Esse texto homenageia uma autora polonesa. Não sei se o leitor curte poesia. A maioria demora a incorporá-la ao seu repertório de textos. Alguns passam a vida sem experimentar. Eu demorei. Mas insisto. É preciso ler e conhecer o trabalho dela, poeta fora da curva. Seu produto é arrebatador. Ela é de nome complicado e difícil de pronunciar. Mas suas palavras são simples, profundas e generosas. Estilo de poesia de sofisticação, beleza intelectual e densidade filosófica, projetada em linguagem clara e direta, como prosa de crônica. Sem hermetismos pegajosos, atrai leitores iniciados e iniciantes. Já não está mais entre nós. Uma pena. E deixou um pequeno tesouro a ser descoberto e explorado.
Wislawa Szymborska escrevia poesia como se conversasse com o público. Só lendo para entender. É um deleite explorar seus textos. Nascida em 1923, morava em Cracóvia desde os 8 anos, a cidade mais elegante e bonita da Polônia. Começou a escrever poesia aos vinte e poucos anos. Em 1949, seu primeiro livro foi censurado pelo regime comunista. O fato de ter permanecido a vida inteira no mesmo lugar diz muito sobre si, conhecida por sua reserva e extrema timidez.
Mas seus poemas viajaram pelo mundo, escassos e valiosos, como pedras preciosas difíceis de encontrar, a obra inteira da autora contempla pouco mais de uma centena deles, cuja função, como declarou a poeta no discurso do Nobel em Oslo, é questionar, buscar o sentido das coisas. Segundo ela, a lata de lixo é o melhor amigo do poeta. Sabia que o poema só iria germinar se respeitado seu tempo de latência e caráter único. Se não ficasse satisfeita, descartava, pois o “poema escrito na primavera não necessariamente resiste à prova de outono”.
Assim, Szymborska evidencia que muito da qualidade literária se revela naquilo que o autor se recusa a escrever. Só escreve poemas necessários, não os repetindo nem os convertendo em matriz xerográfica de dúzias de composições similares. Todo o seu excesso será descartado. Pelo bem da literatura.
Levou vida singela, sem atropelos, sempre discreta. Não gostava de dar entrevistas e de aparecer na mídia. A premiação do Nobel colocou-a sob os holofotes, virou celebridade da noite para o dia e durante um tempo, tirou-lhe a tranquilidade para escrever. O único sobressalto de sua vida.
Despreocupada com as rimas e com a métrica de uma dicção coloquial, despojada de retórica e efeito poético, assim é Wislawa Szymborska, que se surpreende ao escrever e nos surpreende, com as miudezas da vida, e com os horrores da História, com sua lírica da incredulidade perplexa, negação de formalismos e afetações, cheias de graça e ironia, tirando o peso das coisas.
Wislawa nos ensina a pensar sobre a existência, a morte, as guerras, os horrores, a história, a política. Escreve sobre o amor e o tempo, sobre a relação dos homens com os animais e com a natureza, sobre arte, teatro, poesia, a alegria da escrita, epifanias do dia a dia. Encontros, desencontros, memórias, sonhos, temas sempre encarados com honestidade, coerência e desvelo. Seu texto propicia um arrebatamento tranquilo no leitor. Ninguém está no centro de nada e o mundo segue adiante.
Sua inspiração vinha de fontes diferentes. Quando se aventura por temas sombrios, faz com leveza, humor e ironia. Escassos também são os poemas sobre o amor. Ela é mais racional do que romântica. Ninguém morre nem enlouquece de amor em seus versos. Há a opção pelo espetáculo da vida e suas complexidade. Opta por narrar o pequeno, o particular, o trabalho dos bastidores e a vida miúda.
Ela está no seleto time do que há de melhor. Wislawa Szymborska. No Brasil, foram publicadas três coletâneas pela Companhia das Letras, poemas traduzidos por Regina Przybycien. O primeiro volume é o Santo Graal. Para deixar o leitor curioso, deixo aqui três deles sobre temas distintos:
1- ALGUNS GOSTAM DE POESIA
Alguns – ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório e os próprios poetas seriam talvez uns dois em mil.
Gostam –
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade gosta-se de afagar um cão.
De poesia –
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso como a uma tábua de salvação.
2- O TERRORISTA ELE OBSERVA
A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair.
O terrorista já passou para o outro lado da rua.
A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema:
Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta, e aquele mais alto entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.
Só que aquele ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se foi tola de entrar ou não vai se saber quando os carregarem para fora.
Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Aliás, um gordo careca sai.
Mas remexe os bolsos como se procurasse algo e às treze e vinte menos dez segundos ele volta para buscar a droga das luvas.
São treze e vinte.
O tempo, como ele se arrasta.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.
3- AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS
Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.