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Você já ouviu falar sobre a Literatura Húngara?

Inserido em 24 de janeiro de 2025
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Por Felipe Cuesta

A Hungria é um país pequeno do leste europeu. Ela tem uma etnia e uma língua totalmente diferentes dos demais povos ao redor. São os magiares, descendentes de uma tribo asiática central, bárbara e nômade. A Hungria faz um vinho de sobremesa famoso, o Tokaji, a partir da uva Aszú, botritizada e fermentada em cestos próprios chamados puttonyos. A Hungria foi comunista forçada na época da influência soviética e é banhada pelo trecho mais bonito do Danúbio, que separa as duas partes de sua linda capital, Buda e Peste. A Hungria se fez notar ainda por Ferenc Puskas, um craque de bola que, sozinho, quase ganhou a Copa do Mundo de 1954, e pelo Goulash, o prato típico de sua culinária, lotado de páprica. Budapeste é cheia de banhos termais e muito mais linda e charmosa do que Praga, embora essa convicção seja partilhada por ampla minoria. E a Hungria, creiam, tem uma literatura fecunda, acima da média e fora do radar dos leitores brasileiros.

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A produção literária na Hungria é muito expressiva e criativa, sempre com personagens marcantes, tramas envolventes e repletas de temas universais. Apesar de serem feras nos romances, os escritores magiares também se destacam no campo das narrativas curtas. Eles são excelentes nos contos. O livro mais conhecido deles é “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár. Alguns leitores inclusive podem ter lido o mesmo na infância. Mas não é deste que vou tratar. Vamos um pouco adiante. Quero apresentar dois autores húngaros muito cultuados e talentosos. Eles são Magda Szabó e Sándor Márai. Ambos com obras publicadas e reconhecidas mundo afora. Falaremos dos romances “A porta” e “As brasas”.

O primeiro deles — o livro de Szabó, “A porta” — já teve sua versão cinematográfica: “Atrás da Porta”, um filme com a atriz Helen Mirren interpretando a enigmática Emerenc. Mas nada substitui a leitura da obra, como aliás quase sempre acontece. Só o livro pode revelar todas as nuances da improvável, bela e complexa amizade entre duas mulheres em quase tudo diferentes. Pintada com tintas autobiográficas, a narradora Magda, que pode ser a própria autora, ou uma personagem ficcional homônima é uma escritora de classe média que vive com seu marido em um apartamento na Budapeste do fim dos anos 1950 e tem uma relação nebulosa com as autoridades comunistas na Hungria moderna pós-Segunda Guerra Mundial. Para conseguir exercer seu ofício, ela contrata uma vizinha para ser sua governanta e ajudante. A protagonista será recrutada. Emerenc. Guardem esse nome. Uma camponesa analfabeta, impassível, bruta e de idade indefinida.

Destaque da obra, Emerenc é uma personagem das mais cativantes e enigmáticas dentre os protagonistas dos romances que li nos últimos tempos. Uma mulher cheia de segredos, dotada de muita humanidade, um coração enorme, alguma brutalidade, rudeza no trato e uma força de trabalho inesgotável. O romance gira em torno dela e de sua vida misteriosa. Uma mulher que tem vários trabalhos braçais como varredora de neve e arrumadeira para pessoas de sua vizinhança e comunidade e que é contratada também pela narradora do romance, uma escritora húngara que faz sucesso nacional e vive com o seu marido e precisa de uma ajudante arrumadeira.

Emerenc recebe a proposta e resolve aceitar após certa hesitação. A curiosa personagem mora em uma residência em que não se permite a entrada de nenhuma pessoa, vai trabalhar em horários alternativos e divide o espaço com vários gatos que vai resgatando devido a seu amor pelos animais. Logo que começa a trabalhar na casa da narradora, Emerenc se afeiçoa por um cachorro vira-lata chamado Viola, que é resgatado, salvo e adotado pela escritora e seu marido. Viola passa a ser quase um humano e é tratado como filho por Emerenc, sendo um personagem importante do romance, estabelecendo uma relação de simbiose e dependência daquela.

O livro começa com uma informação que intriga o leitor. A narradora antecipa que Emerenc está morta e que — mesmo não querendo — ela teria sido a responsável por sua morte. A narrativa então volta no tempo e vai mostrando as sutilezas da relação de dependência, afeto e hierarquia cruzada que se desenvolve entre as duas além das peculiaridades e segredos de Emerenc, que vão sendo mostrados enquanto se cria uma relação de amor e ódio entre as duas protagonistas. 

O leitor, a cada página, está ávido e intrigado por saber quem é essa mulher e por que ela está fechada a qualquer intimidade com seus patrões? Por que ninguém entra em sua casa? Todas as possibilidades são plausíveis até que as portas, metafóricas e literais, sejam, por fim, abertas para que, na parte final, desenvolva-se o episódio que se desdobra para a morte de Emerenc e suas consequências para todos os envolvidos do entorno. Ótima leitura muito recomendada.

Em um romance revelado tardiamente ao grande público, mas muito debatido e elogiado pela crítica, Magda Szabó oferece uma visão generosa sobre táticas de sobrevivência, sobre tudo o que pode ser dito no silêncio e sobre o papel da autenticidade na arte e na vida.

A porta. Intrínseca. 1ª edição. 2021. 256 páginas. Preço de capa: R$ 69,90

Dando sequência, vou falar de mais um. Esse é outro monstro. Um absurdo de bom. Mas, aqui no Brasil, pouca gente o conhece. Por isso que eu queria que um monte de gente lesse Sándor Márai. Ele tem vários bons livros. Mas “As brasas” é sua Monalisa. Sándor Márai nasceu em 1900. Exilou-se em 1948, inconformado com a implantação do comunismo em seu país. Em 1979 foi viver nos Estados Unidos, onde se suicidou. “As brasas” é sua primeira obra lançada no Brasil.

O enredo de “As brasas” é em tese — na primeira camada — bastante simples. Dois amigos de infância que não se veem há 41 anos, separados por uma desavença envolvendo a disputa pelo amor de uma bela mulher, resolvem se encontrar e fazer um acerto de contas com o passado. Em um castelo no sopé dos Montes Cárpatos, num verão sufocante, um velho general aristocrata recebe a carta do amigo que não vê durante quatro décadas. Parece que a hora da verdade finalmente chegou. E para esta reunião, ele reabre as salas que ficaram fechadas durante todos esses anos à espera deste encontro. No decurso desta noite, do jantar até a madrugada, os dois amigos vão travar um duelo de palavras e silêncios, histórias, acusações e evasões, que irá abranger suas vidas e a vida de uma terceira pessoa que não se encontra mais presente. O passado vem à tona e o que vemos é a aceitação e a prestação de contas entre os dois personagens maduros, em seu último encontro, que podemos interpretar como o último resquício de nobreza em um mundo em transformação.

Você poderia ponderar: Nada de novo. Certo? Errado! De fato, existem outros livros com o mesmo gatilho de enredo. No entanto, o que torna “As brasas” um livro único e memorável não é seu conteúdo, mas a forma como o autor escreve e se embrenha nos detalhes. Os gênios aparecem mesmo nas entrelinhas. A escrita de Márai é uma loucura e deslumbra por uma estética que molda palavras e frases poéticas perfeitas que parecem ter sido lapidadas como pequenas joias: “Levamos uma vida inteira preparando-nos para alguma coisa. Primeiro, sentimo-nos ofendidos e queremos vingança. Depois, esperamos. Já fazia muito tempo que esperava. Não sabia mais a que ponto o rancor e a sede de vingança tinham se transformado em espera. Com o tempo, tudo se conserva, mas desbota, como essas fotografias de um passado distante que eram fixadas em placa de metal.”

“As brasas” é um romance sobre amizade, paixão amorosa e honra. Move-se entre os dois o fantasma de Krisztina, a mulher amada por ambos. Tudo se passa em um dia e uma noite. Esse é o tempo da narrativa, embora eles voltem ao passado por décadas para compreender as ironias e os equívocos e mal-entendidos não respondidos do que não volta mais. “As brasas” é um livro que fica com o leitor mesmo após a conclusão da leitura, que não se fecha totalmente e permanece com um enigma instigante a ser decrifado. Assim como os grandes autores, Márai não dá aos leitores respostas fáceis, ele deixa algo no ar para ser explicado, o que torna o romance ainda mais sofisticado e desafiador. 

“Nesse instante, ambos perceberam que o que lhes dera força para se manterem vivos nos anos e anos que tinham se passado era a expectativa de se encontrarem. Como acontece com os que levam a vida toda se preparando para uma única missão e de repente chega o momento de agir, Konrad sabia que um dia retornaria àquele lugar, e o general sabia que um dia chegaria aquele momento. Foi isso que os manteve em vida. E agora voltavam a viver, como um mecanismo a que se dá corda, e também pareciam animar-se com a recordação.”

As brasas. Companhia das Letras. 1ª edição. 2021. 176 páginas. Preço de capa: R$ 69,90

Espero ter colocado a pulga atrás da sua orelha e fazer você se decidir por dar uma chance a esses escritores maravilhosos do leste europeu. A recompensa é enorme e o prazer das leituras, evidente.

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.