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‘Pais e Filhos’ e o niilismo de Ivan Turguêniev

Inserido em 30 de abril de 2025
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Por Felipe Cuesta

Eu sei que você sabe que a literatura russa do século XIX é superfamosa e de vanguarda. Aqueles livrões enormes dos quais todo mundo comenta. Em algum momento, esses calhamaços já te encararam e te chamaram para a briga, nem que tenha sido da prateleira de uma livraria. Aquele seu amigo ou amiga que adora ler também já te botou essa pilha. Pode confessar. Sem contar que vira e mexe alguém publica um texto ou um vídeo por aí sobre algo dos “Irmãos Karamazov” ou sobre a “Anna Karienina”. Está quase no imaginário popular. Se você ainda não leu, está na sua mira a aventura de “Crime e Castigo” ou de “Guerra e Paz”. Desde a adolescência. Nem que seja para poder dizer que já leu e se sentir mais à vontade quando se deparar em uma roda de comentários sobre o tema.

Você tampouco é alienado para não saber que a disputa Fiódor Dostoiévski versus Liev Tolstói é o Fla x Flu da literatura eslavófila. Ótimo, parabéns. É isso aí mesmo. Vai neles em algum momento, se ainda não os conhece. Em breve teremos textos sobre ambos. Mas a ideia desse artigo, rompendo expectativas, é falar de nenhum dos dois. Quero falar de “Pais e Filhos”. Não, também não é a balada famosa da Legião Urbana, de estátuas e cofres e paredes pintadas, que embalou os sonhos adolescentes do povo com 45 anos ou mais. Não! Me refiro ao livro de um outro cara bom pra caramba dessa turma aí de cima, dos tais super escritores russos. Seu nome? Ivan Turguêniev.

“Pais e Filhos” é pule de dez nas listas de melhores livros de todos os tempos. É o romance que alavancou de vez as letras russas no ocidente. Não é à toa. É um livro ótimo de ler. Nada chato. Com uma prosa ágil e descomplicada, que flui bem e trata de assuntos importantes sem se tornar exageradamente denso ou complexo. “Pais e Filhos” é sobre choque de gerações. De um lado, os pais, trazendo um cabide de tradições e de influências da chamada intelligentsia russa, uma turma boa de perfil conservador e aristocrático, influenciada pela filosofia antiquada e meio chata de Hegel, que tinha por base a idealização romântica do espírito humano e a crença na arte como uma possibilidade de manifestação do belo inerente ao homem.

Na outra ponta, a geração dos filhos, com ideais mais dinâmicos e ajustados às novas realidades. A maioria, sem uma aristocracia na bagagem para chamar de sua. Um pessoal menos favorecido, sem classe social bem definida, que estava na correria do dia a dia cavando lugar ao sol e começava a conseguir chegar na universidade, em busca de seu espaço e de representação. Sem encontrar pertencimento no passado, esses caras vão negar a validade dos poderes instituídos e das ideias vigentes. Essa negação geral é o que se chamou de niilismo. Os caras eram umas malas. Niilismo de raiz etimológica “nihil”, que significa “nada”. Daí o termo. A literatura, sempre ela, pela voz de Turguêniev, personifica um personagem símbolo desses jovens desiludidos e blasés, o primeiro de que se teve notícia. Ele se chama Bazarov. Um protagonista inesquecível. Um dos dois caras mais interessantes de Pais e Filhos. Forma o eixo central do livro. Personagem lendário da literatura russa, como Raskolnikov, ou Aliocha Karamazov.

A obra vai focar nesse desconforto recíproco e inconciliável das ideias. Vai soprar o mofo embutido no discurso dos mais velhos, mas vai ridicularizar também o excesso de novidade estéril dos mais novos. O livro representa o embate ideológico e comportamental dos dois polos, nessa luta de gerações. Arkadi é o filho estudante universitário que chega de férias para descansar na propriedade do pai, Nikolai, trazendo consigo seu amigo, o incendiário Bazarov, um mentor ideológico de ideias dissonantes com as tradições familiares do rapaz. Bazarov é uma bomba relógio ambulante, um homem de visão progressista, ríspido, porém nada prático nem eficiente, e que não reconhece nenhuma autoridade ou regra social. Ele também é um pouco sombrio e conciso.

Nikolai, o pai e senhor das terras, representa a geração antiga e fica desconcertado desde o primeiro contato. Já nas primeiras páginas, seu filho, influenciado pelo amigo, aparece contido e econômico na expressão da saudade que sentira de casa e discute com o pai sobre o peso e a influência do local de nascimento sobre o indivíduo, tentando defender a liberdade e a independência do homem em relação às suas origens. Esse é só o pontapé inicial das desavenças, que acontecerão livro afora. A impressão é a de desconstrução e de invalidação de todos os discursos antigos. O Niilismo vai nesse caminho de desconstrução, caminhando rumo ao ceticismo sobre o valor e o propósito da vida e da existência em tudo que não for cientificamente comprovado.

Embora Nikolai não aceite as novas reflexões do filho, ele ao menos tolera a discussão das mesmas e tenta ponderar as ideias contrárias e os argumentos em defesa de suas crenças, ajudado por seu irmão, tio de Arkadi, que mora com ele. Pavel é muito mais radical e apimentado nos confrontos, desprezando os ideais da juventude e suas tolas convicções, a ponto de chegar ao extremo das vias de fato ao travar um duelo com Bazarov, uma das melhores cenas da narrativa. E esse duelo acaba sendo o marco inicial da decadência do personagem niilista e, aos poucos, a influência e o glamour de suas ideias vão murchando no decorrer das páginas a ponto de sua ideologia perder sustentação diante das forças naturais da vida, sendo ainda ineficaz como mola propulsora para uma revolução, que só se dará em mais algumas décadas. Bazarov, torna-se então uma incoerência e um paradoxo ambulante. Bazarov é na verdade uma mala sem alça por não apresentar nenhuma solução concreta aos problemas que tanto critica.

Arkadi passa aos poucos a enxergar os furos de Bazarov, sem perder o desencanto também pelas teorias paternas, caminhando assim em direção oposta aos dois extremos nos quais Pavel, Nikolai e Bazarov se situam. Ele é, portanto, o personagem de maior sucesso no livro, membro da burguesia moderna que vigorará na Rússia a partir da década de 1860, misturando seus ideais racionais à prática, capturando na medida certa o que havia de melhor tanto nos pais quanto nos filhos, sintetizando uma nova forma de pensar. Então, este encontro que o livro promove entre uma geração romântica e idealista e outra combativa, que já não se alimenta de ilusões perdidas, é o que dá vida a um dos maiores romances da literatura russa e universal. 

A obra fez estrago na época e alçou Turguêniev ao estrelato, influenciando Dostoiévski em sua derradeira sequência de romances monumentais, especialmente “Crime e Castigo” e “Os Demônios”. Quase dez anos depois de influenciar o movimento de emancipação dos servos com “Memórias de um caçador”, “Pais e filhos” surgiu no contexto turbulento de ascensão do movimento democrático revolucionário na Rússia, que culminaria meio século depois na queda do último Czar, engolido por sua incompetência de gestão e pela onda vermelha bolchevique.

Será que os personagens de “Pais e Filhos” têm analogias com Dom Quixote e com Hamlet, dois protagonistas universais? Segundo as palavras do próprio autor, sim. O primeiro, Quixote, é o representante da chamada “força centrípeta fundamental da natureza, que está inteiramente compenetrado na fidelidade ao ideal, em cujo nome é capaz de sofrer todas as privações possíveis e de sacrificar a vida”.

O segundo, Hamlet, em contrapartida, seria a “força centrífuga” do atuar humano, diferenciando-se por seu egoísmo, pela sua inutilidade em relação ao proveito às massas. Essas duas categorias humanas fundamentais estão respectivamente representadas em “Pais e Filhos”, dadas as devidas proporções, por Pavel e Bazarov. Assim, Turguêniev dispõe essas figuras em campos opostos do tabuleiro de jogo, e a relação conturbada entre eles funciona como uma espécie de eixo basilar do romance, pois todos os acontecimentos da obra podem ser interpretados tanto pela visão quixotesca quanto pela hamletiana.

Hipertalentoso e presenteado pelo destino com a força e o conteúdo de sua escrita sofisticada, o autor constrói uma narrativa irreparável, concisa e poética, mantendo-se confortável e sabiamente distante tanto dos pais quanto dos filhos, sendo que os dois lados, hoje, têm suas ideias já superadas e pertencentes à história, enquanto Ivan Turguêniev permanece intocável e imortal com este romance. 

Leia os russos. O máximo que puder. Eles são grandes professores de vida! Seus romances são como escola encadernada.

Pais e Filhos. Antofágica. 1ª edição. 2024. 346 páginas. Preço de Capa: R$ 109,90.

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.