Você provavelmente nunca ouviu falar de John Williams, muito menos que ele escreveu um romance de formação no século passado que ficou esquecido pelo mundo por quase 40 anos, reaparecendo subitamente com grande sucesso na virada dos anos 2000. Um clássico contemporâneo da literatura norte-americana, redescoberto e aclamado tardiamente por público e crítica. Antes tarde do que nunca, pois agora podemos ler esta preciosidade: Stoner.
A obra narra a história de um filho de fazendeiros humildes do Meio-Oeste americano que se torna professor universitário de literatura inglesa. A mudança de rumo ocorreu após ele se apaixonar pelos estudos literários enquanto cursava Ciências Agrárias, ao vivenciar uma epifania durante uma disciplina eletiva de Shakespeare. Na cena, os olhos do professor Sloane voltam-se para Stoner e ele diz, secamente: “O Sr. Shakespeare fala com você através de trezentos anos, Sr. Stoner; você consegue escutá-lo?”.
Com o gatilho, ele escutou tão profundamente que nem conseguiu se expressar na hora. Converteu-se. Ele percebeu que, por vários momentos, estava segurando a respiração. Expirou com suavidade, mal notando os estudantes ao redor. Por vários minutos, ficou sentado, imóvel, encarando o piso. Guardou o sentimento consigo.
Desde o princípio, ele se dá conta de que os livros eram seu resgate da solidão — as ferramentas que poderia usar para tentar se salvar do caos existencial. Stoner embarca em uma carreira de magistério, mas seus dilemas e angústias nunca deixam de acompanhá-lo, e a passagem do tempo é percebida com tensão permanente.
Na trama, surgem questões relevantes como o distanciamento dos colegas, a iminência da Primeira Guerra Mundial e seus reflexos na academia, as dificuldades inerentes ao casamento, a morte dos pais e a dor da orfandade. Há também a relação com a filha, repleta de afeto mas conturbada pela alienação parental, e pitadas de um amor impossível com uma professora mais jovem, até o seu encontro singelo com a morte — a parte mais emocionante de toda a obra.
Percorremos quatro décadas do cotidiano deste homem, que impõe a si uma rotina banal e reage aos desafios com uma aparente indiferença; um estoicismo silencioso e eloquente que agrava a perplexidade já aflita do leitor. Esses elementos são a força e a ruína do protagonista. O trágico e o redentor coexistem nas entrelinhas, cabendo ao leitor decifrar as pistas deixadas no caminho.
John Williams foi escritor e professor de escrita criativa em Denver, Colorado, e, talvez inspirado em si mesmo, deu vida a essa história. Stoner é solitário e tenta se adaptar aos padrões de um mundo que lhe é estranho e incômodo. Ele veste a capa de anti-herói e vive com coragem uma vida desprovida de tons vibrantes, tal como ela é, sem fugas. Não há suspense, reviravoltas, crimes violentos ou mistérios intrincados. Conteúdos pirotécnicos passam longe desta novela; se sua preferência literária exige tais ingredientes, passe longe desta leitura.

Stoner é a beleza da simplicidade. Pois a mais silenciosa das existências, se examinada com esmero, pode render uma farta colheita literária. É o caso deste livro e suas reflexões desconcertantes: Por que estamos vivos? O que confere valor a uma vida? O que significa amar? Stoner é um peregrino que desfila com delicadeza pelo coração do leitor, deixando vestígios indeléveis. A obra se paga com sobras pela escrita magistral e pelas camadas psicológicas dos personagens.
Dentro da arca de tesouros que a obra nos presenteia, dois destaques criam uma conexão profunda. Primeiro, a reflexão sobre o amor. Na mocidade, Stoner o imaginara como um estado absoluto ao qual se poderia aceder por sorte. Na idade adulta, vê o amor como o paraíso de uma falsa religião. Até que, na meia-idade, percebe que o amor é um ato humano de transformação constante e entrega — uma condição inventada e alterada momento a momento, através da vontade, da inteligência e do coração.
Segundo, a maneira como o autor trata a finitude (a morte de Stoner não é spoiler, pois é mencionada nos parágrafos iniciais). Ao enfrentar um câncer, ele reflete sobre sua trajetória: o fracasso do casamento com Edith, a carreira exercida por vezes de modo indiferente, a renúncia ao amor de Katherine e o afastamento forçado de sua filha, Grace.
Ele só encontrou conforto nos livros. A presença deles em sua cabeceira era o seu alento. Pensou que talvez pudesse ser salvo pela literatura do destino comum: o esquecimento. E morreu como viveu, segurando um livro, sozinho: “Abriu as páginas e, ao fazê-lo, era como se o livro não fosse mais seu… Os dedos afrouxaram e o livro moveu-se lento pelo corpo já imóvel, caindo no silêncio do quarto”.
Mais do que falar sobre a vida de um homem comum, Stoner é sobre o peso das nossas escolhas e as bifurcações que nos conduzem a jornadas com mais ou menos significado. É uma jornada emocional de estímulos intensos, embora singelos. O grande público precisa conhecer a história deste trágico anti-herói da vida cotidiana. Maravilhoso.