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‘O Livro dos Abraços’: Um carinho para fazer em si mesmo

Inserido em 21 de agosto de 2026
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O Uruguai remete ao frio e remete ao sul. Djavan cantou algo parecido. O Uruguai tem churros, tem doce de leite, tem vinho Tannat, tem chimarrão, tem carne, tem punta, tem Peñarol, tem duas Copas do Mundo e Maracanazo, tem qualidade de vida, tem Montevideo, tem polêmica de maconha liberada e tem boa literatura. Tinha Mujica, que já se foi. Hoje, a conversa é sobre um pedaço da literatura do Uruguai e um de seus maiores escritores: Eduardo Galeano, dono de uma vasta obra de ficção e de não ficção. Mais conhecido pelas “Veias abertas da América Latina”, livro que o levou à fama, mas também à prisão e ao exílio na Argentina, onde figurou nas listas dos esquadrões da morte. Escolhi falar sobre uma das obras mais bonitas de seu repertório: “O Livro dos Abraços”. Um toque de afeto. Um afago. Como abraçar com carinho alguém que a gente ama.

Galeano notabilizou-se como um dos mais apaixonados ativistas e escritores latino-americanos. Nos cafés de Montevidéu, por onde circulava ao lado da intelectualidade e dos artistas, despertou para o arco-íris da humanidade, para o colorido das gentes e dos pequenos gestos e aprendeu a escutar a dignidade das vozes das ruas. Com o atalho de sua prosa, transformou tais elementos em beleza e poesia. Se Galeano fosse um pintor, seria um impressionista, tamanha a plasticidade de seus escritos. Suas palavras tocam almas mais céticas e indiferentes, aguçando todos os sentidos do corpo.

Livro dos abraços. Um livro necessário. Um livro de pausa. Poesia em prosa. Uma paleta de cores vivas em tons pastel. De pensamento lento. De cabeceira. De contemplação. De fragmentos. De carinho. De desembrutecimento. De ler e ficar refletindo sobre o que se leu. De devagar e de divagar. De saborear trechos narcóticos. Um livro de lágrimas. De sorrisos. De afeto que brota. De memória como coisa viva. Bicho inquieto. Do começo e do fim. Sem rumo nem ordem. De se achar se perdendo. De fechar os olhos e rir em pensamento. De agradecimento pelo dom da vida. De inquietação. De expectativa. De deslumbramento.

«Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.»

O livro dos abraços é sobre tudo isso. Um convite de gala para os sonhadores e para os leitores que gostam de colecionar boas memórias. Escrito em formato de citações, contos e de micro-contos cheios de significado, textos curtos que tocam o coração do leitor e permitem a ele olhar as pequenas coisas com mais leveza e amor. Uma jornada literária doce e sem maiores compromissos, um livro que nos ensina que, por vezes, o caminho até o destino pode ser um fim em si mesmo, especialmente se o destino não possuir rumo certo. Ler “O livro dos Abraços” é como se deixar levar pelo vento e ficar em paz, contemplando os estímulos aleatórios e inesperados (por isso surpreendentes) sem saber ao certo aonde se vai chegar. Basta ir.

«Certa manhã, ganhamos de presente um coelhinho das Índias. Chegou em casa numa gaiola. Ao meio-dia, abri a porta da gaiola. Voltei para casa ao anoitecer e o encontrei tal e qual o havia deixado: gaiola adentro, grudado nas barras, tremendo por causa do susto da liberdade.»

Uma obra prima cheia de pequenas histórias escritas com sutileza e sensibilidade, um presente ao mundo dado pelo mestre Eduardo Galeano. Um conjunto de escritos que, à primeira vista, tratam de textos que não possuem conexão entre si, mas que no final contam uma história comum, a história do autor e a história de um continente. Para deixar na mesinha ao lado da cama e recorrer a ele a qualquer momento em que se esteja a necessitar de um chamego na alma. Um livro essencial em tempos tão difíceis, rancorosos e perturbados, feito para aquecer o coração do leitor.

«Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas. Dispa-me, dispa-me.»

«O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.»

«Somos todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo, e qualquer um sabe disso, por menos que saiba.»

Fruto das andanças incessantes do escritor pelos recantos mais remotos de toda a América, o texto vai aglutinando casos e histórias apresentados em diversos formatos (narração, ensaio, microconto, poesia e crônica) e cria um mosaico sanotoso capaz de sintetizar o DNA, a realidade e a memória do povo latino, tão rico quanto distinto.

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza”.

Escrito no exílio e ilustrado pelo próprio autor, “O Livro dos Abraços” reúne memórias e sonhos, fábulas que entrelaçam o real e o fantástico, crónicas indeléveis das trivialidades, das gentes e dos seus costumes, da política e dos seus mártires, do amor, da guerra e da paz. «Eu escrevo para aqueles que não me podem ler. Os de baixo, os que esperam há séculos na fila da história, os que não sabem ler ou não têm como.»

Fragmentos que celebram a diversidade e que têm na lembrança do autor o seu fio condutor. Com uma capacidade descritiva acima da média e um cativante viés poético, escreve com uma singeleza capaz de desmontar o leitor mais embrutecido.

«Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais.»

Eduardo Galeano dá voz aos amordaçados e aos despossuídos morais, estendendo um longo abraço aos resistentes amaldiçoados pela economia, afugentados pela polícia, esquecidos pela cultura e marginalizados pela sociedade. A obra é essa linda sequência em verbetes contada por um cara que é o mestre da narrativa breve, numa síntese inspirada do seu imaginário e de seu universo criativo-ficcional.

«Somos o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia»

Com uma enxurrada de sentimentos, é uma obra assada em fogo lento e brando. A pressa aqui é inimiga do êxito. Para ler aos poucos. Leia. Pare. Sublinhe. Tome nota. Pense. A leitura rápida engana, pois os contos são “imensos”, embora curtos. De leituras e releituras, tantas quantas forem necessárias, para se compreender e se poder refletir sobre o que se passa nas páginas e na vida. Na nossa, na do autor e na da América Latina. Pegue logo o seu exemplar e descubra o resto por si.

Por hoje era isso. Sinta-se abraçado.