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Salman Rushdie: a incrível história de um talentoso escritor inglês de origem indiana marcado por uma sentença de morte

Inserido em 30 de maio de 2025
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Por Felipe Cuesta

Pode alguém ser condenado à morte por escrever um livro? Haveria algum risco de vida para um escritor no livre exercício de sua liberdade de expressão, inerente ao seu ofício? Embora a resposta pareça óbvia, hoje vamos conhecer a história desse magnífico escritor britânico de origem indiana, que desde 1989 dribla o destino e escapa de uma sentença de morte imposta por uma liderança islâmica do Irã. Com uma carreira magnífica, Salman Rushdie é um escritor de reconhecimento mundial pela qualidade literária de seus romances, nos quais aborda sem medo os temas polêmicos que mais o fascinam — como terrorismo, contendas seculares, conflitos étnicos e políticos e o ataque às Torres Gêmeas.

Em 1989, o então líder da teocracia xiita que governa o país persa há mais de 40 anos, aiatolá Ruhollah Khomeini, emitiu uma fatwa — um decreto baseado nas leis islâmicas — conclamando qualquer muçulmano no mundo a cumprir a sentença de morte contra Rushdie por conta de “Os Versos Satânicos”, obra considerada uma blasfêmia pelos muçulmanos radicais. A fatwa funciona como um pronunciamento legal feito por qualquer especialista em lei islâmica para sanar dúvidas sobre como proceder em determinada situação. 

A partir do decreto de Khomeini, foi alimentado um ódio generalizado e desenfreado contra o escritor, que sofreu uma série de tentativas de atentados e foi forçado a se refugiar no Reino Unido, sob proteção das autoridades de Londres, assim como da própria Scotland Yard.

Em muitos países islâmicos, a publicação do livro ainda é proibida, incluindo o Egito e os Emirados Árabes, além da Índia e do Paquistão. O caso contra o escritor causou um incidente diplomático e levou ao rompimento das relações cordiais entre o Reino Unido e o Irã. Além disso, a sentença de morte irrevogável contra  Rushdie atingiu também o mundo editorial em torno dele, assim como todos que entraram em contato com  “Os Versos Satânicos”.

Em 1991, o tradutor do livro para o japonês, Hitoshi Igarashi, foi morto em Tóquio. No mesmo ano, Ettore Capriolo, tradutor para o italiano, foi esfaqueado em sua casa em Milão. Em 1993, o editor norueguês da obra, William Nygaard, foi baleado. Um assombro. O romance “Os versos satânicos” começou a gerar ódio entre muçulmanos assim que foi lançado no Reino Unido, em 26 de setembro de 1988. Dias depois de chegar às prateleiras na Europa, o livro foi banido pelo governo indiano. Logo, África do Sul, Paquistão, Egito, Indonésia e vários outros países tomaram a mesma medida. 

Ainda em outubro daquele ano, a editora recebeu milhares de cartas com ameaças. Em dezembro, cerca de 7 mil pessoas reunidas em Bolton, na Inglaterra, queimaram cópias da obra exigindo seu banimento na terra da rainha. O pior ainda estava por vir. No início de 1989, protestos em vários países geraram sérios distúrbios. Seis pessoas morreram e mais de 80 ficaram feridas quando milhares de manifestantes, exigindo a morte de Rushdie e o banimento global do livro, atacaram um centro de cultura americana em Islamabad, no Paquistão. No dia 14 de fevereiro de 1989, por influência dos acontecimentos recentes, foi editada a fatwa. 

Salman Rushdie nasceu de uma família muçulmana de classe média em Mumbai dois meses antes de a Índia se tornar independente da colonização britânica. Seu pai era advogado e empresário e sua mãe era professora. Aos 14 anos, ele foi enviado pelos seus pais à Inglaterra para estudar e depois acabou se tornando cidadão britânico. Ele se formou em história na Universidade de Cambridge e eventualmente deixou de ser religioso. Antes de se tornar escritor, trabalhou como redator de publicidade e publicou seu primeiro livro (Grimus) em meados da década de setenta.

Após ter sua sentença de morte decretada pelo Irã, Rushdie se viu em grave e permanente risco. Sua vida se transformou e ele nunca mais conseguiu levar uma rotina comum. Tinha que andar com escolta policial e era obrigado a se mudar com frequência (às vezes, não passava três dias no mesmo endereço). Nem os filhos sabiam onde ele estava. O autor chegou a se desculpar publicamente, e grandes livrarias do Ocidente pararam de vender o livro. Mas nada adiantou, e Rushdie começou a sofrer atentados. Em agosto de 1989, um terrorista morreu quando uma bomba que ele pretendia usar para matar Rushdie explodiu em um hotel em Londres. A pressão era tanta que sua então mulher, a também autora Marianne Wiggins, pediu o divórcio, não sem antes ter se mudado com o marido em quase 60 ocasiões em um curto intervalo de tempo. 

O cerne da polêmica e de tantas consequências negativas é o romance “Os Versos Satânicos”, que tem a seguinte sinopse de capa: Dois homens caem do céu para a terra, depois que terroristas explodem o avião em que viajavam. Ambos são indianos e atores. Ambos chegam incólumes ao solo da Inglaterra e se metamorfoseiam, um em diabo, outro em anjo. Muitas coisas opõem e associam os acidentados: um é apolíneo, o outro dionisíaco; um é apocalíptico, o outro integrado; um é apegado à sua origem, o outro está decidido a conquistar a nova nacionalidade. Transitando livremente entre o real e o fantástico, entre o bem e o mal, entre a infinidade de opostos complementares e inconciliáveis da vida, este romance alegórico, impregnado de magia, é claramente autobiográfico no conjunto de seus episódios e, principalmente, em sua questão filosófica central: quem sou eu?

Pois bem, inserido no universo do realismo mágico, assim como a obra de Gabriel García Márquez, “Os versos satânicos” incitou ira no mundo islâmico ao sugerir, na visão dos muçulmanos, uma “revisão” da própria narrativa que deu início à crença islâmica, questionando e, por vezes, até satirizando alguns de seus alicerces. 

Muçulmanos creem que o profeta Maomé recebeu do anjo Gabriel a “palavra de Deus” em uma série de visões, no século VII. Maomé, então, recitou os ensinamentos a seus seguidores e, eventualmente, aquelas palavras foram escritas nos versos do Alcorão, o livro sagrado do Islã. Na obra de Rushdie, o personagem Gibreel tem uma série de delírios nos quais ele se vê como o anjo Gabriel e se encontra com Mahound, um empresário transformado em profeta. Mahound é um nome usado por cristãos na Idade Média para se referir a Maomé (Mohammad, em inglês) como uma criatura satânica.

Mahound ouve as lições de Gabriel, mas recita os ensinamentos com alterações convenientemente feitas por ele a um escriba chamado Salman, o Persa. Este, por sua vez, questiona a veracidade daquelas palavras, mas registra as mesmas como desejos de Deus. Para os muçulmanos, essa é uma clara artimanha criada pelo autor de “Os versos satânicos” para lançar dúvidas sobre o Islã. Rushdie estaria expressando a opinião de que os ensinamentos recitados por Maomé, que se tornaram a base para a crença muçulmana, são, pelo menos em parte, frutos de sua própria consciência.

Os muçulmanos também se enfureceram ao enxergar a caracterização das mulheres de Mahound como prostitutas (na obra, Gibreel sonha que meretrizes em um bordel assumiram os nomes da mulher do profeta). E o próprio título do livro, “Os versos satânicos”, refere-se a uma narrativa desqualificada por especialistas do Alcorão. Neste suposto episódio, o profeta Maomé, interessado em converter cidadãos de Meca ao Islã, recitou palavras que ele acreditava serem de Deus, mas depois as retirou afirmando que tinham origem no demônio. Este “incidente” foi narrado por antigos historiadores árabes, mas, posteriormente, foi considerado falso por pesquisadores do livro sagrado dos muçulmanos.

Muitos acadêmicos saíram em defesa de Salman Rushdie, pois a irreverência de sua obra teria o objetivo de explorar uma possibilidade de separação entre fatos e ficção. Desde a publicação do livro e sua controvérsia, o próprio autor tenta em vão argumentar que textos religiosos deveriam estar abertos a quaisquer questionamentos e interpretações distintas. Porém, sempre que ele repercute o assunto e procura se justificar em artigos, palestras ou entrevistas, sugerindo que o Islã deveria aceitar diferentes visões sobre suas crenças, a situação piora e mais críticas furiosas são lançadas em sua direção por muçulmanos. Um círculo vicioso que alimenta a fatwa e o ódio pelo autor.

Mas se não bastasse toda a epopéia vivida pelo escritor, que escapou da morte por grande parte de sua vida adulta, o destino ainda lhe pregaria mais uma terrível peça. Em agosto de 2022, Salman Rushdie foi esfaqueado várias vezes em um palco, pouco antes de dar início a uma palestra na Instituição Chautauqua, em Nova York, quase na divisa com o Canadá. O tema, irônica e tragicamente, era sobre a segurança que os Estados Unidos proviam a autores exilados. O ataque ocorreu na manhã de 12 de agosto, sobre um palco, diante de uma plateia lotada. Durou 27 segundos, durante o qual levou quinze facadas. Ele tinha 75 anos, três vezes mais que seu algoz, um rapaz muçulmano, nascido nos Estados Unidos, de 24 anos de idade. A faca perfurou-lhe pescoço, peito, barriga, perna, e mãos, além do olho direito.

“Lembro-me de estar deitado no chão e ver a poça do meu sangue se espalhando a partir do meu corpo. É muito sangue, pensei. E em seguida pensei: estou morrendo. Não era dramático, nem horrível demais. Era apenas provável. E muito provavelmente era isso que estava acontecendo. Era objetivo.”

Na ocasião, o escritor ficou entre a vida e a morte após sofrer perfurações múltiplas no abdômen, face, braços e pescoço. Sobreviveu com lesões no fígado e a perda de um olho. Salman, que já lançou duas novas obras após o atentado, uma delas, “Faca”, em que relata os fatos e estabelece uma conversa imaginária com seu algoz, afirmou que teve premonições de que seria atacado em um auditório alguns meses antes do ocorrido. 

Fato é que o autor anglo-indiano tem uma obra vasta e premiada, dentro da qual o livro condenado pelos extremistas religiosos islâmicos acaba desviando toda a sua merecida atenção e valorização. Nos países anglófonos, principalmente na Inglaterra, Rushdie é venerado como um dos maiores escritores de língua inglesa vivos. Vou citar outras três dentre no mínimo cinco obras do escritor que podem ser consideradas seus maiores feitos literários.

A primeira é “Os Filhos da Meia Noite”: Este é o segundo romance lançado por Rushdie. que ganhou o Booker Prize de 1981. A obra mostra a trajetória do muçulmano de família rica Salim Sinai, que nasceu em Bombaim à meia-noite de 15 de agosto de 1947, quando a Índia se tornou uma nação independente. Adulto, ele descobre que foi um bebê trocado na maternidade, e deveria ter tido uma vida de pobreza. O autor usa esse recurso para comentar as disparidades sociais no país.

Outro livro dele que indico é “Haroun e o Mar de Histórias”. O segundo título mais vendido na carreira de Rushdie é certamente seu relato mais encantador. O romance, para leitores de todas as idades, começa com o drama de Rashid, um contador de histórias profissional que, de uma hora para outra, perde o dom da palavra. Ele se torna um homem triste e sem poder exercer seu ganha-pão. Então seu filho, Haroun, descobre que existe um grande mar de histórias e decide encontrar esse lugar, numa aventura em busca das palavras. O livro tem muito humor e celebra o prazer de contar e de ouvir histórias.

Por fim, “Quichotte”. Finalista do Booker Prize 2019 e best-seller do New York Times, essa é a versão de Dom Quixote criada por Rushdie para o mundo moderno. Ele estabelece a narrativa distribuída em dois protagonistas. Um é Sam DuChamp, escritor sem talento que quer ganhar a vida com romances policiais; o outro é personagem de um de seus livros, Quichotte, um vendedor de carros usados meio atrapalhado, que se apaixona por uma estrela de TV. Para a figura de Sancho Pança, teve a inventiva ideia de criar um filho imaginário para Quichotte, que carrega a tarefa de escoltar o pai em seu delírio. Rushdie consegue colocar empecilhos nas vidas do criador e de seu personagem, num livro que tem um tom melancólico adequado ao chamado “cavaleiro da triste figura”.

Salman Rushdie, apesar de tantos percalços, segue vivo, gozando de boa saúde e produzindo histórias que encantam leitores ao redor do mundo. Sua vida daria um belo romance. Um dia, quem sabe, algum outro autor poderá contar essa trajetória de talento, resiliência e superação. 

Os versos satânicos. Companhia de Bolso. 2008. 600 páginas. Preço de Capa: R$ 74,90

Boas leituras!

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.