Por Felipe Cuesta
Haruki Murakami é um dos autores mais influentes e lidos da cena literária mundial contemporânea. Um escritor cosmopolita, cidadão do mundo. Cultuado e traduzido para dezenas de idiomas, tem imenso prestígio nas comunidades de leitores e nos círculos literários. Um sujeito boa-praça, um japonês que corre maratonas, que adora orquestras, rock e jazz, que traduz livros para o inglês e que tem a trajetória marcada por romances e narrativas ágeis e envolventes, misturando elementos da cultura pop ocidental aos tradicionais da cultura japonesa, sempre com pitadas de fantástico e de sobrenatural.
Fatalista, às vezes desconcertante em seus escritos, há algo nostálgico, mágico e surreal em tudo o que ele rabisca, permitindo ao leitor uma interpretação própria de qualquer história por ele criada. “Eu sou uma pessoa realista, uma pessoa prática, mas, quando escrevo ficção, vou para lugares secretos e estranhos em mim mesmo”, diz Murakami. Suas obras engajam e deixam no leitor uma sensação de ineditismo misturada a algo confortável e familiar. Só lendo para entender.
É uma delícia ler Murakami. Sem contar as músicas e trilhas sonoras que ele apresenta na caracterização dos gostos musicais dos personagens, especialmente peças de rock, jazz e música clássica. Murakami é um ícone de estilo único, que transita por nichos e públicos leitores distintos e exigentes. Amado no Japão, é um ídolo cult. Ele é fã dos Beatles, e dois de seus livros têm relação direta com o quarteto de Liverpool: Norwegian Wood e Drive My Car, que recentemente foi adaptado para o cinema.

Murakami é esse grande representante sui generis da literatura e da cultura japonesa. E, mesmo dispensando parte dos elementos tradicionais das letras de seu país, num estilo que escapa aos paradigmas de Kawabata, Mishima ou Tanizaki, não deixa de se influenciar sutilmente pelos elementos convencionais de seus antecessores, nem de ambientar suas obras multiculturais pinçando traços marcantes de sua influência nipônica, especialmente nas ambientações dos personagens e nos rituais cotidianos seculares de sua cultura.
Murakami imprime um estilo híbrido que deu certo e explodiu no mundo todo, conseguindo dialogar com a nova geração em consequência da adaptação, em suas tramas, de um estilo único, marcado por modernos elementos de vanguarda cultural universal.
O bar de jazz e a rotina de escritor
Antes de ser o escritor nipônico mais lido do planeta, quando tinha vinte e poucos anos, Murakami teve um pequeno bar de jazz com sua esposa. “Ouvia jazz todos os dias, de manhã à noite; aprecio o sentido de ritmo e o improviso. Um bom músico não sabe o que vai acontecer a seguir. Reage no momento. Quando eu escrevo uma história, também não sei o que vai acontecer.” O nome do bar era Peter Cat, em homenagem a um de seus gatos, outra de suas paixões. Os felinos estão sempre presentes em sua vida e exercem influência de igual modo na obra do escritor.
Em Kafka à Beira-Mar, por exemplo, livro que será resenhado neste artigo, a personagem principal, Kafka Tamura, não consegue passar por um gato sem lhe fazer um carinho. Já em Crônica do Pássaro de Corda, a história gira em torno do gato desaparecido do personagem Toru Okada.
Quando está escrevendo um romance, Murakami mantém uma rotina rigorosa: acorda às quatro horas da manhã e escreve por cinco ou seis horas. À tarde, corre, pratica natação ou faz ambas as atividades. Depois lê um pouco e ouve música, indo para a cama, impreterivelmente, às nove. Seus dois livros preferidos, que influenciaram sua carreira de escritor, foram O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, e Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski.
Seu estilo literário é indefinido, mas há elementos de reflexão comuns a todas as suas obras: a solidão como caminho para o autoconhecimento; o mundo como imprevisível e surpreendente; a ideia de que não devemos buscar um sentido absoluto para as coisas; e o orgulho e o medo como forças que nos tiram a melhor parte da vida.
“Kafka à Beira-Mar” e o jogo de destinos

Para esta crônica, escolhi o exemplo do livro Kafka à Beira-Mar, um dos mais famosos do escritor, que conta duas histórias baseadas em dois personagens marcantes, tramas que correm em paralelo e se conectam no transcurso do enredo. O título não tem ligação direta com o escritor tcheco Franz Kafka, nem com qualquer grande elemento que remeta ao mar ou ao oceano. O enredo é um exemplo de originalidade, inesgotabilidade e autoidentidade da literatura contemporânea.
De um lado, o adolescente Kafka (nome que atribui a si próprio), abandonado pela mãe ainda criança, foge de casa por causa da relação conflituosa com o pai e de uma profecia que ligava seu destino ao mito de Édipo Rei, assombrado pela ânsia de se livrar da maldição. O jovem traz consigo um companheiro imaginário, um sujeito chamado Corvo, uma espécie de alter ego, um senso comum com quem dialoga, de natureza julgadora, que o aconselha e por vezes repreende suas ações e atitudes. O Corvo o avisa, desde o começo, de que sua jornada não será fácil e insiste que as projeções do inconsciente e do consciente serão extremamente dolorosas.
Na outra ponta está Nakata, um dos personagens mais marcantes e carismáticos de toda a obra do escritor. Idoso que, após um estranho episódio na infância durante uma excursão escolar às montanhas, perde a inteligência formal e a memória, passa a desenvolver habilidades alternativas, como a capacidade de conversar com gatos, fazer chover peixes e sanguessugas, além de antecipar eventos futuros e fenômenos naturais com rara precisão.

Os capítulos do livro se alternam entre os caminhos dos dois personagens, que seguem rumos independentes, mas o leitor percebe que, aos poucos, seus destinos convergem e acabam se cruzando. E Murakami constrói esse jogo no enredo com total maestria e domínio da narrativa.
Contando com personagens secundários que estabelecem com os protagonistas relações muito bem construídas de afeto, aprendizado e lembranças, como Oshima, Hoshino e Miss Saeki, o livro cresce até um clímax em que os personagens principais estarão indelevelmente interligados sem jamais se encontrarem e acabam por cumprir seus arcos.
A criatividade do escritor é tão grande que ele cria personagens identificados com marcas mundialmente conhecidas, como o assassino de gatos Johnnie Walker, referência a uma famosa marca de uísque, e Harlan Sanders, da franquia Kentucky Fried Chicken, um “conceito abstrato” que assume a forma de um cafetão ou traficante.
Um universo próprio
O universo do escritor tem simbolismo particular. Então, para quem ainda não o conhece, pesquise sua obra. Ele é o cara. Murakami tem um raro talento para nos engajar e contar boas histórias, criando um universo ficcional repleto de identidade própria — característica que, a cada obra, parece reafirmada pela recorrência de elementos comuns que deixam seu rastro no texto.