dinamarca, com direção de Magnus von Horn.
Disponível na plataforma MUBI, o filme é muito forte. Ambientado em 1919, nos traz o drama de Karoline. Após achar que seu marido havia morrido na guerra, ela se envolve com o dono da fábrica onde trabalha como operária e descobre estar grávida. Rejeitada pela família do pai, a protagonista acaba sozinha, sem ter para onde ir. Ela conhece então uma mulher chamada Dagmar, que acolhe bebês recém-nascidos, filhos de mulheres em situação de vulnerabilidade — como Karoline —, entregando-os para adoção.
O filme é inspirado em uma história real e nos traz o horror do abandono feminino e do drama da entrega de bebês por suas mães na busca por uma qualidade de vida e um futuro melhor. Ao mesmo tempo, carrega uma narrativa macabra e intrigante, que nos mostra até onde a maldade humana pode chegar.
O longa é todo filmado em preto e branco — o que agrava a angústia da personagem. Além de concorrer ao Oscar de “Melhor Filme Internacional”, “A Garota da Agulha” também foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de “Melhor Filme em Língua Estrangeira” e competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes.

Agora, o que dizer de “Emilia Pérez”? Assisti em outubro do ano passado, no Festival do Rio, sem expectativa nenhuma e sem ter ouvido qualquer crítica — fosse positiva ou negativa. Alguns meses depois, é o filme com mais indicações ao Oscar de 2025.
Uma mistura de drama e musical livremente adaptada do romance ‘‘Écoute’’, de Boris Razon, a trama é centrada em Rita, uma advogada cansada de uma vida profissional sem propósito. Certo dia, ela recebe uma ligação de Manitas del Monte, líder do cartel de drogas na Cidade do México.
Ele decide contratar Rita para ajudá-lo a fazer sua transição de gênero, desde a procura pelos melhores médicos e locais para a cirurgia até a organização de um sistema de proteção para sua esposa Jessi (interpretada por Selena Gomez) e seus filhos, que precisariam sair do México com segurança — a fim de evitar que seus inimigos fizessem algo contra eles.
Com um roteiro original, que contribui para estabelecer diálogo e compreensão necessários para um tema tão importante — a transexualidade —, o filme tem uma narrativa eletrizante. A transição de gênero de Manitas del Monte nos faz refletir sobre a humanidade daquele sujeito, aprisionado por tantos anos em um corpo que não lhe representava. A produção foi um grande sucesso no Festival de Cannes de 2024, principalmente pela forma criativa que encontrou para contar sua história. Como resultado, ganhou os prêmios do Júri e de Melhor Atuação Feminina para suas quatro protagonistas.
Dirigido por Jacques Audiard, o filme é o representante da França para disputar uma vaga ao Oscar de “Melhor Filme Internacional”. Quando assisti, gostei do que vi, mesmo não tendo muita simpatia por musicais. Confesso, porém, que se assistisse ao filme agora, não mais conseguiria vê-lo com a mesma imparcialidade. As polêmicas que envolveram declarações feitas no passado pela atriz principal do filme, Karla Sofía Gascón, foram suficientemente destrutivas para impactar de forma bem negativa o filme. Difícil dissociar neste caso, a meu ver, a atriz de seu trabalho artístico.

Passando agora à análise da categoria de Melhor filme, são indicados “Anora”, “O brutalista”, “Um completo desconhecido”, “Conclave”, “Duna: Parte 2”, “Emilia Pérez”, “Ainda estou aqui”, “Nickel boys”, “A substância” e “Wicked”.
“Conclave” eu adorei — comentei a respeito na mesma coluna à qual me referi anteriormente no texto, em 31 de janeiro. Hoje, falo sobre “Anora”, em cartaz nos cinemas. É um filme que tem gerado opiniões conflitantes: alguns gostam; outros, não.
Anora é uma profissional do sexo, que acaba se envolvendo com Ivan, um jovem russo que conheceu na boate onde trabalhava. Os dois iniciam um rápido relacionamento e se casam pouquíssimo tempo depois — o que gera fortes reações da família do rapaz. A narrativa fica às vezes acelerada em excesso, um pouco cansativa, mas ainda assim gostei muito da atuação de Mikey Madison, que interpreta Anora (ou Ani). Ela tem uma beleza diferente, original, com entrega absoluta. Como uma dançarina como ela poderia ter se envolvido numa história como a que o filme traz?
Termino aqui. Muitas opções para assistir! Caso você tenha oportunidade, sugiro também conferir “O brutalista”, que teve 10 indicações ao Oscar deste ano. Está nos meus planos!
Seguimos juntos na torcida por Fernanda Torres e pela premiação de “Ainda Estou Aqui” nas categorias indicadas. O filme fez história ao receber a primeira indicação do Brasil ao Oscar de “Melhor Filme” — categoria principal da premiação. A obra dirigida por Walter Salles também foi indicada para “Melhor Filme Internacional” e “Melhor Atriz”, com Fernanda Torres.
Bom Carnaval!
A procuradora de Justiça Patricia Carvão escreve uma coluna quinzenal na newsletter da Amperj, comentando filmes e séries aos quais assiste nos cinemas e plataformas de streaming. Aproveite suas sugestões para o fim de semana!