Por Felipe Cuesta
Qual é o seu super-herói favorito? Homem-Aranha, Superman, Batman, Hulk ou Homem de Ferro? O meu é Jean Valjean, protagonista da maior obra de todos os tempos. Aliás, se me impusessem um exílio forçado e me permitissem levar apenas um único livro como companhia para o degredo, eu levaria “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.
A escolha é fácil. É o meu livro preferido da vida inteira. Trata-se de um calhamaço gigantesco, mas o escritor não desperdiça nenhuma parte do texto. Todas as quase duas mil páginas são importantes no contexto da obra e no arco dos personagens. “Os Miseráveis” é um livro de amor, de injustiça, de sofrimento e de redenção. Um livro que inspira o leitor, faz a literatura valer a pena e reafirma seu status de arte.
Victor Hugo: vida e trajetória

Victor-Marie Hugo nasceu em 1802, na cidade de Besançon, no leste da França. Foi escritor, dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta e artista, além de ter tido grande atuação política no país.
Seu pai foi general das tropas de Napoleão Bonaparte e republicano. Hugo definia-se como deísta, pois acreditava na doutrina de uma religião racional, na ideia de um “Deus ausente”, isto é, que criou o mundo e o deixou seguir seu curso. Sua mãe, por outro lado, era católica e defensora da monarquia.
Desde cedo, Victor Hugo conviveu com as tensões políticas e filosóficas de uma França pós-revolucionária. Formou-se em Direito por vontade do pai, mas depois decidiu seguir suas aspirações literárias.
Victor Hugo tornou-se um escritor de múltiplos gêneros e foi reconhecido já em sua época como um dos grandes expoentes do Romantismo e do Realismo.
Sua atuação política direta começou ao se tornar membro do Senado francês em 1845, inicialmente com uma postura monarquista. Após a Revolução de 1848, passou a adotar posições mais liberais e republicanas. Ao criticar o regime de Napoleão III, foi exilado por mais de 18 anos. Durante esse período, publicou poemas, ensaios críticos e peças teatrais.
Foi sobretudo com a publicação do romance “Notre-Dame de Paris” (1831) que Victor Hugo começou a se evidenciar como um grande escritor francês. Seu ideal de liberdade e a denúncia da miséria e dos problemas sociais do século XIX permeiam toda a sua obra, assim como as grandes questões humanas.
O sucesso de seus escritos lhe rendeu uma cadeira na Academia Francesa. “Os Miseráveis”, sua obra mais famosa, foi lançado em 1862 e recebeu inúmeras adaptações para o teatro, a televisão e o cinema.
Victor Hugo morreu em 1885, em Paris, aos 83 anos. Foi enterrado no Panthéon, onde estão os túmulos de grandes personalidades francesas, como Jean-Jacques Rousseau, Alexandre Dumas, Voltaire e René Descartes.
Um romance monumental

“Os Miseráveis” é o clássico dos clássicos. Entre as obras literárias que se tornaram referência cultural e transcenderam a época em que foram escritas, talvez seja uma das maiores.
A obra serviu de inspiração para muitas outras produções literárias. Ao mesmo tempo, refletiu os valores de seu tempo e ultrapassou sua própria época, tornando-se um paradigma nas letras mundiais. Trata-se de uma história envolvente, com personagens marcantes e discussões de temas importantes e abrangentes, sempre atuais em sua universalidade.
O romance monumental narra uma história que se passa na França do século XIX, em um ambiente pós-Revolução Francesa, entre duas batalhas: a de Waterloo, em 1815, que selou a sorte de Napoleão, e os motins de junho de 1832.
Cinco volumes compõem esse verdadeiro tijolaço literário e retratam a trajetória de vida de Jean Valjean, um homem preso e condenado por ter furtado um pouco de pão e que posteriormente é posto em liberdade. Acompanhamos sua trajetória de redenção e de reconstrução até o momento de sua morte.
Em torno dele giram personagens que testemunham a miséria do século, a pobreza e as injustiças sociais. Fantine, Cosette, Marius, Thénardier e Javert, entre outros, são personagens inesquecíveis.
A estrutura do romance é dividida em seis partes: Fantine, Cosette, Marius, “O Idílio da Rue Plumet e a Epopeia da Rue Saint-Denis” e Jean Valjean.
Cada parte se concentra em eventos que cercam um personagem específico, embora todos estejam relacionados entre si e se encontrem em algum momento da trama.
À medida que dialoga com o leitor, Victor Hugo vai mostrando como a sociedade lidou com as consequências e instabilidades políticas do período pós-revolucionário. É possível identificar diversas referências reais de batalhas e acontecimentos históricos, como o relato detalhado da Batalha de Waterloo e as desordens sociais de 1832.
Jean Valjean: redenção e transformação
Jean Valjean, herói popular e autêntico protagonista, está presente na maior parte do texto. Ele é o eixo gravitacional de sustentação de todos os outros personagens.
Condenado a 19 anos de trabalhos forçados por ter roubado um pão e por suas tentativas de fuga da prisão, viveu na miséria durante grande parte da vida antes de sua transformação e evolução como ser humano.
Ao deixar a prisão, Valjean é rejeitado por onde passa, pois todos o temem devido ao seu passado. Ele é expulso de hospedarias e impedido de permanecer em casas particulares.
Por fim, é acolhido por um bispo generoso que lhe oferece abrigo. Mesmo assim, Valjean o decepciona ao roubar castiçais e talheres. Quando é capturado pela polícia, no entanto, o bispo o perdoa e afirma às autoridades que havia dado os objetos de presente ao antigo prisioneiro.
Esse gesto muda completamente a vida de Valjean, que decide abandonar o passado e se tornar um homem honesto.
Miséria, injustiça e crítica social
O antigo delinquente muda de identidade e se torna dono de uma fábrica em uma cidade onde ninguém conhece seu passado. Apesar de ter construído um novo destino, vive constantemente assombrado pela possibilidade de ser reconhecido.
O inspetor Javert, obcecado pela justiça, passa anos à sua procura.
Na fábrica, Valjean conhece Fantine, uma jovem que foi abandonada pelo pai de sua filha. A menina, Cosette, fica sob os cuidados dos Thénardier, que a maltratam e desviam o dinheiro enviado por Fantine.
Após ser demitida da fábrica, Fantine vê-se obrigada a vender os próprios cabelos, os dentes e até a se prostituir para sobreviver. Quando Valjean descobre sua história, decide adotar Cosette e criá-la como filha.

Mais tarde, Cosette conhece o jovem Marius e os dois acabam se apaixonando, em meio aos diversos acontecimentos e conflitos que conduzem a narrativa até o desfecho emocionante do protagonista.
O título “Os Miseráveis” não é por acaso: vários personagens enfrentam situações extremas de pobreza, fome e sofrimento, revelando a profunda desigualdade social da França do século XIX.
Em um dos trechos mais marcantes do romance, Victor Hugo escreve:
“O mundo civilizado gasta em pólvora, em toda a terra, a cada vinte e quatro horas, cento e cinquenta mil tiros de canhão, completamente inúteis… Enquanto isso, os pobres morrem de fome.”
A leitura do livro é também uma verdadeira aula de história e, possivelmente, uma das experiências mais deslumbrantes que um leitor pode ter com a literatura clássica.
“Os Miseráveis” é um livro enorme, que assusta pelo tamanho, mas oferece grandes recompensas para quem se aventura em suas páginas.
É uma poderosa denúncia contra todas as formas de injustiça humana. Um livro profundamente religioso e político, com uma das narrativas mais envolventes já criadas.
Talvez poucas pessoas o leiam hoje em dia. O mundo atual exige pressa, resumos e economia de tempo. Para ler esse livro, é preciso disposição e fôlego.
Mas deveria ser leitura obrigatória para qualquer pessoa que deseja formar um verdadeiro acervo literário.
Um convite à leitura
Personagens complexos, narrativa fluida e uma habilidade extraordinária de encadear acontecimentos fazem de Victor Hugo um mestre absoluto da literatura.
O narrador se coloca como testemunha dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, como o próprio autor, tecendo reflexões sobre a história, a sociedade e a condição humana.
Se couber na sua agenda, dedique algum tempo para conhecer aquele que talvez seja o romance de ficção mais importante de todos os tempos.