Por Felipe Cuesta
João Ubaldo é Bahia. Ponto de chegada em Terra de Vera Cruz. Berço do Brasil. Primeira capital. João Ubaldo é Itaparica, no meio da Baía de Todos os Santos. João Ubaldo é filho de Gandhi e filho de Iemanjá. João Ubaldo é escrita com oralidade, com lirismo e tempero de pimenta, com deleite, molejo e sensualidade. João Ubaldo é descobrimento e revolução, autoridade suprema e imortal para nos ensinar lições de brasilidade. João Ubaldo é Cristão e Exu tranca rua do Candomblé. João Ubaldo é obrigatório. João Ubaldo, voz de barítono, herdeiro de Jorge Amado. Ambos com sobras daquela coisa boa e misteriosa que só pode ser chamada de baianice, ou baianidade, mistura de bom humor, marcha lenta e leveza, com a delícia de uma fala quase musical e doses generosas de talento e jogo de cintura para viver com harmonia e alegria. Ler João Ubaldo é saboroso como comer um acarajé recheado com vatapá e molho de dendê. João Ubaldo tem prosa exuberante e sarcástica, inestimável para a percepção de quem somos e de onde viemos.
João Ubaldo se levantava cedo, muito cedo — “indecentemente cedo”, frisou, em certa ocasião. Quando estava no meio de um projeto literário, acordava às quatro horas da madrugada e escrevia até as onze. Parava para descansar, almoçava às treze, escrevia mais três horas e depois tirava um cochilo até as dezoito. Aí acordava para jantar, ver televisão e então encerrava o dia. Uma rotina diferente do padrão, mas que funcionava que era uma beleza. Quando começava a criar um livro novo, saía vestido de bermuda, chinelo e sandália a catar inspiração nas esquinas de sua vizinhança, entre um trago e um tira-gosto, e se obrigava a escrever ao menos cinco laudas prontas e revisadas por dia. Era seu mínimo ético. Sem isso, não sossegava, ainda nos dias ruins em que as ideias desaparecem da cabeça e se escondem em qualquer canto do ambiente, recusando-se solenemente a dar as caras.
Sim. Pois ser escritor também é conviver bem com a falta de inspiração e saber aguardar pacientemente até que a criatividade resolva reaparecer do nada. João Ubaldo detestava reuniões sociais e recusava convites para participar de eventos literários, salvo quando não estivesse concebendo obra nova, num momento de entressafra criativa. Não fosse assim, o livro desandava. Valia à pena cada hiato de espera, eis que o resultado polido por seu árduo trabalho sobre o papel é assombroso e deslumbrante na forma de descrever as situações e de construir as estruturas vocabulares de cada frase, parágrafo e capítulo.
João Ubaldo era jornalista, professor, morou fora do Brasil por algumas temporadas, amigo íntimo de outro baiano espetacular, Glauber Rocha (quem primeiro o incentivou a publicar literatura), detentor de diversos prêmios literários e membro da Academia Brasileira de Letras, além de ser uma figura das mais simpáticas e acessíveis, dotado com simplicidade e inteligência emocional suficientes para ser capaz de rir de si mesmo e de não se deixar levar tão a sério. Em outras palavras: um gênio. Que bebeu na fonte de Machado de Assis, de Rachel de Queiroz, de Graciliano Ramos, de Érico Veríssimo, de Guimarães Rosa, de seu padrinho Jorge e de tantos outros para chegar a um estilo próprio e único.
Para discutir o legado do escritor, vamos até a mais importante de suas obras: um livro que vira favorito de quem o lê. Em “Viva o Povo Brasileiro”, as vozes que foram silenciadas são finalmente ouvidas e a história, sempre contada pelos detentores do poder, aqui é narrada também por quem sofreu as injustiças. Essa polifonia de ruídos, explorando o ponto de vista de diferentes e maravilhosos personagens, em tantas épocas, posições sociais e focos narrativos variados, é a estratégia ideal para desenhar a pluralidade do povo brasileiro. Apesar de ter outras obras primas no currículo, como a deliciosa e pornoescrachada “Casa dos Budas ditosos”, essa é sua “magnum opus”. Leiam ao menos uma vez na vida. Assim como “Dom Casmurro”, “Vidas Secas”, “Grande Sertão: Veredas” e “A Hora da Estrela”.
Texto que confirma o lugar cativo de João Ubaldo Ribeiro no panteão dos escritores em língua portuguesa, “Viva o povo brasileiro”, foi consagrado por crítica e público, como um dos mais importantes romances da literatura nacional — eu o considero o mais importante desde “Grande Sertão: Veredas”, sem contar Clarice Lispector, com sua proposta introspectiva e única. Conforme sua sinopse, o livro se volta às origens do Recôncavo Baiano para recriar quase quatro séculos da história do país por meio da saga de múltiplos personagens. “Viva o povo brasileiro” se desenvolve em grande parte no século XIX, mas também viaja a 1647 e avança até 1977. Nele, realidade e ficção se entrelaçam para criar um épico brasileiro com passagens heroicas e cômicas, tendo como pano de fundo momentos decisivos para a história do país.
Como aponta o professor de literatura João Luís C. T. Ceccantini, em seu texto “Brava gente brasileira”, o livro “Viva o povo brasileiro” é uma espécie de “epopeia às avessas”, em que a história do Brasil ressurge não sob a perspectiva da História oficial, mas pela ótica de personagens anônimos do povo. Na trama, o escritor segue as trilhas de um romance popular, sem cair no “popularesco” ou no “populismo”. E a saída que encontra para produzir um texto acessível, mas ao mesmo tempo de alto nível literário, é a sacada da paródia e do humor. “Viva o povo brasileiro” foi traduzido em vários idiomas e ganhou em 1984 o prêmio Jabuti, máximo reconhecimento das letras nacionais.
João Ubaldo mescla realidade e ficção para contar a história da construção da nação brasileira durante o século XIX e XX, utilizando-se de personagens de descendência africana, indígena e europeia e realizando uma análise minuciosa do sentimento nacional, do sentir-se brasileiro. A narrativa está repleta de saltos temporais e, embora seja romance histórico, os personagens e tramas são quase todos fictícios, o que possibilita explorar perspectivas inéditas e tornar o livro muito singular. Aqui não temos um personagem central, mas muitos. Boa parte da narrativa acontece na ilha de Itaparica, Bahia. O texto viaja pelo tempo, indo e voltando conforme o desejo do maestro, e percorre quatro séculos, relatando episódios desde a invasão holandesa, seguindo pela Independência de 1822, Guerra dos Farrapos, Guerra do Paraguai, Abolição da Escravatura, Proclamação da República, Guerra de Canudos, Ditadura Vargas e Ditadura Militar.
Focado na construção de uma ficção balizada na história do Brasil, o autor usa como recurso um narrador heterodiegético (onisciente e observador), que revela todos os detalhes das personagens e dos contextos históricos pelos quais a narrativa se embrenha. A linguagem é bem estruturada em relação à utilização do português prescrito na norma culta e a erudição vocabular do escritor é notável, até mesmo para quebrar o rigor formal do texto pelo emprego deliberado de variações linguísticas, vocábulos e expressões típicas dos diferentes períodos retratados. Isso é bem percebido nos diálogos que, em certos momentos, usam gírias, marcas de oralidade e expressões regionalistas de cada época. Desde as primeiras páginas, também é possível entrar no ritmo irônico do narrador, que se debruça sobre os relatos oficiais para expor, questionar e ironizar a formação e identidade nacional com um estilo erudito, elegante e delicioso de ser lido.
Um primor de capricho e de sofisticação na organização e na sequência de cada palavra como elemento imprescindível para a construção global do texto.
Exemplo de distinção na prosa é a maneira grotesca e terrível como os personagens da elite aristocrática se referem aos negros e aos escravos. O barão, talvez o mais remoto dos muitos protagonistas, é um verdadeiro facínora, um tirano implacável, um vilão de novela das oito. A verossimilhança que se quer empregar no contexto histórico exige o uso desse tom e nos transporta à cena a ponto de sentirmos constrangimento e raiva. Vejamos um desses trechos:
“O elemento servil da escravidão é indispensável para que se mantenha o país e a sociedade — comentou, cruzando as mãos às costas. — Nisto concordo, sem ele os custos tornar-se-iam proibitivos e não se poderia aspirar a transformar esta nação no celeiro do mundo civilizado e no fornecedor de algumas das principais riquezas de que depende a civilização. Mas há limites para o que se pode suportar da convivência com essas criaturas simiescas e obtusas, que estão neste mundo para que louvemos a Deus pelo nosso destino de homens normais e para que ponhamos à prova nossa caridade.”
Em outras passagens, ele não está tratando de nada importante, mas mesmo assim encanta e ensina com sua prosa enfeitiçante e reflexiva. Como não adorar e deixar de sorrir com um trecho “didático” como este: “O homem só admite que ele coma o bicho, não que o bicho o coma, embora o bicho não se importe com isso e continue comendo o homem, seja por merendinhas como as muriçocas, seja por freguesia como as lombrigas, seja por caça como as onças, seja em forma de comida dormida para os peixes e siris – morte no mar —, os urubus e guarás — morte na flor da terra —, os vermes e tatus — morte enterrada.”
E ainda, descrições super bem humoradas, conquanto sinistras, como por exemplo a que narra a caçada de um canibal antropofágico que adorava comer carne de nativos holandeses, o sensacional Caboco Capiroba: “Pouco antes de a rede do caboco Capiroba lhes despencar sobre as cabeças como dezenas de cobras enroscadas e Nikolaas Eijkman tomar uma porretada na nuca que o deixaria torto pelo resto da existência, ele e seu companheiro Heike Zernike estavam conversando sobre religião(…) já se preparava para levantar-se e colher um caju, quando o caboco Capiroba pulou de trás da capoeira e, rodando o cacete na horizontal com a força de um cata-vento, destroncou-lhe a cerviz de uma pancada só, após o que jogou a rede em cima dos dois, puxou o laço corredio que a fechava, amarrou-a no cajueiro e ficou esperando que uma das presas aquietasse e desistisse de bacorejar, para não ter que dar-lhe também uma porretada, correndo o risco de estragar os dois e desperdiçar comida.”
Outro trecho memorável e enciclopédico é o capítulo que retrata a realidade sofrida e violenta da Batalha de Tuiuti, no recorte do tremendo sofrimento experimentado pelos homens do batalhão de Itaparica, grupo integrante do regimento de voluntários da pátria filiados ao exército brasileiro, combatendo a mais sangrenta e mortal de todas as lutas contra os guaranis na guerra do Paraguai. Neste momento do livro, João Ubaldo desfila toda sua erudição elegante, seu capricho narrativo e diversidade cultural para, no contexto da trama, invocando a necessidade de proteção espiritual do personagem Zé Popó, (filho itapariquense que enfrentava dificuldades tremendas advindas da iminência da morte pelos sabres e baionetas do exército paraguaio), oferece uma aula magna sobre a cultura dos Orixás, apresentando ao leitor as entidades de Oxóssi, Oxalá, Xangô, Ogum, Iansã e Omolu, enquanto estas vão à guerra juntos com seus filhos oferecendo proteção e blindagem ao personagem.
“Viva o Povo Brasileiro” tem relevância cultural e literária preponderante nas prateleiras das bibliotecas e livrarias. João Ubaldo, respaldado na baliza dos fatos, conseguiu reconstruir a história do Brasil de forma satírica e original, a ponto de confundir de propósito os elementos de ficção e de realidade tamanha a versatilidade e a inventividade de sua prosa. E vamos pouco a pouco reconhecendo a nós mesmos como os personagens apresentados, compartilhamos o DNA do povo, marcado em nosso inconsciente coletivo. Um livro que precisa ser lido e só acontecerá no coração do público se for aberto e enfrentado. Aliás como qualquer outro. Se ficar no canto de uma estante, a mágica não se operará, escondida e empoeirada como papel velho e mofado.
Com uma perspectiva original, a história escancara nossas feridas e contradições, modifica fatos do passado, prevê o futuro e faz o leitor refletir, pelo bom humor e poesia, sobre os problemas sociais, políticos e econômicos que são parte do cotidiano brasileiro há séculos, trazendo à tona os elementos incoerentes de uma elite aristocrática que sempre rejeitou as minorias. Como o exemplo da exposição da hipocrisia dos senhores de escravos, que marcam com ferro e brasa o peito de seus pobres servos, e em seguida vão à igreja depressa para dar tempo de chegar sem atraso na missa, onde para recuperarem a serenidade, se confessarão sem remorsos aos párocos que acolhem seus dramas de consciência, garantindo a manutenção de seus lugares no céu.
Em outras palavras, pinta com tintas irônicas o quadro da nossa “aristocracia social” e sua aspiração a uma ascendência europeia, querendo fugir de tudo que é da terra e rejeitar os nativos. Ao mesmo tempo, o romance dá voz à ira do homem subjugado e oprimido, aos excluídos que tem no peito, preso, o grito pelas chagas de uma vida onde tudo lhe foi tirado, inclusive a liberdade e a dignidade. A história não cativa por pena ou pelas injustiças. Cativa por amor e empatia ao diferente. Se presta a acolher a luta pela sobrevivência do povo, negros escravizados, libertos, mulatos, pobres e índios, suas dores, felicidades e a verdadeira consciência do ser brasileiro. “Viva o povo brasileiro” retira dos escombros da nossa história, portanto, a memória necessária de um povo excluído e, mais do que tudo, desperta um sentimento de empatia e de identificação com tantas matrizes humanas essenciais à constituição de nossa gente.
Nos derradeiros trechos, a leitura vai de propósito desacelerando e o leitor atento percebe que está prestes a cruzar a linha de chegada, não por enxergar as páginas se extinguindo e sim pelo ritmo mais cadenciado e de “missão cumprida” que vai sendo empregado à narrativa, como uma despedida sutil do texto. No último capítulo, João Ubaldo se entrega à apoteose da prosa. E ficamos todos com o coração nas mãos e agradecidos pela jornada que se encerra, sendo então apresentados ao “Espírito do Homem”. Desculpe. Aqui não vou esclarecer mais nada. Para saber o que é isso, pelas palavras do próprio João Ubaldo, não serei eu, mas ele, quem vai te contar. Jamais cometeria tamanha deselegância. Você terá que ler até o final para descobrir.

Viva o povo brasileiro. Alfaguara. 2024. 680 páginas. Preço de capa: R$ 149,90
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.