Por Felipe Cuesta
Hoje vou falar de uma das melhores leituras recentes que fiz: “A Máquina de Fazer Espanhóis”. É o meu terceiro livro desse cara. Os outros que li dele foram “As doenças do Brasil” e “O Filho de Mil Homens”, ambos ótimos. Responde o sujeito por Valter Hugo Mãe e se você gosta de literatura e ainda não o conhece, algo pouco provável, preste atenção no nome. Trata-se de um alquimista da escrita poética. Um assombro a cada página. Um verdadeiro encantador de serpentes do ato de escrever bem.
A obra indicada aqui traz uma experiência de leitura belíssima. A ternura e o esmero com que ele capta e descreve as sensibilidades e agruras próprias da terceira idade são dignos de aplauso, eis que diferenciados da forma mais comum como as pessoas que se põem a rabiscar no papel, costumam contar as suas histórias.
Depois de perder a mulher da vida inteira, o barbeiro António Jorge da Silva passa a viver num lar de idosos, por “sugestão” da única filha. Os quartos da ala direita dão para um jardim onde crianças brincam. Os da esquerda, reservados aos acamados, têm vista para o cemitério. Que alegrias pode a vida oferecer a alguém tão próximo de seguir o caminho final?
Instalado numa habitação com grades na janela, o protagonista nutre a teimosia de não querer ter mais diversão na vida que lhe resta (pois lhe falta Laura, sua esposa de uma existência inteira, e isso é muita coisa) passando a ser visto como um sujeito chato , “casmurro”. Aos poucos, a convivência com funcionários e pacientes do asilo, entre eles o centenário Esteves “sem metafísica”, personagem do poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, leva o senhor Silva a se abrir e, voltando a sentir o sabor da existência, sofrer uma transformação radical a ponto de conseguir ter amizade e afeto com outros personagens esplendidamente construídos e a desfrutar de momentos de doçura e de encantamento. O leitor atento terá a mesma sensação na degustação do texto, pois cada frase parece esculpida como se fosse a medida exata de uma perfeição literária interminável. E, quando se der conta, o livro já lhe enfeitiçou…
Valter Hugo simultaneamente vai nos embriagando com sua prosa, ao passo que constrói um poema contínuo sem estrofes, fluido e lírico do início ao fim. Melancolia, tristeza, revolta e luto são impressões digitais recorrentes na sua escrita, com diálogos desconcertantes que levam a reflexões sobre a vida e sobre a velhice. Assim, as principais questões da obra giram ao redor dos conflitos do personagem em superar a morte da esposa, para analisar e refletir sobre o seu passado e sobre o seu país, adaptar-se ao novo lar e conviver com pessoas distantes de seu círculo familiar que o “abandonou”.
É bastante tocante o encaminhamento do autor para que os leitores enfrentem a ideia da finitude. Ler o livro parece viajar à própria velhice, uma ida ao futuro próximo. Um logo ali do que seremos. Uma reflexão sobre o peso dessa condição. Os questionamentos são inevitáveis. Uma história que quer nos mostrar como, com sorte, chegaremos a ser um dia, sobre ter muitos e muitos anos nas costas, sobre a tristeza, sobre a sensação de abandono e também sobre reencontros improváveis. Talvez console saber que só fica idoso quem viveu muito. E em dado momento da leitura, Silva, acusa de sentir medo, desespero até, porque sente que seu fim está próximo e não quer de maneira alguma partir. Após tanta resistência aos amigos e ao lar, encontrara outro tipo de amor, descobrindo uma nova parte de si escondida dentro de seu ser. Reencontrara enfim a amizade e o afeto. Mas, então, já vinha a hora de partir. As tais ironias do destino…
E o que estaria por trás desse título que parece desafiar um sentido lógico? A tal máquina de fazer os espanhóis não é senão o próprio Portugal, se considerado que — conforme o olhar crítico de
Valter Hugo Mãe — em seu afã de serem autênticos europeus, os portugueses só veem uma saída: tornarem- se espanhóis. Nesse ponto, pode-se dizer que ele reeditou uma ideia que foi antes defendida por seu mestre Saramago, cujo livro “A jangada de pedra” revela preocupações semelhantes com o tema.
Não é à toa que José Saramago, ele mesmo, do alto de seu trono, chegou a sentir pontada de inveja, desnecessária, diga- se, quando tomou conhecimento de seus primeiros escritos: “É um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força”. E isso não é pouca coisa, não. O velho Saramago era outro bruxo da caneta, vencedor de prêmio Nobel e outras honrarias vida afora. Ser invejado por um Titã desse quilate é prerrogativa de poucos. (Que sorte a nossa, aliás, podermos ler esses dois gênios no original.)
Enfim, voltando a VHM, ele, com uma estética econômica nas pontuações e restrita no emprego das letras maiúsculas, nos espaços entre os parágrafos e na diferenciação gráfica dos diálogos, nos contempla com um romance inundado de metáforas e reflexões metafísicas por demais necessárias. A crueza lírica com que ele aborda e discorre sobre os temas — revolta, abandono, ironia, amor e melancolia — são o ponto alto do romance.
Aliás, sobre sua opção de estilo pelas minúsculas mesmo nos nomes próprios e nas aberturas de capítulos e parágrafos, bem como na não marcação dos diálogos, estabelecendo uma espécie de democracia e unidade de grafia, o autor recorre, quando indagado sobre o emprego da estratégia, a um argumento da fala: “Ao falarmos ou pensarmos, justificou, não o fazemos distinguindo maiúsculas e minúsculas nem pontuando as falas”. Ademais, “meu objetivo foi valorizar a natureza oral dos textos e reaproximar a literatura do pensamento”. Em outras ocasiões, recorreu à falta de ambição de seu texto como justificativa para essa singela forma de escrita. Nesse último caso, estava de broma, pois seu texto é tudo menos desprovido de ambição literária. A essa altura desta resenha descompromissada, peço licença para apresentar a transcrição de três passagens sublimes do texto:
“com a morte, também o amor devia acabar, acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir, pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade, e não é compreensível que assim aconteça, com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano, esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder […]”
E ainda:
“um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento, a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico […]”
Por último:
“[…] precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia, este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos, e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro, eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade […]”
E VHM, angolano de nascença, antes do fim da era colonial, e luso de criação, ainda escreve com aquele Português de Portugal que, às vezes, confundimos com algo familiar, mas “estrangeiro”. Como se o cérebro de um brasileiro precisasse de três minutinhos ou duas páginas e meia para se adaptar e entrar no ritmo exato da língua de Camões em sua versão original. Depois a coisa flui ao natural.
Pois era essa então a proposta de hoje. Falar desse livro lindo e desse escritor fabuloso. Muito prazer, Valter Hugo Mãe, pra quem ainda não o conhece, acrescente-se que em sua bibliografia, ele se destaca pela variedade dos meios de expressão e de temáticas, que podem falar dos pequenos detalhes do cotidiano, dos problemas contemporâneos enfrentados por países como Portugal ou das paisagens da Islândia, combinando uma prosa apurada e histórias marcadas pela emoção. De tudo que produziu até agora, contudo, ouso afirmar que “A Máquina de fazer espanhóis” é o seu Everest literário, o seu “Ensaio sobre a Cegueira”, se fose José, o seu “Irmãos Karamazov”, se fosse Fiodor, ou o seu “Cem Anos de Solidão”, se fosse Gabo.
Há momentos na vida em que o trajeto vale mais do que o destino. Ler VHM é isso. Menos importa o final do que a degustação lenta de cada palavra e frase, como uma experiência sensorial.

A máquina de fazer espanhóis. Biblioteca Azul. 1ª edição. 264 páginas. Valor de capa: R$ 69,90
Boas leituras.
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.