Por Patricia Carvão
Os “bebês reborn” estão em alta na mídia e muito se tem discutido sobre o que esses bonecos representam — e quais seriam os objetivos de quem os adquire. Seriam apenas objetos de consumo ou preencheriam, de alguma maneira, faltas afetivas para suprir a solidão dos compradores? Ou pode ser que os bebês reborn representem a incapacidade de algumas pessoas de se relacionar com alguém de verdade, abraçando suas imperfeições e defeitos. Refletindo sobre esse assunto, lembrei de alguns filmes. Falo sobre eles na coluna desta semana.
De primeira, me vêm à mente “Ela — cuja trama apresenta um escritor que se apaixona pela voz de um programa de informática, com a qual desenvolve um relacionamento amoroso — e “O homem ideal” — indicado ao Goya de Melhor Filme Europeu em 2022 e disponível no Prime Video. De origem alemã, este conta a história de uma cientista que aceita participar de uma inusitada pesquisa: conviver com um homem-robô programado para atender a todos os seus desejos e anseios, criando assim uma espécie de “relacionamento perfeito”.
Será isso mesmo o que de fato buscamos? A perfeição é atingível quando se fala sobre alguém de carne e osso? Saindo agora da idealização do outro, temática dos filmes anteriores, direciono a próxima dica para uma história real, carregada de empatia e humanidade: “Um lindo dia na vizinhança”.

Ao longo dos anos, a sociedade parece privilegiar condutas cada vez mais assertivas, enérgicas e endurecidas. Até, eu ousaria dizer, mais violentas. Desde os tempos de escola, esse padrão comportamental gera uma tendência a seguir um modelo de ser e estar no mundo. A menina e o menino mais populares da escola, via de regra, reagem na base do “não levar desaforo para casa” e, de grito em grito, acabam sendo respeitados — ou melhor, temidos.
Crescemos e vem a fase do trabalho. A depender da escolha profissional, esse “padrão de comportamento” é ainda mais prestigiado. Mas onde se encaixa quem não se amolda ao tal padrão? Termina classificado como bobo ou até julga a si mesmo assim. Bobo por não responder na hora e no mesmo tom, bobo pela ausência de malícia, bobo por aguentar provocações infantis… e por aí vai.
O filme fala um pouco sobre essa quebra de paradigma que me parece tão fundamental nos dias de hoje. Mr. Rogers (Tom Hanks) interpreta um apresentador de programa de televisão infantil, que tenta levar às crianças maneiras positivas de lidarem com seus sentimentos. Ele é procurado por Lloyd Vogel, um jornalista conhecido por sua maneira polêmica de escrever. Após algumas entrevistas, Vogel inicia uma jornada de autoconhecimento na qual questiona seu péssimo relacionamento com o pai após a morte da mãe — e busca entender como exercer a paternidade com seu filho recém-nascido.
Achei o filme lindíssimo e anotei algumas frases marcantes. Este diálogo, particularmente, registro abaixo:
— Não há vida normal sem sofrimento.
— Como você lida com isso?
— Há muitas maneiras de se lidar com seus sentimentos sem magoar a si mesmo e a mais ninguém.
Termino a coluna com uma frase do poeta Mario Quintana: “A arte de viver é simplesmente a arte de conviver… simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!” A partir dela, sugiro um filme espanhol disponível no Prime Vídeo e em outras plataformas, que nos demonstra como se relacionar é complexo.

“Histórias que é melhor não contar” é dirigido por Cesc Gay, responsável por outros ótimos filmes, como “Truman” e “O que os homens falam”. O longa-metragem traz cinco histórias avulsas, independentes entre si. Todas se debruçam sobre situações comuns, que poderiam ter sido vividas por qualquer um de nós. Excessos de explicações que confundem e podem gerar conflitos desnecessários, mentiras que acabam descobertas, dificuldades de comunicação e essa eterna mania universal de achar que sabemos em algum momento o que pode ser melhor para a vida do outro.
Um filme divertido, leve e inteligente, capaz de nos mostrar como é complexo conviver, como já dizia o poeta! Caso você não se anime para ir ao cinema, não deixe de conferir outros trabalhos desse mesmo diretor de casa mesmo.
Um ótimo final de semana!