“Por muito tempo na história, ‘anônimo’ era uma mulher.”
Virginia Woolf foi uma escritora britânica que se destacou como precursora do feminismo contemporâneo. Sua obra questionou a visão tradicional sobre a mulher na sociedade e desafiou a moral vitoriana. Antes dela, é verdade, Jane Austen começou a discussão de maneira não estruturada e embrionária, lançando a semente em suas ficções. Woolf pegou o bastão e aperfeiçoou a técnica. É esse seu grande legado literário, além do uso constante da técnica do fluxo de consciência. Mas, embora ela seja considerada uma das maiores escritoras da língua inglesa, seus textos são considerados herméticos e de difícil acesso. Isso não é um senso tão incomum. O famoso dramaturgo Edward Albee até fez uma brincadeira sobre o fato e escreveu uma célebre peça de teatro intitulada “Quem tem medo de Virgínia Woolf”. Vários autores que eu gosto, têm ela como uma influência importante. Inegável. Mas, para meu paladar, sua ficção não fluía com facilidade. Eu demorei a me familiarizar com seus recursos narrativos e com as mudanças rápidas de pontos de vista.
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A vida de Woolf foi uma mistura de privilégios (sempre havia uma criada para limpar aquele quarto todo dela) e de sofrimento mental crônico. Era filha de um literato distinto, Leslie Stephen, e sua esposa igualmente culta. A jovem Virginia Stephen foi criada em ótimas casas londrinas na área em torno da Bloomsbury Square, na parte central de Londres. Essa praça em específico é uma das belezas da cidade. Ela não frequentou universidade, e não precisava disso. Chegou à idade adulta com uma erudição extraordinária decorrente de educação rebuscada recebida por seus tutores domésticos, bem conectada com as mentes mais refinadas de seu tempo. Começou a escrever quase tão logo conseguiu pegar uma caneta na mão. Já em sua infância, contudo, percebeu que sua mente era perturbada. Sofria de transtorno de bipolaridade, com o que lutou por toda a vida. Ela teve seu primeiro colapso nervoso com meros treze anos de idade. Tais colapsos voltariam a ocorrer durante sua vida e o último seria fatal, inclusive determinando o triste episódio de seu suicidio.
Pela importância de seu papel na luta pela igualdade dos direitos das mulheres, a escritora que estabeleceu sua carreira literária interagindo e integrando um grupo de intelectuais com pensamentos afins e vanguardistas chamado de “Círculo de Bloomsbury”, merece uma abordagem mais detalhada. Ela foi um membro central do aludido grupo, (sem o qual, contudo, ela jamais teria conseguido ser a escritora que foi) articulando energicamente várias de suas ideias essenciais, compartilhadas pelos demais membros da confraria, especialmente opiniões avançadas sobre o papel das mulheres na sociedade.
Dentre suas obras de ficção mais famosas, permeadas com elementos decorrentes de seu tema central, o feminismo, estão “Orlando”, “As Ondas”, “O Farol” e “Mrs. Dalloway”, além dos conteúdos não ficcionais como os seus diários e o célebre ensaio “Um Teto Todo seu”. Sua ficção mais conhecida foi Mrs. Dalloway, um livro que passa 250 páginas narrando um único dia na vida de Clarissa Dalloway, esposa de meia idade de um membro conservador do Parlamento, que planejou uma festa para aquela noite. Ela está saindo de sua casa, perto do Palácio de Westminster e junto às badaladas do Big Ben, tem o propósito de comprar algumas flores para decorar sua sala de estar. É uma adorável manhã de junho, e Clarissa está esperando para atravessar a rua. Ela se sente estranhamente infeliz, tendo acabado de se recuperar de um ataque maligno de gripe.
Um vizinho passa por Clarissa enquanto ela fica parada na calçada de uma das vias mais movimentadas de Londres, mas ela não o percebe. Quem mais nos ocorreria senão Woolf, que pudesse escrever de maneira tão elaborada sobre a espera por um hiato no trânsito para atravessar a rua? Acompanhamos, claro, exatamente o que se passa na cabeça de Clarissa, no desfile descritivo do poderoso fluxo de consciência e, logo em seguida, na cabeça de seu vizinho, de modo que a sequência da narrativa salta aqui e ali, seguindo os movimentos de uma mente que se desloca. Clarissa está pensando em palavras, imagens ou algo que combine os dois?
Qual será a interação entre a memória (coisas que aconteceram vinte anos atrás) e as impressões sensoriais do momento (o bater do Big Ben)? Um mistério. E assim, nada de mais jamais “acontece”. A questão não é essa. O grande evento da sra. Dalloway não é nem um pouco especial, é só mais uma festa com políticos enfadonhos. O diferencial do livro é o perfeito domínio da escritora, aprisionando o espaço temporal de um único dia e dividindo-o habilmente ao longo de uma poderosa narrativa que investiga as reflexões e sensações da protagonista ao longo desse intervalo de tempo, praticando uma atividade banal de sua monótona rotina.
Dona de um intelecto poderoso e diferenciado, Virgínia era uma mulher a frente de seu tempo, que decretou, em 1910, que o caráter humano havia mudado e o vitorianismo na literatura havia chegado ao fim, substituído pelo modernismo, iniciado em Londres a partir de uma controversa exposição de arte pós impressionista. Woolf era, portanto, uma escritora pós-vitoriana. Sucessora desconfortável de uma era em que os valores e preconceitos ultrapassavam o seu período histórico. Exemplo disso é a questão do direito de voto das mulheres, que só foi reconhecido na Inglaterra em 1918, mesmo assim para mulheres acima de trinta anos.
Parte desse justo reconhecimento, creditado em grande parte ao seu enorme talento, deveu-se também a um fato póstumo, qual seja a grande reforma no pensamento crítico sobre a literatura, gerado pelo surgimento do “Movimento Feminino” em meados da década de 1960, que a escolheu como escritora paradigma representativa. Isso foi uma catapulta definitiva para seu reconhecimento e para as suas vendas. Durante a vida, as obras de Virgínia Woolf venderam apenas às centenas. Se não fosse proprietária da editora que as lançava (a Hogarth Press), junto com o marido, ela poderia muito bem ter tido dificuldade até mesmo para conseguir publicar essas centenas.
Isso não a diminui em nada, muito pelo contrário. Mas também pelo contexto aleatório acima citado, sua obra está hoje disponível por toda parte, em centenas de milhares de exemplares, e é estudada por todos os cantos no mundo. Woolf e seu incrível talento como romancista e ensaísta vai muito além dos números de vendas. A crítica feminista serviu em boa hora para abrir os olhos do público sobre os dores dessa fantástica escritora de vanguarda e foi especialmente decisiva em alterar o modo como lemos e valorizamos, agora, as obras dela.
O seu ensaio mais poderoso foi “Um teto todo seu”, escrito em 1929, que acabou se transformando em um dos textos fundamentais do feminismo literário. Nesse ensaio, argumenta que as mulheres precisam de seu próprio espaço, e de dinheiro, para criar literatura. Não podem fazê-lo de maneira razoável na mesa da cozinha, depois de ter preparado a refeição noturna do homem da casa e com as crianças deitadas em segurança na cama. “Um teto todo seu” é permeado por uma raiva flamejante, pela determinação de que a incrível injustiça das desigualdades que desequilibraram a literatura por milhares de anos precisa ser corrigida. A voz da mulher não continuará sendo silenciada. É assim que Woolf, com muita propriedade e razão, se expressa:
“Quando lemos a respeito de uma bruxa sendo mergulhada na água, de uma mulher possuída por demônios, de uma curandeira vendendo ervas ou até mesmo de um homem muito notável que tinha uma mãe, então me parece que estamos no rastro de uma romancista perdida, uma poetisa suprimida, de certa Jane Austen muda e inglória, certa Emily Brontë que arrebentou os miolos no morro ou que fazia caretas pelas estradas, enlouquecida pela tortura que seu dom lhe impusera.”
Ela se questiona a razão das bibliotecas estarem abarrotadas de obras produzidas por homens. Ou de como o contexto social de mulheres influenciou negativamente a arte que produziram (ou deixaram de produzir) ao longo dos séculos, afastando-as do cânone literário. E se Shakespeare tivesse tido uma irmã tão talentosa como ele, poderia sua obra florescer e ser reconhecida? Estas são algumas das perguntas que fervilham no pensamento de Virginia Woolf ao refletir sobre o que estaria na base para a genialidade e a escrita de ficção, a autora tece investigações e argumentos que revelam, com lucidez e um toque de sarcasmo, muitas verdades sobre a condição das mulheres que escrevem.
Essas ideias não surgiram de repente. Pois desde muito jovem, Woolf pensava e refletia sobre o lugar ocupado pela mulher no mundo. Em seus diários de juventude, (publicados recentemente no Brasil em três volumes e ótima tradução pela editora Nós) escritos entre seus 15 e 29 anos, a autora, que à época ainda utilizava seu nome de solteira, Virginia Stephen, já apresentava um olhar atento ao lugar destinado à mulher na ainda conservadora sociedade da época. Em sua casa era permitido a ela e a sua irmã estudarem, terem atividades próprias, mas às cinco da tarde deveriam estar com o chá pronto a ser servido aos homens da família e às visitas. Elas também precisavam frequentar festas e se mostrarem boas mulheres para conseguir bons casamentos. Nem é preciso dizer que Virginia sentia-se bastante deslocada e inconformada nessas ocasiões: ela desejava conversar, falar sobre suas leituras, o que não era adequado nem esperado de uma mulher.
Essa mulher, sempre à frente do seu tempo, não resistiu à confusão mental decorrente da angústia causada por sua doença crônica da bipolaridade, e acabou por tirar a própria vida. A nota de suicídio escrita para o marido Leonard Woolf é uma assombração e um belo documento, reunindo toda a sinceridade sobre o tumulto em que sua vida estava metida e a agonia permanente da qual padecia. O texto ganha ainda maior pulsão dramática porque não é uma despedida para o mundo em geral, mas apenas para um amigo de confiança, companheiro e amante. Segue a nota:
“Meu querido,
Tenho certeza de que vou enlouquecer de novo. Não podemos passar por mais uma daquelas crises terríveis. E, dessa vez, não vou sarar. Começo a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso estou fazendo o que me parece a melhor coisa. Você me deu a maior felicidade possível. Você foi, sob todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. Acho que não existiam duas pessoas mais felizes, antes de aparecer essa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando sua vida, que, sem mim, você poderia trabalhar. E eu sei que vai. Veja que nem consigo escrever direito. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você tem sido extremamente paciente comigo e incrivelmente bom para mim. Quero dizer que—todo mundo sabe disso. Se existisse alguém capaz de me salvar, seria você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar estragando sua vida.
Não creio que tenham existido duas pessoas mais felizes do que nós.”
Na manhã do dia 28 de março de 1941, Virginia Woolf foi, como de costume, ao estúdio no jardim de sua casa. Lá, escreveu duas cartas: uma delas a nota acima transcrita. Em seguida, encheu os bolsos de pedras e entrou no rio “Ouse”, onde seu corpo seria encontrado dias depois.