Conheci “O Deus da Carnificina” em diferentes mídias, tanto por meio do livro quanto pela antiga montagem teatral, mas revisitar a peça tão renomada de Yasmina Reza em uma nova encenação, em cartaz no Teatro TotalEnergies, foi uma experiência ainda melhor. Com um texto mais atual do que nunca, afiado e profundamente humano, o espetáculo é imperdível!

A trama impressionante de Yasmina Reza, nesta versão, é simples: dois casais se reúnem para discutir um conflito entre seus filhos, e o encontro rapidamente se torna um campo de batalha. O que começa sob o signo da civilidade e da cordialidade vai, pouco a pouco, cedendo espaço a tensões latentes, ressentimentos antigos e impulsos difíceis de conter.
O elenco é um dos grandes destaques desta montagem. Os atores são absolutamente precisos nessa escalada de conflitos. Cada gesto, cada mudança de tom, cada ironia evidencia as fissuras que atravessam não apenas o encontro entre os casais, mas também aspectos de suas próprias relações conjugais. A peça revela, com ironia, o quanto as convenções sociais são difíceis de serem sustentadas por um longo período de tempo.
Mais do que um retrato de um desentendimento pontual, “O Deus da Carnificina” propõe uma reflexão sobre a nossa relação com o “outro”. Mostra como o convívio humano exige constante contenção de impulsos — ou melhor, pulsões, fazendo jus à teoria freudiana — que, em determinados momentos, escapam totalmente ao controle. Ao expor essas fragilidades, a peça desmonta a ideia de civilidade como algo estável, revelando a sua precariedade e, por que não, a violência latente que permeia as relações.
O resultado é uma obra ao mesmo tempo desconfortável e fascinante. Uma experiência que provoca riso, incômodo e reconhecimento em vários diálogos.
O @teatrototalenergies é ótimo, tem estacionamento e ainda oferece desconto para quem é assinante do Jornal O Globo. A peça está em cartaz até 7 de junho, de quinta-feira a sábado, às 20h. Aos domingo, a exibição é às 17h. Um excelente programa!
Para quem procura algo mais caseiro, indico ainda duas séries da Netflix.

A segunda temporada de “Treta” apresenta uma narrativa marcada por ambição e relações profundamente atravessadas por interesses. Ao centrar a história em casais de gerações diferentes, a série apresenta um retrato contemporâneo dos vínculos humanos, especialmente em uma sociedade onde status, aparência e reconhecimento social ocupam um lugar central.
A trama se inicia quando o casal mais jovem, Austin e Ashley, presencia e filma no celular uma discussão intensa do casal Josh e Lindsay. Esse episódio, aparentemente banal, funciona como gatilho para uma sucessão de conflitos, manipulações e disputas de poder. A partir daí, a série vai revelando que, embora os personagens se critiquem mutuamente, todos compartilham fragilidades semelhantes: relações utilitárias, necessidade de validação social e uma busca incessante por ascensão e pertencimento.
Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é justamente a crítica à superficialidade das relações atuais. Os afetos aparecem frequentemente condicionados ao que o outro pode proporcionar — seja dinheiro, prestígio, segurança emocional, influência ou acesso a determinados espaços sociais. O amor verdadeiro, a amizade sem interesse e até mesmo a solidariedade acabam atravessados por cálculos e conveniências.
Nesse sentido, a série evidencia uma lógica contemporânea em que ter e aparecer prevalecem sobre ser. A produção consegue prender o espectador justamente porque revela algo desconfortavelmente próximo da realidade: relações fragilizadas pela lógica da performance, do utilitarismo, da busca por sucesso, e pela dificuldade de construir vínculos genuínos.
“Treta” não trata esses temas de forma moralista ou simplista. A narrativa mostra que os personagens não são apenas “fúteis”, mas também profundamente vazios, ansiosos e carentes de sentido. Há uma solidão emocional muito forte por trás da necessidade constante de aceitação, consumo e aprovação social. A aparência funciona quase como uma armadura diante da fragilidade interna. São personagens que têm acesso a dinheiro, beleza, circulação social e consumo sofisticado, mas que continuam profundamente insatisfeitos. Existe um vazio constante que chega a ser reconhecido por breves momentos, logo desaparecendo. Os conflitos parecem nascer justamente da incapacidade dessas pessoas de encontrar sentido, intimidade real e autenticidade em suas vidas.

Seguindo adiante, “O Monstro em Mim” é uma minissérie de suspense psicológico que acompanha Aggie Wiggs, uma escritora famosa, interpretada por Claire Danes. Atravessando um processo de luto e bloqueio criativo, ela passa a investigar seu novo vizinho, Nile Jarvis, vivido por Matthew Rhys. Rico, sofisticado e envolvente, Nile carrega uma acusação: a suspeita de ter matado sua primeira esposa, Madison.
O grande mérito da narrativa está em nunca oferecer respostas fáceis ao espectador. Assim como Aggie, quem assiste a minissérie permanece constantemente dividido entre diferentes versões daquele homem. Nile é apenas manipulador, sedutor e emocionalmente complexo? Ou existe nele uma violência latente, capaz de levá-lo ao crime? A série trabalha exatamente nesse espaço nebuloso entre aparência social e verdade íntima.
Esse aspecto faz com que a narrativa não se limite a um suspense criminal tradicional. “O Monstro em Mim” fala sobre algo mais profundo: como percebemos o outro e como o mal pode se esconder em pessoas aparentemente encantadoras, sofisticadas e admiradas.
A própria Aggie também vai sendo psicologicamente capturada pela investigação. O envolvimento dela deixa de ser apenas profissional e passa a revelar obsessão, projeção e vulnerabilidade emocional. A jornalista-escritora começa a enfrentar um dilema interno: até que ponto está analisando fatos concretos e até que ponto está sendo seduzida pela personalidade enigmática daquele homem?
A minissérie também aborda temas como trauma, luto, vingança e os chamados “monstros interiores”. O título da obra parece dialogar justamente com essa ideia de que a violência nem sempre se manifesta de forma explícita. Muitas vezes, ela aparece mascarada por carisma, inteligência, poder social e capacidade de manipulação. Qual é a fronteira entre uma personalidade manipuladora e alguém efetivamente capaz de destruir outra vida?
Talvez um dos aspectos mais inquietantes da série seja mostrar que o verdadeiro suspense reside na incapacidade humana de conhecer completamente o outro. Todos os personagens parecem carregar versões públicas e privadas de si mesmos. Em alguma medida, todos possuem zonas obscuras, ressentimentos e impulsos difíceis de reconhecer.
Bom final de semana — e Feliz Dia das Mães!