A procuradora de Justiça Patricia Carvão selecionou três opções de bons filmes e séries para os colegas assistirem ao longo deste final de semana. Na lista, três produções: um filme italiano, um nacional e uma série de drama da Netflix. Prepare a pipoca!
Por Patricia Carvão
Assisti ao filme italiano “Família” na plataforma Reserva Imovision — estava há pouco tempo nos cinemas. Trata-se de uma narrativa que nos traz a triste realidade de mulheres que sofrem violência doméstica e o impacto dessa violência sobre os filhos.
No filme, Luigi mora com Licia, sua mãe, e Alessandro, seu irmão. Franco é marido da mulher e pai dos meninos, que desde a infância presenciavam as agressões sofridas pela mãe. Preso, Franco passa anos sem ver sua família. Quando é liberado, tenta se aproximar aos poucos dos filhos, já adultos, e depois de Licia. É interessante observar a reação de cada filho a essa aproximação, assim como a reação de sua ex-mulher.
A personalidade de cada rapaz foi estruturada de uma maneira — e Luigi e Alessandro reagiram à violência da maneira que lhes foi possível. Para Luigi, contudo, aparentemente ela causou maiores estragos do que no irmão.
O filme é muito forte — e baseado em uma história real.
Mudando a chave para o cinema nacional, “Vitória” está em cartaz.
Vale muito assistir! Em primeiro lugar, por conta da atuação maravilhosa da atriz Fernanda Montenegro. Além disso, a narrativa nos proporciona um retrato mais fidedigno das batalhas e dos desafios enfrentados pelas vítimas da violência urbana, notadamente as que residem em comunidades dominadas pela criminalidade. É um sofrimento diário de muitas humilhações, medo, insegurança, desespero e injustiça.
As vítimas que são inseridas nos programas de proteção de testemunhas têm suas vidas transformadas de forma abrupta, precisando deslocar-se para esconderijos onde vivem privadas dos vínculos sociais construídos nos territórios antes habitados.
No filme, a personagem de Fernanda Montenegro questiona em um primeiro momento a efetiva necessidade de se esconder e ser inserida no programa de proteção. Ao ser informada sobre as restrições que precisará enfrentar, pergunta: “Quer dizer que eu tenho que morrer para não ser morta?”
O filme é inspirado em uma história real.
Na seara das séries, assisti “Inacreditável” na Netflix.
Marie Adler é uma jovem de 18 anos que foi estuprada por um desconhecido que invadiu sua residência. Ela procura ajuda policial, mas em vez de receber acolhida e proteção, começa a experimentar uma série de violências psicológicas que marcarão sua vida a partir de então.
Marie é atendida o tempo todos por policiais do sexo masculino, que a fazem repetir por mais de uma vez os relatos do estupro recém-sofrido, fazendo-a reviver, a cada narrativa, a violência sofrida.
Ao final, Marie acaba sendo desacreditada pela polícia e processada por falsa acusação de crime (o que seria nosso crime de denunciação caluniosa), sendo-lhe imposta, inclusive, uma multa pecuniária.
Anos depois, uma outra mulher (interpretada pela atriz Danielle Macdonald, que trabalhou no filme Dumplin’) sofre um estupro com características semelhantes ao de Marie. Essa mesma vítima, ao contrário de Marie, é atendida por uma mulher policial, mais humanizada, que tenta minimizar sua dor, evidenciando a diferença que um primeiro atendimento em crime sexual pode trazer à vítima.
Com oito episódios, a série mostra o prosseguimento das investigações e a busca pelo autor dos crimes. Ao mesmo tempo, mostra os impactos do ocorrido na vida de Marie.
A apuração de crimes de natureza sexual continua sendo um desafio. Ocorridos de forma oculta, eles produzem feridas enormes em suas vítimas, que se perpetuam com o tempo. Quando procuram ajuda, as vítimas têm sua intimidade devassada e, na maioria das vezes, exposta sem qualquer cuidado.
A busca pelo atendimento humanizado das vítimas tem se dado através de iniciativas como o depoimento sem dano para crianças e adolescentes, trazido pela Lei 13.431/2017, e também a construção das Salas Lilás, espaços criados para prestar atendimento especializado e humanizado às mulheres vítimas de violência física e sexual, que funciona dentro do IML.
No Hospital Municipal Souza Aguiar, foi criado o Centro de Atendimento ao Adolescente e à Criança (CAAC), para que profissionais especializados atuem de maneira adequada. Neste local, o depoimento da vítima é gravado e essa gravação fica à disposição da polícia e da Justiça, não havendo necessidade da criança precisar prestar novos e sucessivos depoimentos.
Há sempre como buscar fazer a diferença na vida de alguém.