Por Patrícia Carvão, procuradora de Justiça
Nesta semana, trago recomendações dos conteúdos que consumi recentemente, e um dos maiores destaques é a série “Emergência Radioativa”, da Netflix. A produção revisita o desastre com o césio-137 em Goiânia, em 1987, e nos coloca diante de um tema essencial: o direito à memória e à verdade, especialmente quando falamos das vítimas. A série acerta ao focar nas experiências humanas. Ela evidencia a dor, a angústia e o sofrimento das pessoas que tiveram contato com o material radioativo, trazendo à tona histórias invisibilizadas por muito tempo. É uma série sensível e muito boa. Gostei bastante!

Entre as excelentes atuações, destaque para Johnny Massaro, que interpreta Márcio, um jovem de pouco mais de 20 anos cujo papel foi decisivo para controlar a escalada da situação à época. A construção do personagem ajuda a dimensionar o caos e a urgência experimentados naquele momento pela população goiana.
Quando o acidente aconteceu, recordo-me de ter ouvido falar muito a respeito, mas não tive a exata dimensão da gravidade nem tanta conexão com as histórias devastadoras das vítimas. A série cumpre justamente um papel de nos fazer sentir, compreender e reconhecer a magnitude do desastre, o maior do mundo fora de usinas nucleares.
Algumas vítimas, no entanto, manifestaram insatisfação com a produção, não apenas pelo fato de não ter sido gravada em Goiânia, mas também porque não foram consultadas. Para elas, a preservação da memória passaria necessariamente por sua escuta e pela fidelidade aos espaços originais dos acontecimentos. As filmagens foram no interior de São Paulo.
Para mim, isso não compromete a potência da narrativa. No fim, é uma obra que contribui para a construção da memória coletiva e nos lembra da importância de olhar para essas histórias com responsabilidade, empatia e respeito. Recomendo!
Agora, sugiro três filmes franceses.

O primeiro deles é “Me Ame com Ternura”, disponível no Reserva Imovision. É absolutamente sensacional e necessário. Esteve recentemente em cartaz nos cinemas. A história acompanha Clémence, uma mulher que, após se divorciar, revela ao ex-marido que está se relacionando com mulheres. A partir daí, uma difícil separação transforma-se em algo muito mais profundo e doloroso. Ainda nutrindo sentimentos por ela, o ex-marido passa a usar o filho do casal como instrumento de ataque – a chamada violência vicária –, acusando a mulher de ser nociva ao próprio filho em razão de sua orientação sexual.
O filme retrata com muita precisão uma realidade triste e conhecida por quem trabalha no sistema de Justiça: a criança como elo que permanece após a ruptura do par parental — e, infelizmente, como alvo de disputa. Nesse contexto, pode surgir o que se convencionou chamar de alienação parental, hoje também nomeada como assédio à coparentalidade, quando a criança é manipulada emocionalmente contra um dos genitores. No caso do filme, a vítima é a mãe, ainda que esse fenômeno possa atingir ambos os genitores.
A narrativa é atravessada por um sofrimento intenso, que destrói vidas A atuação da protagonista é simplesmente magistral ao expressar a dor de uma mãe privada, por longo tempo, do convívio com o filho, submetida a visitas assistidas por psicólogos e assistentes sociais e a um processo judicial que, em vez de proteger, silencia. O filme também evidencia o impacto dessa violência na própria criança, que se vê no centro de um conflito no qual passa longe de ter uma parcela de responsabilidade.
No fim, o que fica é também o luto – o luto de uma mulher que perde, em vida, parte fundamental de sua maternidade, simplesmente por ter se permitido ser quem é. Um tempo que não retorna e que atinge os filhos de maneira devastadora. Trata-se de um filme real, doloroso e urgente. Vale muito a pena assistir.

“Uma Mulher Diferente”, dirigido por Lola Doillon, é outra bela dica na Netflix. A história acompanha uma jornalista que sempre se sentiu deslocada — alguém que enfrenta dificuldades em estar com outras pessoas, incomoda-se com barulhos e carrega a sensação constante de ser “diferente”. Ao receber a tarefa de produzir uma reportagem sobre pessoas autistas, ela começa a se reconhecer nos relatos que encontra.
O filme nos convida a olhar para comportamentos que muitas vezes são vistos como “estranhos” sob outra perspectiva: a da neurodiversidade. Mais do que rotular, a narrativa propõe compreensão, mostrando como essas características podem impactar relações, mas também fazem parte da singularidade de cada sujeito. Uma obra delicada, que abre espaço para reflexão sobre identidade, pertencimento e as diferentes formas de estar no mundo.

Fechando a lista dos franceses, “Você Pode Me Ouvir”, no Prime, apresenta uma narrativa delicada, que entrelaça romance e a vivência da deficiência de forma fidedigna e natural. A história acompanha Antoine, um professor de meia-idade que enfrenta a perda progressiva da audição. À medida que a surdez avança, sua vida social é impactada, mas é a dificuldade de assumir sua própria condição que o paralisa.
Nesse contexto cheio de vergonha e negação, ele conhece Claire, sua vizinha, uma viúva que vive com a filha, Violette. A menina, profundamente afetada pela morte do pai, deixa de falar, expressando seu luto por meio do silêncio. A relação entre Antoine e Claire se constrói aos poucos, enquanto ele também estabelece uma conexão sensível com Violette. Inicialmente, o vínculo nasce sob alguns segredos: Antoine esconde sua deficiência. No entanto, conforme o afeto cresce, surge também a coragem de se revelar.
A narrativa do filme propõe uma reflexão importante: a deficiência, longe de ser uma barreira, pode ser mais uma dimensão da experiência humana — capaz, inclusive, de aprofundar e até mesmo sustentar os vínculos afetivos.
Com uma abordagem sensível, “Você Pode Me Ouvir” é um filme leve, romântico, que emociona e mostra como é possível construir conexões verdadeiras mesmo — ou talvez principalmente — a partir das nossas vulnerabilidades. Adorei!
Para terminar a coluna desta sexta-feira, vamos conversar sobre teatro? Me responda: você já foi ao Centro Cultural do Poder Judiciário? Vale muito a pena conferir a programação do espaço, localizado na Rua Dom Manuel, nº 29, no Centro, que se destaca por sua diversidade e qualidade, sempre trazendo espetáculos relevantes e plurais de graça.

A peça “Perigosas Damas”, atualmente em cartaz, é baseada em uma obra literária e aborda as opressões vivenciadas por mulheres, retratadas de forma sensível e potente no palco pela atriz Geovana Pires, cuja interpretação conduz o público por diferentes experiências e reflexões sobre a condição feminina. É um espetáculo que mistura teatro, poesia e música para contar histórias reais de mulheres silenciadas ao longo da história.

Por fim, a peça “O Último Dia” é baseada no livro homônimo, escrito em coautoria pelo desembargador do Tribunal de Justiça Wagner Cinelli. A obra aborda o ciclo da violência doméstica, retratando situações que certamente serão reconhecidas por muitos de nós. Trata-se de um trabalho relevante não apenas do ponto de vista artístico, mas também pedagógico e preventivo, especialmente para quem busca compreender melhor a violência praticada contra a mulher. A peça está em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal, também no Centro do Rio de Janeiro, em frente à estação Cinelândia do VLT, onde permanece em exibição até o dia 29 de abril.
Bom final de semana!