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‘As Benevolentes’: ficção de gala sobre a Segunda Guerra na sombria narrativa de um oficial do lado derrotado, um auto-epitáfio do carrasco

Inserido em 13 de maio de 2025
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O livro que indico hoje é para tirar o leitor da zona de conforto e fazê-lo ingressar em um ambiente emocional turbulento e denso, uma espiral de sobressalto, revisitando sensações hostis e desconfortáveis. Uma porrada. Um narcótico supressor de fôlego. Uma leitura tão arrepiante e assustadora quanto excepcional e necessária. Não foi à toa que o texto se fez vencedor do Prêmio Goncourt — o Nobel Francês — e do Prêmio da Academia Francesa. Trata-se do romance “As Benevolentes”, de Jonathan Littell. Sei que a maioria pode desejar escapar da sugestão, pois queremos nos manter afastados de sensações incômodas. Faz sentido. Mas essa probabilidade não pode me desonerar da obrigação em apresentar esta obra-prima.

Mas por que falar sobre um livro desses, que traz tantas negatividades para a mesa de discussão? Pois a boa literatura também se presta a esse papel. Ao posto de denúncia e resgate. Literariamente, o texto é uma pancada. No bom sentido, se é que isso existe. Um daqueles calhamaços que você pega e não consegue se livrar, apavorado com as sucessivas revelações e ansioso pelo final. Um bitelo de quase novecentas páginas. Baita tijolaço. Eu te estimulo e te desafio. Na remota chance de você não curtir, pelo menos use o livro para levantar peso e ficar em forma. Ou, então, como instrumento de autodefesa, tipo arma branca, se for preciso dar uns sopapos em alguém. E de bônus ainda revisita e aprende novos elementos sobre um dos períodos históricos mais sombrios da humanidade.

É sobre a Segunda Guerra Mundial. Meu Deus! E o que há de novo e especial nisso? Esse tema está mais batido do que claras em neve. Fato. O leitor não suporta mais essa temática. Justo. Ok, mas calma. Deixa eu tentar te convencer. Muito de fato já foi escrito sobre guerras. Não apenas esta; sobre quase todas. Victor Hugo passou duzentas páginas descrevendo a batalha de Waterloo em “Os Miseráveis”. Tolstói também dedicou seu maior épico de quase duas mil páginas aos efeitos e ao transcurso das guerras napoleônicas. Stendhal igualmente enfrentou o tema com talento e entusiasmo descritivo. Relatos, filmes e exposições sobre a Segunda Guerra existem aos borbotões.

A diferença da perspectiva aqui é o fato da trama ser contada pelo panorama de um nazista arrependido — ou seja, pela ótica do carrasco traumatizado que tenta expiar seus demônios e se redimir perante o universo. “As benevolentes” é uma ausculta estetoscópica do carrasco. “O que fiz, fiz com pleno conhecimento de causa, julgando ser meu dever e necessário que fosse feito, por mais desagradável e infausto que fosse”. 

Estamos diante das memórias de Maximilian Aue, jovem alemão de origem francesa que, como oficial do Terceiro Reich, participa ativamente de momentos sombrios da recente história mundial, como a execução de judeus, as batalhas no front de Stalingrado, o planejamento das estruturas de manutenção de poder e da organização sistemática dos campos de concentração, até o momento da derrocada final da Alemanha. Nas descrições, o leitor é atirado dentro da ação, sendo possível sentir o frio, a fome e o medo.

O título do romance já anuncia seu mergulho na tradição mítica: “As Benevolentes” são as Erínias da mitologia grega, deusas da vingança que perseguem aqueles que derramam o sangue da própria família. No livro, Maximilien Aue é perseguido, não apenas literalmente por seus crimes familiares, mas também metaforicamente pela culpa estrutural de seus atos. A narrativa ecoa as tragédias clássicas, especialmente o mito de Édipo, sugerindo que a violência e a transgressão não são simples escolhas individuais, mas partes inevitáveis do drama humano. Assim como Édipo, Aue é ao mesmo tempo agente e prisioneiro de forças que transcendem sua vontade consciente.

O protagonista narrador se vê então atormentado por uma grave compunção e, encapsulado pela contradição em tentar se justificar para escapar da redoma do remorso e pela realidade absurda dos efeitos permanentes da guerra e do eco dos mortos em sua mente e em suas mãos, acaba se tornando vítima de delírios, vômitos, espasmos mentais, insônias e pesadelos homéricos que pouco a pouco vão lhe transformando. 

E o leitor, pelos seus olhos, acompanha o desdobramento da metamorfose e passa a enxergar o mal por uma dimensão jamais imaginada. Um homem que nos trará revelações impactantes sobre suas perversidades e suas certezas, tudo cometido com a convicção de que estava apenas servindo ao seu país.

“Apesar dos meus defeitos, e eles são muitos, ainda sou dos que acham que as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, a comida, a bebida e a excreção, além da busca pela verdade. O resto é facultativo.”

O narrador é um sedutor fascinante, perturbado e perturbador. Complexo e contraditório. Psicologicamente comprometido e narcisista, tem uma ideia doentia sobre amor e relacionamentos sexuais. No decorrer da narrativa, ele vai se apoderando de nossos pensamentos e, tentando se intrometer no espírito humanizado do leitor, deseja gozar de sua intimidade e causar certa empatia. Custoso ler o livro e não correr o risco de cair na armadilha do escritor e de seu personagem, que pretende nos convencer, sob a perspectiva invertida — repita-se, eis aqui o grande diferencial na abordagem da obra — em eximir o carrasco de suas responsabilidades, atribuindo-lhe o peso de suas ações ao fato de sermos todos humanos e podendo compartilhar sua verdadeira culpa, pois seríamos todos, em tese, capazes de crueldades coletivas, omissões e vulnerabilidades, nas convenientes cumplicidades com o mal. Especialmente se impulsionados por uma iniciativa coletiva que acaba neutralizando parte do juízo crítico individual de cada um. Será?

A conclusão de tudo isso, se me permitem outra citação — a última, prometo —, é como dizia muito bem Sófocles: “O que se deve preferir a tudo é não ter nascido”. Schopenhauer, por sinal, escrevia claramente a mesma coisa: “Seria melhor que não existisse nada. Como há mais sofrimento que prazer sobre a terra, toda a satisfação é apenas transitória, criando novos desejos e novas aflições, e a agonia do animal devorado é maior do que o prazer do devorador”. Sim, eu sei, isso dá duas citações, mas a ideia é a mesma: na verdade, vivemos no pior mundo possível.

Então, o livro traz a maior de suas reflexões: se estivéssemos na Alemanha e na Europa vivenciando esse período obscuro, embutidos e embrutecidos na posição de servidores leais de uma ideologia fatal ainda não claramente evidenciada, conquanto evidentemente perversa e desajustada desde o princípio, seríamos capazes de renunciar a tudo isso sem envolvimento ou acabaríamos nos tornando cúmplices? Uma pergunta perturbadora, que perscruta em cada um certa autonomia de difícil resolução. Caso não tenhamos muito claros e vigilantes dentro de nós uma perfeita clareza sobre nossos valores e princípios éticos, poderemos claudicar e ficar à mercê do pensamento e do comportamento alheio. Esse é um dos dramas e dilemas maiores do livro. 

“No fundo, repetia para mim com uma vã amargura, é só nos nove primeiros meses que nos sentimos tranquilos, depois o arcanjo da espada de fogo nos expulsa para todo o sempre pela porta que diz Lasciate ogni speranza, e passamos a querer apenas uma coisa, voltar atrás, embora o tempo continue a nos empurrar impiedosamente à frente e no fim não haja nada, absolutamente nada.”

Trago uma curiosidade final. O autor dessa ficção é simplesmente um judeu, que se investe na condição de narrador integrante do Reich. O livro se assemelha a um “Guerra e Paz” moderno. Um livro que atravessará gerações. Não se prive de enfrentar a leitura apenas pelo motivo de acreditar que ela vai ser muito pesada. É um livro que choca e transforma. E como será que alguém que não vivenciou a rotina e as minúcias da guerra foi capaz de narrar cenas tão exatas, entrando ainda por cima na pele de um alto oficial nazista? Por fatores únicos desse cara: Jonathan Littell se superou. 

Primeiro, fez uma pesquisa minuciosa sobre documentos, arquivos, escritos, além de áudios e vídeos sobre o assunto. Segundo, pela disposição em ler mais de uma centena de livros sobre a Alemanha nazista e suas estruturas administrativas e militares. Em terceiro lugar pela pesquisa de campo, já que visitou Kharkov, Kiev, Pyatigorsk, Stalingrado, Cracóvia e outros locais, seguindo à risca todos os passos do exército germânico. Por todos esses fatores, o romance foi a foz de um rio caudaloso pelo qual o escritor navegou e dedicou boa parte de sua vida, apresentando ao público o resultado final de seu tremendo esforço: um documento histórico ficcional quase inédito, com uma exatidão fática e uma densidade psicológica pouco comuns.

Um clássico contemporâneo de leitura imprescindível e de efeitos imprescritíveis. Uma obra de arte que decifra com rara precisão a implantação psicológica fria, irônica e calculista dos genocídios organizados como rotinas administrativas quase banais, contadas pelas memórias do protagonista. Uma jornada rica em detalhes e repleta de personagens reais, da nata da elite nazista, misturados e adaptados à contundente ficção do autor. Desfilam pelas páginas demônios históricos, como Himmler, Goebbels, Speer, Borman, Mengele e, mais significativamente, Adolf Eichmann, “o burocrata talentoso” cumpridor de seus deveres e — nas palavras de Maximilian Aue — o verdadeiro arquiteto da “Solução Final”. 

É literatura pura, emocionante, triste e ao mesmo tempo um poderoso estudo sobre a patologia coletiva e sobre a lavagem cerebral que reinava na Alemanha naquele período. Um livro cujas reflexões permanecem com o leitor por tempo indeterminado, enquanto durarem sua sensibilidade e inconformismo pelo horror do holocausto.

As Benevolentes. Alfaguara. 2007. 912 páginas. Preço de Capa: R$ 149,90.

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.