Notícia

Gabriel García Márquez e a vanguarda literária da América Latina: o realismo mágico de Cem Anos de Solidão

Inserido em 19 de setembro de 2025
Compartilhamento

Por Felipe Cuesta

Não há ninguém no mundo que escreva tão bonito quanto ele. Nem estou discutindo o conteúdo dos enredos. Me refiro mesmo à beleza estética das descrições perfeitas de ambientes, situações, lugares, coisas e pessoas. A gente vai deitando os olhos sobre as páginas e elas vão nos devolvendo aconchego, doçura, encantamento e leveza, embevecendo os cinco sentidos. Quando nos damos conta, já estamos envolvidos pelo texto. Todo escritor de ficção precisa ser um pouco artista, um pouco feiticeiro, para capturar a atenção do leitor. O colombiano Gabriel García Márquez abusa desses dons que lhe são natos, hipnotizando seu público com palavras e mais palavras que levantam voo aos céus. Exagero? Então você nunca leu nada dele, ou então não prestou atenção. Ele era um escultor meticuloso de vocábulos, se valendo de um estilo inimitável para podar e polir cada frase com um esmero nunca antes visto na literatura. Pois não há como ficar neutro diante de sua prosa, uma unanimidade da cena literária mundial.

As frases infinitas de Gabo me remetem a Proust e a Saramago. Com pimenta caribenha e a doce melodia de uma salsa ou de um mambo. O texto dele nos convida para dançar e faz arder a chama do desejo e da paixão que mora em cada um de nós, realçando nossa latinidade nata. Suas criações literárias podem ser tanto os arquétipos representativos das múltiplas e exóticas realidades sul-americanas, como também podem abarcar aspectos meramente humanos e corriqueiros de seres de carne e osso. Não importa o formato que ele escolha. Se tiver o seu dedo no texto, haverá êxito e encantamento no resultado.

Nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, o boom da literatura latino-americana não teria ocorrido ou, pelo menos, teria sido bem menor sem a participação de Gabriel García Márquez. Gabo era comprometido com a criação de uma literatura popular e nacional, ou ainda, com uma literatura que refletisse a vivência latino-americana, repleta de fatos extraordinários experienciados pelas culturas regionais, em contraposição ao racionalismo europeu, que não admite como real aquilo que lhe foge à concepção estrita da explicação lógica e empírica.

A Europa e os Estados Unidos, de um modo geral, mantêm uma atitude de curiosidade meio antropológica em relação ao que vem de fora, proveniente do que eles denominam como países excêntricos, dentre os quais nós, sul-americanos, estaríamos incluídos como peças-chave, assim como os africanos. Somos o recreio divertido quando eles se cansam de tanta civilização. Nesse momento histórico, eles olharam para cá e sentiram fascínio pela literatura deste lado do oceano Atlântico, sobretudo dos países de fala espanhola.

No afã de nos entenderem, assim como para obterem explicações que lhes atendessem, reduziram e misturaram conceitualmente toda a nossa produção literária, para que coubéssemos em algumas poucas definições e acabaram rotulando um estilo continental multidiversificado em uma garrafa cheia de definições únicas. Então surgiram as classificações “realismo mágico” e “realismo fantástico”. É uma parte importante de nossa literatura, mas não é tudo.

Realismo fantástico ou mágico (são expressões sinônimas) é a técnica de inserir na narrativa, elementos estranhos ou sobrenaturais, sem que essas situações causem estranheza nos personagens, funcionando como algo natural e corriqueiro. A transcrição a seguir bem ilustra a definição: “teve um filho que passou toda a vida de calças larguíssimas e frouxas e que morreu de hemorragia depois de ter vivido quarenta e dois anos no mais puro estado de virgindade, porque nascera com uma cauda cartilaginosa em forma de saca-rolhas e com uma escova de pelos na ponta.”

Tipo isso. Ou tipo botar um idoso alado e enfraquecido voando num quintal com gente simples sentada tirando prosa. Navegar um navio fantasma que flutua na memória de um homem. Dois irmãos que caminham sobre cascatas de luz dentro de casa. Uma mulher que atravessa o deserto engatinhando em busca do túmulo do filho. Ou uma anciã que sonha com a própria morte e recebe a visita de um “vendedor de enterros”.

Cem Anos de Solidão é o habitat natural do realismo mágico. Como Pedro Páramo também é. Ambos são as nascentes precursoras desse estilo literário. Foi por esse livro (e por “Amor nos Tempos do Cólera”) que Gabo chamou a atenção do Nobel. A leitura causa impacto imediato por muitos motivos importantes. O primeiro e mais evidente, claro, pela linguagem repleta de humor e de poesia e pela qualidade das descrições narrativas. Mas há algo além disso, tão ou mais importante: Ao longo das páginas de Cem Anos, um mundo diferente parece se descortinar ao leitor, um mundo que em toda a essência parece parado no tempo, como uma cidade perdida no meio da selva, um eldorado cultural, um lugar delicioso e aleatório, fora da corrida vertiginosa que bem conhecemos no encalço da modernidade e do progresso. Ambos os motivos citados, os da linguagem e os do novo ambiente criado, produzem vasto encantamento, o primeiro objetivo da literatura.

A concepção da obra tem uma história curiosa. Um belo dia, ainda um autor desconhecido, Gabriel, que vivia no México como jornalista e correspondente, estava de férias com a mulher e os filhos quando, dirigindo numa estrada, descobriu que era capaz de recitar, palavra por palavra, o livro que vinha querendo escrever desde os 15 anos de idade. Foi uma epifania quando a primeira frase simplesmente brotou em sua mente: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.

De repente a primeira frase do livro estava ali, clara e perfeita em sua mente, toda a história que “mastigava” durante duas décadas fez todo o sentido e ele enfim sabia o que queria escrever. Foi como se a obra, ainda não escrita, lhe dissesse: “estou aqui, sou assim, agora me escreva”!

Um sinal. Pois bem, mãos à obra: Para escrever “Cem Anos”, o autor interrompeu todas as suas atividades e se isolou no México por cerca de um ano e meio (inicialmente, havia previsto seis meses), acampado em um pequeno estúdio onde escrevia pacientemente à máquina de escrever, sem fazer outra coisa. Em várias ocasiões, ele contou que escrevia sem parar, imerso em uma espécie de transe demolidor, até conseguir alcançar a última linha da história de Macondo, a cidade fictícia onde acontece a história da dinastia da família Buendía Iguaran, e que é inspirada em Aracataca, sua cidade natal. Gastou suas economias e, confiando no projeto, chegou a contrair dívidas. Sua fiel esposa, Mercedes, não somente pediu ajuda aos amigos, que pediam em troca apenas a leitura em voz alta de trechos do romance, mas também aos lojistas, e até ao açougueiro. Quando o dinheiro acabou, ele não tinha nem papel para a máquina de escrever, tamanha a penúria. Empenharam então o automóvel.

Terminada a primeira versão, havia um texto de mais de oitocentas páginas, um exagero, mesmo segundo sua ambiciosa pretensão. Após uma extensa revisão em que operou muitos cortes em trechos menos necessários, restou pouco mais da metade do tamanho original. Quando colocou o último ponto em “Cien años de soledad”, ele e Mercedes empacotaram a obra em dois envelopes para enviar pelo correio os originais para a Editorial Sudamericana, em Buenos Aires. Curiosamente, eles enviaram primeiro a segunda parte e ficaram com medo de rejeição dos originais.

Imaginem se houvesse um extravio deste material. Outros tempos. “Agora, só falta o romance ser ruim”, disse sua esposa a ele, com misto de raiva, ironia e esperança. O livro chegou ao destino, foi publicado e fez enorme sucesso: em 15 dias, os 8 mil exemplares publicados da primeira tiragem se esgotaram. E daí por diante, não parou mais, sendo o segundo livro mais lido do mundo em língua espanhola depois de Dom Quixote. Um assombro. Estima-se que já foram vendidos mais de 50 milhões de exemplares da obra, traduzida para cerca de vinte e cinco idiomas.

Como dito, o enredo se passa na fictícia cidadezinha de Macondo e narra a trajetória de seus fundadores, a família Buendía, a partir de uma concepção circular do tempo e dos personagens, e de um olhar para as impotências humanas diante da natureza, além do reflexo de uma América Latina atravessada por lutas de poder, guerras civis entre liberais e conservadores, exploração, repressão do exército etc. Nesse, que é um dos maiores clássicos da literatura mundial, o prestigiado autor narra a incrível e triste história de um grupo familiar, a estirpe de solitários para a qual não será dada “uma segunda oportunidade sobre a terra” e apresenta o maravilhoso universo da fictícia Macondo, onde se passa o romance. É lá que acompanhamos diversas gerações do clã, assim como a ascensão e a queda do vilarejo. Para além dos artifícios técnicos e das influências literárias que transbordam do livro, ainda vemos em suas páginas o que por muitos é considerado uma autêntica enciclopédia do imaginário, num estilo que consagrou o colombiano em definitivo.

Em nenhum outro livro, García Márquez empenhou-se tanto para alcançar o tom com que sua avó materna lhe contava os episódios mais extraordinários sem alterar um só traço do rosto. Ela foi a sua maior inspiração e era quem entretia o escritor menino em sua infância, tendo fornecido vasta matéria prima apta a cunhar e lapidar o fecundo imaginário do neto, que acabaria obtendo daí grande parte de sua inspiração para tantas obras fantásticas.

Com o livro, publicado em maio de 1967, o colombiano alcançou o olimpo literário. Em 1982, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Segundo a Real Academia Sueca de Ciências, “por seus romances e contos, nos quais o fantástico e o realístico são combinados em um mundo ricamente composto de imaginação, refletindo a vida e os conflitos de um continente.”

Ler Gabriel é fazer as pazes com a literatura. É testemunhar arte acontecendo a cada linha. É a delícia de um texto poético e a surpresa de um sorriso parado no rosto ao percorrer os parágrafos, acariciando o papel de modo instintivo. É um calor na face e um frio na barriga. Tudo junto. É um libelo contra a indiferença e o tédio. Por mais que eu crie metáforas, não adianta, nada vai substituir a sua experiência de leitura. Tá esperando o que, aliás, para começar?

Foto: divulgação/Fundación Gabo