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As distopias: pressupostos e implicações de um gênero literário adorado pelos leitores

Inserido em 27 de dezembro de 2024
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Por Felipe Cuesta

Você já leu uma distopia? Essa nave que te leva para o futuro, geralmente de maneira angustiante, com cenários apocalípticos e permeados de ficção científica, mostrando um mundo pior do que o atual. É um exercício literário de criação distorcida de uma realidade antecipada. As distopias projetam um futuro obscuro da humanidade em regra pelas ações de um estado totalitário e ultra conservador. São textos que nos entregam possibilidades de debates críticos, tanto no campo literário quanto no sociopolítico.

A distopia embute um panorama exagerado, projetando um período vindouro sombrio, pessimista e incerto. E isso não é mero efeito estético. A construção deste cenário é uma estratégia almejada pelo autor como ferramenta de crítica social e política, alertando sobre implicações e consequências negativas da não adoção de providências preventivas de cautela. Afirma-se, assim, a literatura como dispositivo a partir do qual se torna possível realizar uma avaliação das forças que constituem o presente. Em outras palavras, as distopias nos fazem olhar o mundo com olhar atento e questionar as escolhas para mais adiante, a fim de evitar a perpetuação de equívocos que podem se agravar e conduzir ao horizonte projetado na imaginação do escritor.

O conceito de distopia exige o conhecimento anterior do conceito de utopia. A distopia é a antítese do sonho de vida utópico imaginado por grandes poetas e escritores de outrora. Os seres humanos idealizam um mundo perfeito, onde todos vivem em harmonia e anuência. O mundo ideal onde as dinâmicas sociais (atividades e padrões coletivos de interação dentro de uma comunidade ou de comunidades entre si) estão em conformidade — e não há espaço para conflitos, crimes ou problemas sociais.

A distopia, ao contrário, é um mundo em que tudo está errado. Um estilo de literatura que teve ambiente fértil no decorrer do século XX, como resposta aos regimes totalitários, para alertar sobre indesejáveis cenários futuros. Nas distopias, os cidadãos são privados de sua liberdade, sofrem restrições e injustiças e vivem em condições miseráveis de alienação.

A distopia, como gênero literário, tem fases de maior ou menor aceitação do público, dependendo da audiência estar mais ou menos propensa e receptiva a consumi-la conforme o momento histórico vigente. Ela foi o gênero mais influente na Europa durante a primeira metade do século XX — isto é, numa época e lugar em que duas terríveis guerras aconteceram, assim como a Grande Depressão, o stalinismo e o fascismo. Ou seja, um tempo e lugar com muito a ser advertido e evitado para um futuro próximo ou distante.

Se esse estilo literário chama sua atenção, vou selecionar e indicar a leitura de seis excelentes distopias com um pequeno resumo de cada uma delas:

1984 — George Orwell

A mais famosa das distopias.

“Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.” Publicada originalmente em 1949, a distopia futurista “1984” é um dos romances mais influentes do século XX, um clássico moderno, uma poderosa reflexão ficcional sobre a essência nefasta de qualquer forma de poder totalitário. Winston, o protagonista, vive aprisionado na engrenagem de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder — poder puro. Seu principal ingrediente, um homem sozinho desafiando uma tremenda ditadura, cativou leitores de todas as idades, à esquerda e à direita do espectro político, com maior ou menor grau de instrução. A trama seca e crua e o tom satírico e sombrio, garantiram a entrada precoce de “1984” no restrito panteão dos grandes clássicos modernos. 

Admirável Mundo Novo — Aldous Huxley

Em uma sociedade organizada segundo princípios estritamente científicos, Bernard Marx, um psicólogo, sente-se inadequado quando se compara aos outros seres de sua casta. Ao descobrir uma “reserva histórica” que preserva costumes de uma sociedade anterior semelhante à do leitor, Bernard vai perceber as diferenças entre esta civilização e a sua — e, a partir de um sentimento de inconformismo, desafiará o mundo. A trama se desenvolve em um ambiente onde a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar a alienação; um universo que louva o avanço da técnica, a produção em série, a uniformidade contra a diversidade. “Admirável Mundo Novo” não é somente um hábil exercício de futurismo, mas um olhar sobre um mundo autoritário que assombra o leitor.

Fahrenheit 451 — Ray Bradbury

Guy Montag é um bombeiro. Sua profissão é atear fogo nos livros. Em um mundo onde as pessoas vivem em função das telas e a literatura está ameaçada de extinção, os livros são objetos proibidos e seus portadores são considerados criminosos. Montag nunca questionou seu trabalho, vive uma vida comum, cumpre o expediente e retorna ao final do dia para sua esposa e para a rotina do lar. Até que conhece Clarisse McClellan, uma jovem de comportamento suspeito, cheia de imaginação e boas histórias. Quando Clarisse desaparece, a vida de Montag não poderá mais ser a mesma. O escritor costumava dizer que a proibição a livros não foi o motivo central que o levou a compor a obra, e sim a percepção de que as pessoas passavam a se interessar cada vez menos pela literatura com o surgimento de novas mídias, como a televisão. Bela história de um burocrata que questiona a vileza do seu trabalho, o poder libertador da palavra, a estupidez da censura às artes. 

Ensaio sobre a cegueira — José Saramago

Uma terrível “treva branca” vai deixando cegos, um a um, os habitantes de uma cidade. Com essa fantasia distópica aterradora, Saramago nos obriga a fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu. Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de que logo se espalha incontrolavelmente, deixando um rastro de cegos temporários. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. 
José Saramago nos brinda com uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, onde cada leitor viverá uma experiência imaginativa única para recuperar a lucidez e resgatar o afeto.

O Senhor das Moscas — William Golding

Trata-se do romance mais famoso do escritor inglês William Golding, vencedor do Man Booker Prize e do Nobel de Literatura.

O livro tem uma escrita simples e muito bem articulada, e vai crescendo num arco contínuo de tensão e expectativa. Meninos britânicos do ensino fundamental sobrevivem a um desastre aéreo em plena Segunda Guerra Mundial e se acham perdidos numa ilha inóspita em algum ponto remoto do pacífico. Na trama, os protagonistas começam unidos em prol dos objetivos comuns, buscando cooperação recíproca e convergência de interesses para a sobrevivência de todos.

À medida em que a história avança, contudo, a convivência vai se degradando rapidamente assim como a harmonia e o equilíbrio entre os estudantes vai colapsando, o que racha a unidade do grupo e oportuniza o surgimento de dissidências que passam a questionar e desrespeitar a autoridade do líder anteriormente constituído por todos. De meras discussões, pequenas discordâncias e diferenças de pontos de vista, os conflitos vão adquirindo camadas progressivas de tensão e violência até um ponto em que o caldo entorna de vez e a barbárie e a selvageria eclodem de forma irrefreável e irreversível entre os sobreviventes, transformando-os por completo e fazendo-os, transfigurados, retornar a estágios primitivos de civilidade.

Submissão — Michel Houellebecq

França, 2022. Depois de um segundo turno acirrado, as eleições presidenciais são vencidas por Mohammed Ben Abbes, o candidato da chamada Fraternidade Muçulmana. Carismático e conciliador, Ben Abbes agrupa uma frente democrática ampla. Mas as mudanças sociais, no início imperceptíveis, aos poucos se tornam dramáticas. François é um acadêmico solitário e desencantado, que espera da vida apenas um pouco de uniformidade. Tomado de surpresa pelo regime islâmico, ele se vê obrigado a lidar com essa nova realidade, cujas consequências — ao contrário do que ele poderia esperar — não serão necessariamente desastrosas. “Submissão” é uma sátira precisa e contundente sobre os valores da nossa própria sociedade e um dos livros mais impactantes da literatura atual.

Boas leituras e Feliz 2025!

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.