Você precisa conhecer Domenico Starnone e sua consagrada Trilogia Sentimental. O autor escreve de maneira incrível e é um dos novos bons autores da fecunda literatura italiana, fundada por Dante Alighieri e Giovani Boccaccio ainda na Idade Média. A Itália — se não bastasse ter a melhor comida, o melhor tomate, os melhores carros, alguns dos melhores vinhos, a melhor moda e os lugares mais bonitos e românticos do mundo, além de ser chique e caótica e a casa do Papa — fabrica um montão de ótimos escritores. A Itália briga na ponta por tudo que é bom!
Há rumores de que Starnone seria o mito Elena Ferrante — também rola uma teoria de que ele seria marido dela. Para quem está em Júpiter ou Saturno, Elena Ferrante é a escritora da moda nas duas últimas décadas, que ganhou o mundo e se transformou no grande fenômeno literário napolitano do século XXI. Elena, então, seria o pseudônimo da esposa de Domenico, Anita Raja. A escrita de ambos de fato têm nítidos traços convergentes e se ambienta num cenário comum, o sul da Itália. Enfim, se a história é verdade ou conversa fiada, pouco importa, pois a especulação serve apenas para contribuir mais para a lenda.
Fato é que Domenico nos apresenta livros com características comuns e marcantes, quais sejam os dramas e incoerências familiares mal geridos a descambar numa miríade de nuances psicológicas que, em última instância, revelam nossa própria fragilidade e humanidade, características encontradas em cada um dos poucos personagens de cada enredo, cuidadosamente elaborado para manter a unidade do conjunto. Domenico tem um DNA interessante, que permeia seu estilo de escrever. Um estilo cativante ao explorar e descrever as dificuldades e mazelas decorrentes das relações humanas de uma maneira geral, como se ele trouxesse a pauta de discussões já conhecidas, mas de uma maneira inovadora e criativa.
Os livros se desdobram sempre em formato e número de capítulos enxutos, geralmente três, cada qual contado sob perspectiva e ótica de um dos protagonistas — o que torna a percepção da história sempre muito relativa e sujeita a tonalidades próprias de cada narrador, gerando um turbilhão de surpresas e de pontos de vista distintos no leitor. Esse efeito é uma busca constante do escritor e oferece um resultado bastante interessante e inesperado aos leitores, que muitas vezes não conseguem sequer cogitar a forma como o escritor traz os desfechos das tramas.
Domenico chegou ao Brasil através da denominada Trilogia Sentimental, publicada pela editora Todavia, com as obras “Laços”, “Assombrações” e “Segredos”. Nos três livros, o autor exercita um estilo breve e potente de narrativa. Suas palavras e frases são como granadas emocionais de potencial devastador. Pequenas peças literárias dispostas a implodir a família, deixando-a em ruínas catastróficas.
Por conseguinte, o exame das sutilezas das relações familiares — como a de marido e mulher em “Segredos”, de pais e filhos no caso de “Laços”, ou de avô e neto em “Assombrações” — é de tal forma condensado em energia e intensidade que, ao final de cada trama, seus protagonistas estão vazios e parecem se converter em fantasmas. Exauridos e esvaziados, eles chegam ao epílogo desses livros em seus limites emocionais extremos, em frangalhos, sem nada mais a oferecer, pois deram tudo de si ao longo da narrativa.
Domenico Starnone trabalha duro e atinge seu desiderato literário de maneira fantástica. Dono de um texto preciso, é capaz de revelar de forma objetiva sentimentos e pensamentos complexos sobre os relacionamentos mais íntimos, qualidade muito especial para leitores que têm o hábito de tentar analisar seus próprios sentimentos através do espelho da leitura. São histórias particularmente encantadoras, que têm um elo, um traço de ligação comum, pois os personagens centrais exercem não por coincidência uma hiper reflexão sobre si e sobre suas escolhas de vida. Esse é o resultado comum trabalhado pelo escritor.
“Laços” é o primeiro deles que inaugura a série: “Caso tenha esquecido, Egrégio Senhor, sou a sua mulher”. É sobre vínculos familiares e sobre as amarras e dificuldades de um casamento de cinco décadas, vistos sob o ponto de vista de ambos os protagonistas da relação e de seus dois filhos. Um romance intenso e dolorosamente honesto sobre as marcas que o abandono deixa em uma família. A trama se desenrola em torno de um homem que abandona sua esposa e filhos para seguir com sua vida — e das consequências profundas dessa escolha. O livro é dividido em três partes, explorando diferentes perspectivas: a da mulher deixada para trás, a dos filhos que crescem sob essa sombra e a do próprio homem que partiu. O texto traz diálogos e reflexões que expõem a complexidade das relações familiares.
O leitor é confrontado a todo tempo com a dor da traição, o ressentimento acumulado ao longo dos anos e a dificuldade de reconstruir laços rompidos. Nenhum dos personagens é inteiramente bom ou mau, não há maniqueísmo nos respectivos arquétipos. O que vemos são seres humanos falhos — que erram, tentam consertar e, muitas vezes, falham novamente. A forma como o livro aborda o abandono e suas consequências emocionais é impressionante. A esposa traída não é reduzida a um clichê de vítima: ela é multifacetada, forte e, ao mesmo tempo, profundamente ferida. Os filhos, marcados pela ausência do pai, carregam consigo as dores da infância — e o próprio protagonista é forçado a encarar as cicatrizes deixadas por suas escolhas.
“Assombrações” é um livro diferente e igualmente potente, com uma dinâmica que explora as relações de forma distinta do volume anterior. Um avô e seu neto, que têm pouca intimidade entre si, são forçados pela mãe a passarem três dias na companhia apenas um do outro. A relação deles não é exatamente tranquila — ao invés de amor e cooperação, há competição e ressentimentos. Ele será responsável por cuidar do menino durante uma viagem da filha, que também parece não cultivar uma relação próxima com o pai há bastante tempo.
Mas, quando ela precisa de ajuda, é ao pai — o pai deixado de lado — que ela recorre: um senhor mal-humorado, rabugento e sem saúde nem energia suficiente para cuidar de uma criança. A experiência faz com que o avô, doente e debilitado, em contato com toda a vitalidade e energia do neto, na casa onde cresceu, reveja sua vida, suas escolhas e seus possíveis eus que ficaram para trás. O livro traz alguns incômodos inevitáveis, inclusive pela pouca disponibilidade do menino em se mostrar simpático e educado, colocando o avô em xeque e em certas situações de apuro.
“Segredos” fecha a série e também traz muito conteúdo literário de qualidade, embora talvez seja o mais fraco dos três. Anos 1970, Itália. Pietro tem 33 anos e é professor de uma escola na periferia de Roma. Ele mantém um relacionamento tórrido e desequilibrado com Teresa, dez anos mais nova, uma ex-aluna brilhante e independente que parece o tempo todo testar seus limites.
Certa ocasião, Teresa propõe um jogo: que eles compartilhem um com o outro seus segredos mais obscuros. Poucos meses depois de se confessarem, o romance acaba. Pietro se envolve então com Nadia, uma jovem que lhe transmite segurança e com quem ele se casa e tem filhos: ela nunca seria capaz de remexer suas coisas, ao contrário da antiga namorada. Porém, alguns dias antes do casamento, Teresa reaparece inesperadamente e os rumos da trama são redirecionados, afetando e assombrando todos os envolvidos.
Apesar de não ser tão espetacular como os anteriores, este livro segue sendo acima da média. Ao usar o termo “fraco”, faço entre as aspas, pois um fraco em se tratando de Domenico Startone ainda é pódio na literatura contemporânea, pois ele segue encantando com sua forma de escrever leve, fácil e prazerosa, descrevendo emoções como poucos e trazendo para as páginas de papel as emoções exatas que tentamos mascarar dentro de nós.
Em um tempo de privacidades devassadas pelo culto excessivo à tecnologia e às redes sociais, um tempo de superexposição da intimidade de cada um de nós por meio de autopublicações de imagens, textos e vídeos, escancarando gostos, aversões e preferências de todo tipo e formato, o que ainda significa, hoje em dia, falar de sentimentos? O que pode a literatura ainda oferecer de diferente e atraente, dentro da proliferação massiva das verdades íntimas de cada um por outros meios supostamente mais eficientes?
Ler Starnone pode ser uma chave e significar um indício de compreensão de que raramente os pontos de vista coincidem sobre algo no caldo dos conflitos e dos dramas familiares. E, por dominar com rara precisão e elegância as melhores técnicas de uma prosa inebriante, o autor acaba virando do avesso a alma de personagens tão contraditórios quanto fascinantes.
Você já leu Domenico? Talvez os livros dele estejam te esperando para serem melhor descobertos. Eu recomendo bastante. Leitura fluida e que traz excelentes reflexões sobre temas e angústias comuns a todos nós.

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.