Se Machado de Assis foi generoso com o Dom Casmurro Bentinho, deixando a dúvida pairar no ar sobre a provável infidelidade de sua amada, Gustave Flaubert, colega francês do bruxo do Cosme Velho, foi inclemente com Charles Bovary, talvez o maior marido traído da história da literatura mundial. O galhudo paradigma da ficção moderna. Emma Bovary, a protagonista, nascida em um tempo de submissão social feminina, é moça sonhadora e provinciana, que passou a infância e a adolescência lendo romances sentimentais capazes de potencializar seus parâmetros inatingíveis de amores e de paixões, vindo a contrair núpcias com um marido pacato e pragmático, incapaz de fazê-la feliz e de corresponder aos seus ideais de folhetins. Ela vai então passar a vida debruçada nas janelas do adultério e do consumismo, tentando compensar suas lacunas existenciais e seu tédio conjugal, provenientes de uma insatisfação permanente e não bem compreendida.
Para se ter uma ideia do quão vanguardista foi o comportamento de Madame Bovary, basta dizer que Capitu e Anna Kariênina, outras duas personagens femininas marcantes e com paralelismo literário, embrenhadas que estão nas temáticas do adultério, não chegam aos pés de sua colega francesa no termômetro da infidelidade conjugal. Emma barbarizou com Charles — e ele ainda pagou de compreensivo e absolveu a moral da Madame. Até agora não sei se acho ele um babaca ou um cara diferenciado. Sem veredito, por enquanto.
A história faz um ataque à burguesia da época, golpeada de maneira irônica e desmoralizada pela descrição exuberante de sua banalidade. Reconhecido por vários críticos e autores como “o romance perfeito”, Madame Bovary é a obra da vida de Gustave Flaubert. Trata-se de uma raridade estética, mesmo para um parâmetro clássico. Nela, o escritor francês permaneceu por cinco anos — embrenhado em um exercício meticuloso de escrita que desafia as estruturas literárias e as convenções sociais. Flaubert avançava devagar, a passos de formiga, esculpindo o texto palavra por palavra e reescrevendo cada frase dezenas, centenas de vezes até encontrar um resultado satisfatório para seu romance de ruptura com as referências anteriores do gênero.
Eu já li três vezes a saga dos Bovary, a última há pouco tempo, na edição primorosa da Editora Antofágica. O livro, como poucos, desde as primeiras linhas, hipnotiza o leitor, deixando-o rendido e vampirizado, distante de todas as distrações ao redor, absorvido na busca ávida pelo desdobramento da história e pelo final da trama. Embora o imaginário coletivo possa sugerir o contrário, o livro não é nada sexual, conquanto por demais erótico. Esta é, inclusive, uma das vantagens comuns dos livros sobre os filmes e, especificamente em Madame Bovary, o ritmo cadenciado da escrita proporciona doses crescentes de sensualidade e de tensão, aptas a sequestrar a imparcialidade e a indiferença do leitor, mergulhado em um ambiente afrodisíaco que potencializa sua angústia e seu desejo, sensações estas misteriosamente intercaladas às sensações dos próprios personagens, gerando um efeito estético bastante eficiente para quem lê.
Emma Bovary primeiro quer casar. Acredita que esse passo vai transformar o sentido de sua existência. Mas apenas seu marido encontra o amor na união. Emma precisa então preencher seu vazio de paixão a todo custo e sai em uma jornada frenética e insaciável consumindo bens e amantes, para preencher o buraco de sua vida. O comportamento sempre gentil e carinhoso de Charles, que não percebe ou finge não perceber a insatisfação e as escapadas da esposa, chegando ao ponto de quase lhe empurrar ao encontro dos amantes, contribui para o anticlímax entre eles e incrementa a ojeriza de Emma — e talvez dos leitores — pelo marido. O cara é um verdadeiro banana, um trouxa essencial, cego e imune aos apelos de tantas evidências, confiando na mulher de maneira quase inverossímil. Então, o livro ruma para o único desfecho possível no contexto do enredo e da época, pois a tragédia de Emma Bovary é ser mulher e não ser livre para bancar seus impulsos, deixar de sofrer restrições e encontrar portas fechadas, deixando-a sempre à mercê dos homens.
Madame Bovary é o livro que deu o pontapé ao chamado realismo na literatura. O movimento do século XIX tem Flaubert, Balzac e Zola na França; Tolstói, Dostoiévski e Tchekhov na Rússia; Charles Dickens e George Eliot (pseudônimo de Mary A. Evans) na Inglaterra; Machado de Assis no Brasil; Eça de Queiroz em Portugal; e Thomas Mann na Alemanha como alguns de seus mais emblemáticos representantes.
O Realismo se caracteriza pelo estilo objetivo de narrar os fatos, a ironia, a crítica sociopolítica e pelo fim das idealizações românticas, com retratos frequentes de adultério, miséria, incoerências comportamentais e fracasso social. Flaubert nos mostra uma das coisas mais difíceis de se aceitar sobre a vida: em muitos momentos, ela é sem graça. Pode-se fazer de tudo para apimentar a existência, mas no fundo sempre haverá certo marasmo causador de aflição à vivência de qualquer um. Assim, Madame Bovary é também uma leitura com doses generosas de melancolia, permitindo reflexões e ensinamentos sobre o tédio parcial que faz parte do cotidiano. Esta provocação é a grande problemática do (con)texto.
Nesta linha, a reflexão filosófica interessante que o livro nos proporciona é sobre a diferença entre alegria e esperança versus tristeza e medo. Alegria é tipo de afeto marcado por algo real, encontrado, uma coincidência entre expectativa e experiência vivida. Esperança é tipo de afeto pautado no imaginário, um ideal daquilo que se quer obter, e não sobre o que de fato se encontra. Se coincidirem alegria e esperança, será obra do acaso. De igual forma, ao revés, se aplicam os conceitos de tristeza e medo.
Portanto, esperança e medo funcionam como dois lados da mesma moeda. Na medida em que se espera um acontecimento idealizado, também passa-se a ter medo que aquilo não aconteça. A oscilação humana entre a esperança e o medo é o que Espinosa chamava de variação da alma, diferentes da concretude conceitual da alegria e da tristeza, pois nestas uma acaba afastando a outra. Se sou mais alegre, sou menos triste e vice versa. Já aquelas podem coexistir — afinal, ter esperança também é ter medo de que o desejo não se realize. O texto de Madame Bovary nos faz pensar sobre isso o tempo todo.
Antes de terminar, vale pontuar que a obra fez enorme sucesso ao ser publicada, recebendo grande acolhimento do público e sendo aclamada mundo afora ao longo dos últimos dois séculos como um dos maiores romances da história da humanidade. Em contrapartida, o livro foi considerado contrário aos bons costumes da época e Flaubert foi levado a julgamento perante a Corte de Justiça. Ao ser finalmente absolvido, declarou: “Madame Bovary sou eu”. Ou seja, Madame Bovary representa toda a hipocrisia de costumes daquela sociedade, escancarando para as pessoas uma incoerência quase intolerável de tão ofuscante ao senso míope da moral comum.

Madame Bovary. Antofágica. 1ª edição. 2023. 496 páginas.
Preço de capa: R$ 114,90
Faça um favor a si mesmo e presenteie-se com a leitura desse romance essencial, clássico absoluto da literatura universal. E se depare com o dilema entre o “felizes para sempre” e as dolorosas delícias de paixões arrebatadoras e incontroláveis de uma jovem que quer arder e ser desejada acima dos limites da razão.
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.