Notícia

Felipe Cuesta: Svetlana Aleksiévitch e seu “romance de vozes”

Inserido em 29 de maio de 2026
Compartilhamento

A literatura, cheia de alternativas, pode se apresentar em alguns casos como um compilado de depoimentos de pessoas trazendo suas visões sobre um momento histórico sensível: guerras, acidentes nucleares, quedas de regimes… tudo pode se prestar como objeto. Dependendo do enfoque, qualquer recorte fático pode virar uma boa história. Esse estilo deu origem ao chamado “romance de vozes”, uma categoria à parte, muito bem explorada pela escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015.

O romance de vozes se baseia na coleta de centenas de depoimentos para construir narrativas documentais em formato e estrutura de romance literário. Em outras palavras, é a realidade enquanto gênero literário. Seu método consiste em registrar entrevistas e transformá-las em monólogos e depoimentos coletivos que revelam a experiência humana e os sentimentos por trás dos eventos históricos.

Ao compilar e transferir os relatos para o texto, a autora aprimora e insere a estética bem sucedida de sua prosa documental, que, apesar de baseada em fatos, extrapola os limites do mero documento para resgatar, de modo singular, a experiência interna e a memória dos personagens. O resultado traz um efeito estiloso e eficiente.

Svetlana refinou ao longo de sua obra uma escrita única e desenvolvida a partir da observação criteriosa e aproximada de uma realidade passada. A isso, ela uniu as melhores qualidades narrativas da tradição da literatura em língua russa. E produziu romances bem sucedidos nesse estilo. Em seus livros, a autora e a coletividade dividem a autoria de um romance mosaico, polifônico e potente. Um romance de escuta, que contempla um caleidoscópio de narrativas de protagonistas reais, transformados em “ficção real” pelos escritores.

Svetlana combina jornalismo com literatura e é descrita como uma “mulher-ouvido”, devido à sua dedicação em ouvir e registrar longos monólogos e declarações de seus entrevistados, o que exige grande empatia e paciência. Essa é a primeira parte de sua jornada. Após essa coleta de matéria prima, a autora passa para a fase escrita, onde vai elaborar textos que se aprofundam nos sentimentos e na psicologia dos indivíduos, traçando “histórias da alma” do período pós-soviético, iluminando o impacto emocional e pessoal de grandes tragédias, sempre diminuindo a atenção nos bastidores políticos dos eventos contados, para se concentrar nos aspectos do sofrimento e da resiliência humana. Assim, com essas revelações de realidades brutais e silenciadas na antiga União Soviética e suas repúblicas, ela nos apresenta uma forte dimensão de literatura-denúncia.

Svetlana, nascida em 1948, pertence a uma geração marcada não apenas pelo fim da União Soviética, mas também pelo terrível acidente nuclear de Tchernóbil, e por todos os demais resquícios e consequências do caldo da Segunda Guerra Mundial. Ao falar de sua escrita ela afirma: “Tenho buscado um gênero que fosse o mais adequado a minha visão de mundo para transmitir como meus ouvidos ouvem e meus olhos veem a vida. Tentei este e outro e finalmente elegi um gênero onde as vozes humanas falam por si mesmas. Pessoas reais falam em meus livros sobre os principais acontecimentos da época, tais como a guerra, o desastre de Tchernóbil e a queda de um grande império. Juntos, registram verbalmente a história do país, sua história comum, embora cada pessoa coloque nas palavras a história de sua própria vida.”

Hoje em dia, quando o homem e o mundo se tornaram tão multifacetados e diversificados, o documental na arte é um ponto cada vez mais interessante, enquanto a arte, como tal, muitas vezes é impotente. O documental nos aproxima da realidade, por capturar e conservar o original. Depois de 20 anos de trabalho com material dessa natureza e de ter escrito cinco livros com a mesma base, Svetlana declara que “a arte não pode entender muitas coisas sobre a gente”.

Durante o segundo maior conflito da história da humanidade, Aleksiévitch assistiu a seu país de origem, a Bielorrússia, perder um quarto de sua população e o restante ficar entregue às condições mais espúrias e duras em que pode viver o homem. Daí sua obsessão pelo humano e pelo sofrimento: “essa tem sido a razão porque me interesso pelos temas tratados em obras que, antes de nascer, passam pela coleta de pelo menos sete centenas de depoimentos de homens e mulheres que vivenciaram os dramas sobre os quais pretendo escrever.”

Aleksiévitch assume-se como uma copista ou alguém que busca ser a voz dos que mesmo testemunhas não alcançam a versão oficial, sobretudo, quando esta é uma versão contada pelo ponto de vista do vencedor ou por uma voz adulta e masculina. Isto é, a guerra, por exemplo tem outras faces que precisam ser desveladas. Daí o papel essencial e extraordinário de livros como “A guerra não tem rosto de mulher” (obra prima) ou “As últimas testemunhas”, sobre a visão de crianças que foram impactadas pelo horror e pela ida à guerra.

Inicialmente, a repercussão ao fato da escritora ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura de 2015 foi muito fria. Em parte porque ela era um nome, se não desconhecido dos grandes centros culturais, ao menos um dos que sempre são olhados de forma atravessada, mesmo em seu país de origem, onde parte de sua obra esteve proibida durante um tempo. De lá, não veio nenhum grito de comemoração. E a comunidade de leitores ao redor do mundo quase ignorou a escolha porque viu nela mais um apelo político do que literário. A Academia Sueca, uma vez mais, teria preferido ignorar uma quantidade significativa de grandes nomes da literatura para entregar um prêmio dessa natureza a uma escrita considerada menor, a uma mera escritora de relatos jornalísticos. Para outros, o Nobel havia se rendido ao mass media.

Mas o silêncio frio ou a recepção negativa que a honraria da escritora teve foi, aos poucos, esquentando, e o processo hoje nos leva a compreender que o Prêmio Nobel de Literatura dado a ela é um feito peculiar e importante em múltiplos aspectos: foi a primeira ocasião em 28 anos que venceu alguém que escrevesse em língua russa, língua que lá atrás quis até ser rejeitada por Svetlana porque ela a tinha como uma expressão inferior aos outros idiomas, numa infeliz declaração da qual quis se recompor muito tempo depois do estrago feito, e não se recompôs. Foi também o retorno bem-vindo às premiações femininas e o estabelecimento de uma alternância de gêneros ano a ano desde então.

O prêmio trouxe para o centro da polêmica um debate caro aos estudos literários desde a separação, por assim dizer, da escrita: história, jornalismo e literatura. A crônica ou o relato para jornal, desde então, tem ocupado o lugar menos privilegiado entre os chamados gêneros menores, pensando na novela e no conto como algumas das outras expressões da prosa. Svetlana é uma jornalista e sua produção escrita é o relato testemunhal. Nesse sentido, o Prêmio volta a valorizar e reconhecer essa forma de expressão da escrita como arte, parecendo que a intenção é a reparação de uma injustiça para com o reconhecimento da literatura produzida por mulheres e do gênero literário considerado menor pelo cânone, cumprindo um retorno, na era da escrita difusa, em realinhar as forças entre o que a teoria e crítica literária anteriormente haviam hierarquizado de maneira indevida e preconceituosa.

Svetlana, em resumo, humaniza fatos reais através de depoimentos e os transforma em literatura. Um formato diferente de literatura. Um gênero mais abrangente e difuso. Vale conhecer seu trabalho. Ela traz uma perspectiva muito interessante, abordando histórias de verdade com uma roupagem literária. Vale a pena conhecer, por exemplo, a história das mulheres soviéticas lutando pelo exército vermelho na segunda guerra mundial, ou o retrato das consequências do desmonte da união soviética para os cidadãos russos tão acostumados ao regime, ou ainda sobre o maior desastre nuclear da história e as consequências para as famílias de Tchernóbil. Boa leitura!