Você já deve ter ouvido falar dele em algum lugar ou momento. Viu o filme, talvez. Lavoura Arcaica. Um soco na cara. Trata-se do livro de estreia de um autor até então desconhecido e descendente de libaneses, que publicou apenas duas obras na vida e logo abandonou a função, voltando a ser fazendeiro. Raduan Nassar é seu nome. O cara se tornou um mito. Uma lenda viva. Apresentou duas obras ao Brasil e foi embora para casa, se metendo no panteão da literatura nacional. Ele tem uma bomba atômica na caneta, um estilo de escrita inexplicável, perturbador, lírico e visceral. Deu uma de Juan Rulfo. Mandou a letra, na lata, soltou um petardo nuclear literário, tipo um Pedro Páramo, e desapareceu. A obra dos dois escritores, aliás, dialoga entre si, pois ambos praticaram o silêncio literário, se afastando dos holofotes e renunciando à volúpia e à cobrança de positivar pensamentos e de produzir novas obras.
Lavoura Arcaica parte de uma premissa bíblica conhecida do velho testamento e das religiões monoteístas em geral, impregnadas pela figura da família e do patriarca, a premissa da saída e do retorno do filho para casa, arquitetado à semelhança da “Parábola do filho pródigo”. O filho do meio se impõe um autoexílio e tenta driblar a fatalidade, renunciando a todas as suas raízes e referências e se transformando no anjo caído. Então, esgotado e contradito por ter deixado o lar familiar e por ter dado fim a seus recursos de subsistência, é retornado ao seio do clã no afã de redimir o equilíbrio do coletivo. A moral de redenção proposta na alegoria cristã foi explorada desde sempre em produções artísticas de diversos segmentos. Inclusive a literatura. Mas Raduan inova e inverte o final, escolhendo o desfecho trágico em substituição ao final feliz do texto religioso.
Aliás, as relações intertextuais de Lavoura Arcaica com as sagradas escrituras não se limitam ao diálogo com a parábola já mencionada. Na dura caracterização do personagem paterno, Raduan constrói o romance se servindo de várias referências aos provérbios e aos evangelhos. Apesar de se vincular à tradição, mexe os pauzinhos de sua literatura para inovar, propondo novas formas de articulação e interpretação de alguns dos textos mais antigos do cânone ocidental.
No enredo, encontramos a história de uma família tradicional de imigrantes libaneses que habitam o interior de São Paulo em meados do século XX. André é um dos sete filhos dessa família fechada em si mesma e protagonista do romance. Será o narrador que contará sua trajetória, da infância à adolescência, dos anos vividos em casa antes da fuga — motivada pela paixão silenciosa cultivada pela irmã Ana —, assim como do seu retorno para casa e para o jugo do pai opressor, um lavrador que toca o quinhão de seu patriarcado com mãos de ferro e punhos de aço.
Lavoura Arcaica começa com André, o narrador protagonista já no exílio, assolado por demônios e traumas alimentados por anos de árduo trabalho na lavoura, pela insuportável rigidez moral e religiosa do pai e pela atração sexual incestuosa reprimida que nutre por sua irmã Ana. Se não bastasse esse pacote, o sujeito ainda padece de epilepsia. Os reiterados episódios convulsivos funcionam para corroborar a imagem de um personagem maculado, imperfeito, tomado por espíritos do mal. Por outro lado, a corrupção moral que se quer impregnar no narrador já se faz presente desde o princípio do romance. Logo na primeira página, somos apresentados a André, numa cena incomum que evidencia um estado de entorpecimento sombrio e letárgico causado pelos efeitos de mais um orgasmo fruto de episódio de masturbação frenética.
André saiu de casa tentando escapar de uma sina perversa, mas, tal qual uma ovelha desgarrada do rebanho, deixou os genitores órfãos de sua presença. Ele saiu por devoção de fidelidade ao seu grupo, na medida em que sabe que seus desejos inviabilizam o equilíbrio estável do núcleo. A tragédia moral lhe persegue ao longo do romance e, malgrado as mazelas de uma vida miserável perambulando pela cidade grande, será arrastado de volta para casa na fazenda por seu irmão Pedro, enviado pelo pai na busca do filho esquivo, para que cumpra seu destino — ou talvez para que o destino se cumpra sobre seu desejo proibido. Como esperado, a volta não traz redenção e o livro termina abruptamente, deixando o leitor petrificado, segurando o coração nas mãos e de boca aberta!
No capítulo anterior da cena final apocalíptica, o escritor apresenta um momento belíssimo de embate de ideias conflitantes entre o pai e o filho que voltou. Ambos estão sentados à mesa e são observados de longe pela matriarca. É uma cena triste contendo diálogos excruciantes, em que ambos, embora tendo razão em seus pontos de vista marcados por visões de mundo antagônicas, são incapazes de fazê-las convergir para um ponto de interseção em prol do bem comum. A percepção da incompatibilidade definitiva entre ambos comove o leitor atento e traz lágrimas a seus olhos. Essa cena, inclusive, é uma das mais fortes e belas do filme homônimo, protagonizada por Raul Cortez e Selton Mello, pai e filho na adaptação audiovisual.

Raduan Nassar traz traços faulknerianos em seu DNA literário. O livro mete o dedo indicador em várias feridas sociais e morais. Alguns leitores podem disparar gatilhos. Loucura explícita, surtos psicóticos, depressão, episódios de masturbacão, zoofilia e um arco sobre amor incestuoso. Curioso que Ana é uma personagem de palavras ausentes e se faz notar na trama apenas pela expressão dos desejos de André e por sua interação com o irmão, sensual e silenciosa. Tão pesado quanto impactante! Conforme a crítica do imortal Alceu Amoroso Lima: “novela trágica, numa atmosfera bem brasileira, mas dominada por um sopro universal da tradição clássica. Drama tenebroso, em estilo incisivo, nunca palavroso ou decorativo, da eterna luta entre a liberdade e a tradição, sob a égide do tempo. Livro impressionante, magistral.”
A erudição e a forma/fluxo do texto são elementos tão ou mais impressionantes que o conteúdo. Há trechos memoráveis e enciclopédicos ao longo da narrativa. Um deleite para os estetas de parágrafos e capítulos bem trabalhados, sem palavras desperdiçadas. Raduan ostenta uma compulsão descritiva incomum, mas propõe um enredo simples, agudo, ambivalente e que transita entre a insanidade e o desabafo. Esse livro não pode deixar de integrar o currículo de nenhum leitor. Mesmo quem improvavelmente não goste, precisa conhecer:
« acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas invadam e contaminem a luz do outro »
Assombra a potência da prosa de Raduan.
O romance é marcado ainda pelas ambiguidades, antíteses e metáforas, assim como a força retórica do discurso dos personagens. Os capítulos curtos intercalam momentos de ação e de memória. Ficam bem delimitadas as estruturas de poder presentes na fazenda familiar. Enquanto o pai e o irmão mais velho são os detentores da palavra, da razão e da moral, responsáveis pelos sermões e discursos religiosos, a mãe, André e a irmã são o lado mais emocional e espontâneo do clã, distantes da razão e do bom senso. Esses lugares estão bem demarcados até na posição em que a família se senta na mesa para os sermões e as refeições. O narrador está, então, asfixiado tanto pela moralidade paterna quanto pelo afeto desmedido da mãe. Se não bastasse isso, André sente um desejo sexual e amoroso pela irmã impossível de ser consumado. Esses componentes fermentam sua insanidade e são os pontos de partida para o desenrolar da trama.
Sobre a inserção da polêmica temática do incesto, André inegavelmente enxerga no sexo uma oportunidade de libertação. Mas nada é fácil. Criado em um ambiente fechado e opressor, ele é incapaz de escapar da prisão familiar que o constitui e simultaneamente o delimita. André só consegue expressar genuinamente sua sexualidade quando seu objeto de desejo é algum membro da família. Assim, o desejo incestuoso é a sua mola propulsora, instrumento para desafiar a autoridade do pai, ao mesmo tempo consequência e causa da insubordinação que inspira a partida e a volta. O drama do incesto é tão dorsal para a obra, que encaminha a sua conclusão e pinta um dos desfechos mais fortes e simbólicos da literatura brasileira, com a afirmação do poder e a marca do sacrifício pelo bem maior, qual seja a manutenção do bem-estar e da ordem familiar.
O livro se tornou um clássico instantâneo. Com um tamanho exato. Se fosse maior, ficaria cansativo; menor, faltariam detalhes da trama. A escrita é propositalmente truncada para dar crédito ao terremoto interno e à aflição do narrador. Mas também é lírica e direta nas mensagens. O tiro poderia ter saído pela culatra e o livro, dado muito errado. Mas deu certo. A repercussão foi tão fora da curva que obrigou expoentes do quilate de Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido e Clarice Lispector a saírem da zona de conforto e tecer comentários assombrados sobre a obra. Publicado em 1975, ganhou o Prêmio Jabuti em 1976. Em 2016, venceu o Camões, principal distinção literária de língua portuguesa pelo “Conjunto da Obra” de duas obras.

Lavoura Arcaica. Companhia das Letras. 1ª edição. 1989. 200 páginas. Preço de capa: R$ 74,90
Vai nele, não tem erro. Não é uma leitura simples. Mas é genial. Enfrente. E tente ficar de pé.
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado à literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.