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Proteja-se contra fraudes no comércio eletrônico: o caso da Amazon

Inserido em 14 de julho de 2025
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O cenário do e-commerce, embora propulsor de conveniência e acessibilidade, tem se revelado um terreno fértil para a proliferação de esquemas fraudulentos. Dentre as diversas modalidades de golpes que assolam as plataformas digitais, destaca-se a sofisticada fraude que explora o processo de compra e reembolso em marketplaces de renome, como a Amazon, culminando na obtenção de valores via Pix. Na coluna desta semana, vamos detalhar a mecânica desse golpe, apresentar dados estatísticos relevantes e ilustrar com casos reais, fornecendo subsídios para sua compreensão e prevenção.

Mecanismo Operacional da Fraude

A engenharia social por trás do golpe do Pix e cancelamento na Amazon é intrincada e se baseia em diversas etapas que exploram a confiança do consumidor na plataforma e a urgência por uma solução. O processo se desdobra da seguinte forma:

1.Anúncio fraudulento e isca de preço: O estratagema inicia-se com a veiculação de anúncios — frequentemente de eletrodomésticos e outros itens de alto valor agregado — em marketplaces da Amazon. A isca está nos preços significativamente abaixo da média de mercado, muitas vezes acompanhados de indicadores falsos de popularidade, como “top 1 mais vendidos”, para conferir uma legitimidade que não existe.

2.Compra legítima e cancelamento articulado: A vítima, atraída pela oferta vantajosa, realiza a compra diretamente na plataforma da Amazon, utilizando os métodos de pagamento usuais (cartão de crédito, boleto, Pix). Neste estágio, o valor é transacionado para a Amazon, não diretamente para o fraudador. Contudo, após a confirmação da compra, o golpista, agindo como vendedor, procede ao cancelamento unilateral do pedido. A Amazon, por sua vez, notifica o comprador sobre o cancelamento e inicia o processo de reembolso.

3.Contato com o cliente e início da engenharia social: A fase crucial do golpe ocorre quando o fraudador estabelece contato direto com a vítima, geralmente via aplicativos de mensagens como WhatsApp, utilizando dados pessoais obtidos durante a transação inicial na Amazon (nome, CPF, telefone, endereço). A narrativa empregada pelos golpistas é de um suposto erro no processamento da etiqueta de envio pela Amazon, atribuído ao peso ou dimensões do produto, e a subsequente necessidade de um envio alternativo via transportadora.

4.Exigência de pagamento direto via Pix: Para “efetivar” o envio pela transportadora e “solucionar” o problema, o golpista instrui a vítima a realizar um novo pagamento via Pix, após receber o reembolso da Amazon, diretamente para uma chave fornecida por ele. Este é o ponto de não retorno, pois o Pix é direcionado para uma conta de “laranja”, tornando a recuperação dos valores praticamente inviável, haja vista que a transação foi realizada fora do ambiente seguro proporcionado pela Amazon.

Estatísticas e panorama dos golpes no e-commerce brasileiro

As fraudes no e-commerce representam um desafio crescente no Brasil. De acordo com a pesquisa CNDL/SPC Brasil, 32% dos consumidores sofreram ou passaram por alguma tentativa de golpe nas compras pela internet. Em 2024, o Brasil registrou R$ 3 bilhões em tentativas de fraude no e-commerce, com um aumento de 9,8% no ticket médio das transações fraudulentas, atingindo R$ 1.072,33 — o que indica uma migração dos fraudadores para compras de maior valor agregado.

As categorias de produtos mais visadas por fraudadores em 2024 incluem celulares (4% das fraudes, ticket médio de R$ 2.788), acessórios eletrônicos (3,4%, R$ 2.295) e informática (3,2%, R$ 2.658). Itens como iPhones, Smart TVs e geladeiras são frequentemente utilizados pelos golpistas.

Embora haja flutuações, como a redução de 23% nas tentativas de fraude no primeiro trimestre de 2024 em comparação ao mesmo período do ano anterior, o cenário geral aponta para a persistência e adaptação dos criminosos. O horário de pico dos golpes é às 14h. Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo concentram a maioria das ocorrências.

Casos reais e repercussão na imprensa

A imprensa tem noticiado diversos casos que corroboram a complexidade e o impacto desses golpes. Embora nem todos os casos sejam idênticos, eles ilustram a diversidade de táticas empregadas e a vulnerabilidade dos consumidores.

Um relato em fóruns da Amazon Seller Central descreve um golpe em que clientes de Fortaleza, utilizando o Pix e envio próprio, alegaram não ter recebido produtos de alto valor (PlayStation 5 e óculos VR), mesmo com comprovantes de entrega. Posteriormente, os produtos foram encontrados anunciados em plataformas de venda, evidenciando a fraude.

Outros golpes comuns na Amazon, conforme reportado pela NordVPN e Avast, incluem:

Phishing e sites falsificados: E-mails e SMS falsos com links para sites fraudulentos que coletam dados pessoais e financeiros.

Problemas de entrega falsos: O golpista alega não ter recebido a mercadoria e solicita reembolso ou um segundo envio.

Ofertas de emprego falsas: Anúncios em plataformas legítimas que visam roubar informações pessoais de candidatos.

Golpe da “caixa misteriosa”: Anúncios em redes sociais que promovem pacotes com itens de alto valor por um preço muito baixo.

Um caso noticiado pela Proteste em 2021 relata uma vítima que, após aceitar uma suposta proposta de emprego da Amazon via Indeed, realizou pagamentos via Pix para “liberar mercadorias” e acabou perdendo todo o valor investido, inclusive com empréstimos bancários. Esses exemplos demonstram a constante evolução das táticas fraudulentas, que se adaptam às novas tecnologias e aos comportamentos dos usuários.

Medidas preventivas e recomendações

A prevenção é a principal ferramenta contra esses golpes. As seguintes medidas são cruciais para a segurança do consumidor:

Desconfiança de preços irreais: Ofertas excessivamente vantajosas, que destoam significativamente do valor de mercado, devem ser tratadas com extrema cautela.

Verificação rigorosa do vendedor: Antes de finalizar uma compra, examine o histórico do vendedor, suas avaliações e o tempo de atuação na plataforma. Vendedores novos, sem histórico ou com poucas avaliações, especialmente para produtos caros, são um sinal de alerta. É fundamental verificar se as avaliações do produto correspondem ao vendedor específico do anúncio.

Transações exclusivamente na plataforma: Jamais realize pagamentos ou forneça dados pessoais fora do ambiente seguro da Amazon ou de outros marketplaces. Qualquer solicitação de transferência é forte indicativo de fraude.

Comparação de preços: Consulte diferentes lojas e sites para comparar o preço do produto desejado.

Atenção ao catálogo do vendedor: Golpistas frequentemente apresentam catálogos com os mesmos produtos a preços muito baixos e condições de frete irreais para itens pesados.

Denúncia imediata: Ao identificar um anúncio ou contato suspeito, denuncie-o imediatamente à empresa responsável pelo marketplace.

Registro de ocorrência: Caso você seja vítima de um golpe, registre um Boletim de Ocorrência (B.O.) para documentar o crime.

É imperativo ressaltar que a Amazon, enquanto plataforma, é plenamente confiável para produtos vendidos e entregues diretamente por ela. O problema reside no marketplace, onde vendedores externos podem se infiltrar com intenções fraudulentas. A conscientização e a adoção de práticas de segurança digital são essenciais para mitigar os riscos e proteger os consumidores no ambiente do e-commerce.