Por Felipe Cuesta
“A memória é uma armadilha, pura e simples, que altera, e sutilmente reorganiza o passado, de forma a se encaixar no presente.”
Estamos no Peru, na década de 1940. O pai abandona a família e pede divórcio antes mesmo de o filho nascer, largando a esposa grávida e desaparecendo por mais de década. O filho é criado pelos avós maternos e a vergonha destes em serem pais de mãe solteira em pleno patriarcalismo peruano conservador faz com que aceitem emprego e se mudem com o neto para viver em Cochabamba, na Bolívia, por cerca de dez anos. O menino passa, então, a primeira infância mimado e deseducado pelos pais da mãe. Tem o rei na barriga — e o amor pela leitura, que brota cedo. O avô, apaixonado pelo hábito, muito o incentiva. O menino também gosta de brincar e de levar para casa um monte de amigos. A vida para ele era festa e leitura o ano inteiro.
Ao retornar ao Peru já quase adolescente, descobre que não é órfão e finalmente conhece o pai, sujeito machista e violento com a mãe, com quem ele se reconcilia e obtém seu perdão mesmo depois de abandoná-la à própria sorte. O menino, então, é forçado a voltar a viver como o filhinho da família feliz, como se nada tivesse acontecido, e sua trajetória muda completamente a partir daquela data. Nesta nova fase, toma conhecimento do medo, do autoritarismo, da reclusão, do ciúme e da violência. Seu pai era um sujeito terrível e brutal. O menino cansa de presenciar o pai investindo covarde contra a mãe. Agressões físicas e verbais se sucedem. Seus protestos são em vão. A mãe, resignada e submissa na paixão cega, pede paciência.
Proibido de sair para brincar na rua como fazia quando morava com os avós e tios, ele passa os dias trancado em seu quarto. Por várias vezes, seu pai o surra em público. Como se tivesse autoridade. Uma dessas surras ocorre em um dia em que o pai o havia posto de castigo. Ele pensa que pode ir à missa. Erra feio. Não pode. Ao sair da cerimônia religiosa, é levado para casa sob socos e pontapés. Essas atitudes matam o garoto de vergonha. E matam cada vez mais o pai dentro de si, um pai que lhe era moribundo desde o nascimento. Isso permanecerá por toda a vida e o escritor jamais conseguirá se reconciliar com o genitor, mesmo com todo o arrependimento que lhe será mostrado anos mais tarde. A relação desastrosa com o pai é o primeiro calcanhar de Aquiles de sua existência.
Em seu quarto, escreve secretamente poesia e lê compulsivamente. Gosta de Borges, Flaubert, Baudelaire, Victor Hugo, Tolstói, Cervantes e Dickens. Quando não tem dinheiro para comprar livros e revistas, o dono da livraria empresta para ele os exemplares com o prazo de vinte e quatro horas para devolver. A leitura é o refúgio para a alma atormentada e para as atitudes violentas do genitor. Um meio de passar o tempo e sofrer menos. Quando Seu Ernesto toma conhecimento das manifestações poéticas do filho, se torna seu principal opositor. Afinal, poesia e literatura estão associadas diretamente à boemia e à vagabundagem. Literatura é perda de tempo para quem lê e mais ainda para quem escreve.
Com a cabeça cheia de mágoas do que sofre em casa, aliada aos sonhos de trabalhar em embarcações da marinha naval, ele pensa na alternativa de se juntar às Forças Armadas, mas não sabe ao certo o que esperar do futuro adiante. Só tem certeza de uma coisa: quer ficar longe do pai, e a ideia lhe traz satisfação. Ao completar 14 anos, por vontade própria, ingressa no Colégio Militar Leoncio Prado, em La Perla, Lima, como aluno interno, mas a realidade do lugar será ainda pior do que a rotina ao lado do pai. Ao entrar na instituição, conhece o lado obscuro da vida e se desilude com o militarismo. Já em seu primeiro dia de Leoncio Prado, após o almoço, os Perros (calouros) são batizados pelos cadetes da quarta série. Era o chamado trote, praticado em dezenas de universidades. Esses trotes consistem em levar os perros para o alojamento e pedir que fiquem em pé com o tórax envergado para frente e chutando o traseiro do companheiro da frente, tirar o pênis para fora da calça e se masturbar — quem terminar por último, sofre um castigo ainda maior.
Experiências como essa serão o tema de seu primeiro livro. “A Cidade e os Cachorros”. Sua estreia no universo literário. Vindos de todos os pontos do Peru, a maioria de origem humilde, com seus próprios problemas familiares e inseguranças, os jovens internos retratados neste romance são obrigados a sobreviver em meio a um ambiente brutal e hostil, onde a justiça quase nunca prevalece e os superiores, apesar de rígidos com a disciplina, mal sabem o que ocorre nos alojamentos. Ainda influenciado pelo ambiente castrense, escreve um outro romance de humor chamado “Pantaleão e as Visitadoras”, em que se serve de um atalho hilário dentro de uma situação supostamente séria: um comandante do exército peruano precisa criar um serviço de prostitutas para acalmar e entreter a tropa que se encontra reclusa e fincada em um regimento que cumpre missão secreta, perdido na selva amazônica remota.
Agora, o menino já é um grande escritor. É um homem jovem e se casa com a tia, doze anos mais velha. O pai do menino e os demais parentes são contra o projeto e o escândalo é abafado dentro da família. Essa experiência também influencia seus textos e vira literatura erótica de qualidade, mas que choca o Peru conservador. Com algumas referências autobiográficas, ele escreve “Tia Júlia e o Escrivinhador”, uma espécie de Lolita ao contrário e com mostarda latina. Depois volta ao tema que marca, como uma obsessão, grande parte de sua carreira, entregando obras sensuais e que falam de amores proibidos e prazeres eróticos escancarados, tais como “Elogio da Madrasta”, “Os Cadernos de Dom Rigoberto” e “Travessuras de menina má”. Ele tem um talento destacado para escrever as cenas de amor, repleto de sensualidade e de sutileza, suficientes para encantar os leitores, um deleite para o público.
A primeira experiência de casamento não dura para sempre e ele se separa da tia mais velha. Decide seguir se servindo amorosamente da família e casa com sua prima, dez anos mais nova, com quem terá três filhos e passará a maior parte da vida. O escritor terá uma jornada conturbada por amantes e romances impossíveis em paralelo e ainda sofrerá um processo lento de transformação de sua orientação política. Como todo intelectual latino-americano da época, sofre no prólogo da carreira a influência direta do pensamento marxista e defende abertamente o regime cubano durante o começo da fase adulta. Essa ideologia influencia a escrita de um de seus livros mais importantes, “Conversa no Catedral”, obra que se concentra nas conversas entre dois protagonistas em um bar. Enquanto bebem e desfilam recordações fragmentárias sobre suas vidas e seus conhecidos, recompõem, como um mosaico, o panorama político peruano nos anos 1950.
A certa altura, o escritor se decepciona com a política insular do Comandante Castro e com o pensamento de esquerda de uma maneira geral, varrido em parte pelos ventos da Primavera de Praga. E então briga com alguns de seus colegas mais importantes. Aos poucos, vai se permitindo ser influenciado por um niilismo inebriante, transformando-se primeiro em um liberal e mais adiante em um defensor ferrenho das ideias de extrema direita, influenciando com suas opiniões de figura pública a política do continente nas décadas seguintes, pelo que sofrerá críticas ferozes da comunidade literária e cultural do mundo todo, além de enfrentar uma campanha de cancelamento por parte de seu público, muitas vezes incapaz de separar o homem e suas ideias de sua literatura. Isso acontece também por ele navegar em mares revoltos e ter coragem de manifestar opinião contrária aos temas politicamente corretos, quando inseridos em um contexto que sirva como forma de castração da liberdade e da criatividade na criação literária.
“(…) En mi juventud, como muchos escritores de mi generación, fui marxista y creí que el socialismo sería el remedio para la explotación y las injusticias sociales que arreciaban en mi país, América Latina y el resto del Tercer Mundo. Mi decepción del estatismo y el colectivismo y mi tránsito hacia el demócrata y el liberal que soy –que trato de ser– fue largo, difícil, y se llevó a cabo despacio y a raíz de episodios como la conversión de la Revolución Cubana, que me había entusiasmado al principio, al modelo autoritario y vertical de la Unión Soviética, el testimonio de los disidentes que conseguía escurrirse entre las alambradas del Gulag, la invasión de Checoeslovaquia por los países del Pacto de Varsovia, y gracias a pensadores como Raymond Aron, Jean-François Revel, Isaiah Berlin y Karl Popper, a quienes debo mi revalorización de la cultura democrática y de las sociedades abiertas. Esos maestros fueron un ejemplo de lucidez y gallardía cuando la intelligentsia de Occidente parecía, por frivolidad u oportunismo, haber sucumbido al hechizo del socialismo soviético, o, peor todavía, al aquelarre sanguinario de la revolución cultural china. (…)”
A vida segue fluindo bem com a publicação de uma espantosa sequência de livros de alta qualidade e ele se transforma em um dos maiores escritores do planeta. Em dado momento, resolve revisitar a saga de um anti-herói brasileiro chamado Antonio Conselheiro e da guerra de Canudos, como que reescrevendo “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Ele adorava esse romance. Para a gigantesca empreitada, passa vários meses no sertão da Bahia, procurando inspiração e escrevendo os primeiros rascunhos do texto. Nele, se deixa influenciar pelos ventos do realismo mágico latino e mistura ficção com realidade de modo magistral. E, mesmo escrevendo em espanhol e conhecendo menos as peculiaridades regionais daquele microcosmo, supera o original e gesta um livro mais rico e interessante do que seu paradigma de referência. Ironias do destino e tributo à sua genialidade.
Vivendo na Europa, entre Madrid, Londres e Paris (aliás, ele deixa claro que seus primeiros livros são escritos em Paris e sua história de escritor sempre estará ligada à França), e influenciado pelos seus autores clássicos prediletos, escreve dois ensaios sobre obras universais de Victor Hugo e de Gustave Flaubert, que fazem estrondoso sucesso. Ele disseca duas de suas principais obras com um detalhamento quase inédito e se deixa levar pela magia que tais romances tiveram em sua formação de escritor. “A Tentação do Impossível” cuida de Os Miseráveis, ao passo que “A Orgia Perpétua”, esquadrinha Gustave Flaubert e sua Madame Bovary. Esses ensaios, assim como muitas de suas obras, são a chave para que o escritor ingresse consagrado na Academia Francesa de Letras, sendo o primeiro membro que não tem o francês como idioma nativo.
A vida profissional vai de vento em popa. O escritor está rico e vive no velho continente, apenas de escrever, vender seus livros e dar palestras. Sonho de consumo de dez entre dez escritores. Mas sua nova veia ideológica liberal e de direita acaba fazendo com que se meta ativamente na vida política peruana a ponto de disputar como favorito a presidência do país no ano de 1990. Ele é derrotado no pleito, sofrendo um violento processo de desmoralização pelo viés libertino de suas obras (voltam ao debate a moral e os bons costumes hipócritas na sociedade peruana dos anos noventa e a crítica às ideias “pervertidas” do candidato, manifestadas em livros como “Tia Júlia” e “Elogio da madrasta”, que deixariam incontestável a ausência de envergadura moral do homem como postulante legítimo ao exercício do mais alto posto da nação). Ele perde a disputa para um super populista conservador de origem nipônica.
Derrotado, se afasta em definitivo de sua breve incursão pela política e se dedica ao projeto de um novo romance. E então, ao longo de quase uma década, escreve sua obra mais monumental. O everest de sua literatura. “A “festa do bode”, um livro com narrativa magistral e com emprego de toda a maturidade e domínio das técnicas de escrita pelo autor. “A festa do bode” ambienta-se na República Dominicana oligárquica e conta a história de Rafael Trujillo, um ditador sanguinário da América Latina e sua sede de poder e de prestígio, que não mede consequências para a obtenção de seus desideratos, estabelecendo alianças, promovendo traições, eliminando adversários e bajulando amigos, líderes e amores proibidos. Puro suco da América Latina. Esse romance encaminha o passo definitivo para o reconhecimento universal do escritor e ele será finalmente agraciado pela Academia Sueca, que lhe confere o Prêmio Nobel de Literatura de 2010 “pelo conjunto de sua obra e por sua ‘cartografia das estruturas de poder’ e ‘vigorosas imagens de resistência individual, revolta e derrota’.” Em seu discurso de agradecimento, faz uma ode à leitura, à escrita e aos bons livros universais:
“(…) La buena literatura tiende puentes entre gentes distintas y, haciéndonos gozar, sufrir o sorprendernos, nos une por debajo de las lenguas, creencias, usos, costumbres y prejuicios que nos separan. Cuando la gran ballena blanca sepulta al capitán Ahab en el mar, se encoge el corazón de los lectores idénticamente en Tokio, Lima o Tombuctú. Cuando Emma Bovary se traga el arsénico, Anna Karenina se arroja al tren y Julián Sorel sube al patíbulo, y cuando, en El Sur, el urbano doctor Juan Dahlmann sale de aquella pulpería de la pampa a enfrentarse al cuchillo de un matón, o advertimos que todos los pobladores de Comala, el pueblo de Pedro Páramo, están muertos, el estremecimiento es semejante en el lector que adora a Buda, Confucio, Cristo, Alá o es un agnóstico, vista saco y corbata, chilaba, kimono o bombachas. La literatura crea una fraternidad dentro de la diversidad humana y eclipsa las fronteras que erigen entre hombres y mujeres la ignorancia, las ideologías, las religiones, los idiomas y la estupidez.(…)”
O nome do escritor ainda não foi pronunciado no texto. Mario Vargas Llosa. Trata-se de uma das figuras emblemáticas do mundo literário e do século XX. Seu legado é incontestável e essencial para a literatura latina e universal. Não há como comprar discursinhos baratos de cancelamento por conta de intolerâncias com suas opiniões políticas polêmicas, nem pelo fato de ele ter sido um pensador de esquerda que se transformou num pensador de direita. Assim como o joio do trigo, há que se saber separar o homem e suas ideologias de sua literatura. Ninguém está sempre certo ou todo errado. As ingenuidades de julgamentos enviesados são próprias de uma indesejada imaturidade. Nem pro bem, nem pro mal. Pois a verdade costuma estar no meio. Doa a quem doer.
Dito tudo isso, após 89 longos anos de uma existência intensa e profícua, ele resolveu se despedir da vida nessa última semana. Morreu cercado da família e de maneira serena, em seu apartamento localizado no bairro elegante de Miraflores, em Lima. A trajetória desse homem daria um livro de aventuras dos melhores. Mãos à obra, biógrafos e escritores. De qualquer modo, ele continuará sendo lido daqui a duzentos, trezentos anos, assim como fez com seus ídolos das letras francesas. O luto é inegável e o cânone se curva respeitosamente diante de sua tumba, lamentando com pesar o desaparecimento de um de seus maiores expoentes.
Obrigado, Llosa. Você é um de meus favoritos.
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.