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Black Mirror dá recado sobre tecnologia, memória e sentido da vida

Inserido em 25 de abril de 2025
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Por Patricia Carvão

A nova temporada de Black Mirror chegou recentemente à Netflix. A série já está na sétima temporada e traz episódios com narrativas distópicas, que unem o uso depossíveis tecnologias à realidade.

Um dos episódios que acho mais interessante da série é “Nosedive”, primeiro da terceira temporada (2016). Nele, a vida social é regida por um sistema de avaliações digitais, e a narrativa tem a proposta de questionar o uso atual das redes sociais e a busca desesperada por validação.

Lacie Pound (Bryce Dallas Howard) é uma jovem que busca subir sua nota para conseguir um desconto em um apartamento de luxo. Quando tem a chance de ser madrinha de casamento de uma amiga influente (com alta pontuação), Lacie embarca em uma busca descontrolada para impressionar todos ao seu redor, chegando a consequências imprevisíveis, com impacto direto sobre a sua avaliação.

Nesta última temporada, a sétima, recomendo que você preste atenção dois episódios em particular: “Pessoas Comuns” e “Eulogy”. 

Em “pessoas comuns”, somos levados a questionar a nossa relação com a finitude inevitável de todo ser vivo, e com a dificuldade em lidarmos com esse tema. O episódio aborda a vida de um casal de classe média, Amanda e Mike, e como suas vidas são afetadas a partir do momento em que Amanda descobre ser portadora de uma doença. Mike busca desesperadamente agarrar-se a uma alternativa para salvar a vida da esposa, mas acaba preso em um labirinto de novas escolhas e aprisionamentos. A trama nos convida a refletir sobre o futuro da tecnologia e suas implicações com a natureza humana. 

“Eulogy” traz a tecnologia como ferramenta de retorno ao passado, permitindo que tenhamos a possibilidade de entrar de maneira virtual em fotografias antigas. Uma fórmula para nos autorizar a reviver experiências pretéritas da juventude, mas com um olhar maduro.

A trama acompanha Phillip, interpretado por Paul Giamatti, um homem solitário que recebe uma ligação informando sobre a morte de sua ex-namorada, Carol. Ele é convidado a usar uma tecnologia chamada Eulogy, que permite aos seus usuários “entrar” em fotografias antigas e reviver memórias. Durante a  viagem, Phillip confronta lembranças distorcidas e descobre verdades que ele havia ignorado por anos.

Talvez seja esse o propósito da psicologia e da psicanálise, afinal. Nos permitir ressignificar nossas próprias histórias, nos liberando de amarras e marcas que o olhar infantil ou juvenil nos trouxe, ou que o próprio olhar adulto não nos permitiu decifrar. Mudar o passado nunca é possível, mas alterar nossa relação com ele é sempre algo que pode ser trabalhado.

A procuradora de Justiça Patricia Carvão escreve uma coluna quinzenal na newsletter da Amperj, comentando filmes e séries aos quais assiste nos cinemas e plataformas de streaming. Conheça suas sugestões para o fim de semana!