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Chimamanda Ngozi Adichie: precisamos falar da literatura africana

Inserido em 7 de março de 2025
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Por Felipe Cuesta

Já passa da hora da literatura africana ser redescoberta e melhor difundida entre os leitores brasileiros. Urge que seja também descolonizada. O panorama atual parece relegar os autores pretos a uma prateleira de literatura de nicho. De modo geral, é o que acontece — o leitor inconscientemente foge dessas obras. A não ser que ele esteja em busca de um estigma. Tem sua cabeça destreinada e pensa que só encontrará temas de tragédias, de injustiças, de sofrimento e de fome.

Embora tais tópicos estejam presentes em algumas discussões, como em qualquer outra etnia literária, o desmerecimento e a mácula são inconvenientes e não correspondem à realidade, pois as letras africanas têm riqueza e pluralidade suficientes para alcançar o gosto dos mais variados públicos e discutir todos os temas. Os países africanos vão muito além das savanas míticas povoadas por animais ferozes, tribos selvagens e povos famintos. Se assumirmos a produção literária como uma das características fundamentais da maturidade artística e intelectual de um povo, já passou da hora do continente africano sair do imaginário coletivo como exportador de escravos, de cenas de leões e leopardos atacando humanos e imagens de guerra genocida entre clãs étnicos ignorantes, para ser reencontrado como produtor de cultura de massa em suas mais variadas vertentes.

Assim, o amplo conhecimento de suas obras é medida urgente. Para além disso, é claro também que o continente-mãe tem semelhanças estreitas com o Brasil a ponto de não podermos simplesmente ignorar os diferentes matizes de sua rica literatura, como importante ponto de convergência e de diálogo com nossa cultura e nossas raízes. As experiências de vida e os paradigmas daquela outra realidade retratados nas histórias contadas pelos escritores do outro lado do Atlântico dialogam de maneira íntima com nossa brasilidade e espelham parte do que somos. Conhecer essas narrativas incrementa o processo de autodescoberta, de resgate e de aperfeiçoamento de nossa cidadania, com influências capazes de balizar muitos de nossos parâmetros e comportamentos.

Feita a necessária contextualização introdutória, escolhi apresentar como paradigma uma autora nigeriana de destaque, já bastante conhecida no mundo todo. Talvez você já saiba quem é. Seu nome é Chimamanda Ngozi Adichie, que bebeu na fonte de dois grandes antecessores e fundadores da rica literatura nigeriana: Chinua Achebe e Buchi Emecheta. (Não custa lembrar que o primeiro Prêmio Nobel de literatura dado para um escritor africano foi do nigeriano Wole Soyinka, vencedor em 1986).

Chimamanda é de origem Igbo, uma das etnias mais representativas do povo da Nigéria, a parte geográfica que quis ser Biafra, mas perdeu a guerra, mantendo-se parte de uma nação formada artificialmente pela linha cartográfica egoísta e insensível do colonizador europeu. 

A autora nos oferece textos dinâmicos, com tramas inventivas e cativantes, apresentando elementos da cultura local, da vida cotidiana dos africanos e das acentuadas diferenças hierárquicas, religiosas e de gênero, marcas da sociedade nigeriana, uma das mais patriarcais e machistas do mundo. Chimamanda traz todos esses ingredientes sem o dissabor amargo da vitimização barata, nem se serve da estratégia batida de tentar cativar o leitor pela ideia de melancolia de um povo amaldiçoado por desnutrição e desastres. Nada disso. O caminho por ela escolhido é bem original. Sua literatura, apesar de real, consegue ser alegre e otimista, incutindo no imaginário do público uma visão acreditada de mérito, confiança e superação do homem e da mulher africanos.

Chimamanda vem conquistando leitores desde a publicação de seus primeiros contos e romances, traduzidos para mais de trinta idiomas. Seu primeiro grande romance foi finalista do Orange Prize de 2004 e vencedor do prêmio de melhor primeiro livro do Commonwealth Writers. Já a trama histórica sobre a guerra do Biafra venceu o prêmio de ficção do Baileys Women’s Prize de 2007 e o de “melhor dos melhores” da década do mesmo prêmio, em 2015. Para além da escrita de ficção, Chimamanda é conhecida por seus textos feministas, que travam uma luta contra um preconceito orgânico que incentiva o apagamento da mulher como pessoa na sociedade africana. Ela realiza palestras mundo afora e publica textos não-ficcionais, além de ser uma celebridade do formato “Ted Talks”, sendo uma das mais visualizadas dessa plataforma multimídia com suas falas “The danger of a single story” e “We should all be feminists”.

Hoje vou indicar dois livros da escritora, já ventilados acima, que são verdadeiras obras de arte literárias. Não deixe de conhecê-los e se beneficiar da experiência enriquecedora trazida pela leitura de suas histórias. Os livros são “Hibisco Roxo” e “Meio Sol Amarelo”. 

“Hibisco Roxo” é um livro marcante, daqueles que permanecem no pensamento e no coração por tempo indeterminado. A narrativa nos mostra que os efeitos da colonização branca na África podem ser mais penetrantes e devastadores do que imaginam a economia e a sociologia. Na Nigéria dos celulares e da internet, o catolicismo de um grande capitalista que oscila entre o altruísmo e a tirania religiosa e que rejeita as tradições de seu povo ainda é capaz de assombrar a vida de sua família. Kambili, protagonista e narradora do livro, conta de que maneira seu pai lentamente destrói a vida de todos com uma mistura de fé, pavor e superação. Ao mesmo tempo, o leitor conhece a realidade política, educacional e social do país por meio do contato que Kambili mantém com sua tia Ifeoma.

Irmã de seu pai, uma professora universitária vanguardista e seus dois filhos, mais esclarecidos e rebeldes do que ela própria e seu irmão, perseguidos que são pela sombra e pela energia maléfica do pai. Seu avô — um contador de histórias encantador que se recusa a abandonar a crença tradicional nigeriana —, e o padre Amadi — que consegue aliar a fé cristã ao respeito pela realidade do povo — também são personagens incríveis, que lhe ensinam a reconhecer outras possibilidades de vida e de amor.

A mistura de credos nativos e importados, os problemas salariais e pedagógicos de uma universidade, a censura, a opressão, a corrupção política e a forma como o catolicismo penetra capciosa e poderosamente na moral local são elementos familiares ao leitor brasileiro e fazem com que ele se lembre a todo tempo de sua própria realidade. A narrativa nunca deixa de ser igualmente lírica, inclusive ao mostrar a complexidade da formação psíquica e amorosa de uma adolescente africana, toda acompanhada — num lindo paralelismo metafórico — pelas mudanças sofridas pelas flores de plantas: as buganvílias, os girassóis, os coqueiros, as casuarinas e, especialmente, os hibiscos roxos, variedade fruto de um experimento único, que gera flores raras e cobiçadas por todos. O crescimento dessa flor na casa de Kambili, prisioneira das convenções, aponta para mudanças radicais em sua vida. O bem e o mal se misturam de forma ambígua, mergulhando o leitor numa história bem mais complexa do que supõem as aparências, que mostram o magistral domínio da escritora pela boa técnica narrativa. O final traz um desfecho triste e difícil de aceitar, conquanto surpreendente. 

Outra obra magnífica de Chimamanda é “Meio Sol Amarelo”, um romance que se lastreia em fatos reais contados por personagens imaginários e caracterizados de modo soberbo. É sobre a tentativa do povo Igbo de se separar do Estado Nigeriano dominado pelos Hauças e Iorubás. Um episódio terrível e pouco conhecido da história mundial. O eixo da trama é a casa de Odenigbo e Olanna em Nsukka, cidade universitária nigeriana. Odenigbo é um professor bem relacionado no campus, seguro de si, com voz ativa sobre a independência nigeriana, sobre costumes e sobre as heranças e mazelas do colonialismo. Já Olanna, sua companheira, é descendente da classe alta do país, filha de um influente empresário, mas que não se reconhece em seu meio familiar. O personagem mais empático, contudo, é Ugwu, que chega ainda muito novo para trabalhar na casa de Odenigbo, saído de um pequeno vilarejo no qual cada pedaço de peixe era disputado pela família. Dois outros personagens compõem a estrutura central da obra. Richard, um jornalista com ambição de se tornar escritor e que se apaixona pela irmã de Olanna, Kainene, figura esquiva, que por sua vez reage com pragmatismo ao desmoronamento da nação até o momento em que as aparências não mais se sustentam. 

A trama descreve a saborosa vida cotidiana intelectual, cultural e acadêmica dos protagonistas até o momento em que eclode a guerra fratricida que dividiu a Nigéria com a malograda tentativa de fundação do estado independente de Biafra. Estamos em plenos anos sessenta do século XX. Nesse contexto, o núcleo de protagonistas tenta tocar o barco e provar a si mesmo que é capaz não só de sobreviver, mas também de preservar seus sonhos e sua integridade moral, crendo que não serão tão afetados pelos conflitos e que os Igbos derrotarão rapidamente os inimigos, florescendo a nova democracia na região. Isso vai até o ponto limite de inflexão, pois o tempo passa e a Nigéria torna-se implacável com os biafrenses e a espada inclemente dos fatos oferece seu lado mais nefasto, assassinando a ilusão inicial dos protagonistas e encaminhando o desfecho da trama.

Se em “Hibisco Roxo” a autora apresenta um drama familiar tocante e inesquecível, em “Meio Sol Amarelo” temos um romance histórico forte e impactante. A beleza da vida cotidiana desaparece completamente quando os ventos da guerra assolam esta região da África. Assistimos estupefatos à corrupção governamental, ao machismo e ao racismo da sociedade nigeriana Pós-Colonialismo, aos conflitos étnicos da Nigéria e às instabilidades políticas. Também conferimos a força da cultura nativa: com suas crenças particulares, seus dialetos, suas músicas, suas vestimentas, sua gastronomia. Se a realidade nua e crua de um país assolado pela guerra civil assusta em um primeiro momento, por outro lado, a riqueza do panorama histórico-cultural da Nigéria maravilha o leitor.  

Não abra mão de nenhuma dessas duas leituras. Elas têm o característico poder transformador dos grandes livros. Palmas para a escritora e para seu talento criativo em construir narrativas impactantes e monumentais. Ah, e depois de dez anos sem publicar ficção, vem lançamento de novo romance dela agora em março de 2025. O livro se chama “A Contagem dos Sonhos”.

Hibisco Roxo. Companhia das Letras. 1ª edição. 2011. 328 páginas. Preço de Capa: R$ 79,90.

Meio Sol Amarelo. Companhia das Letras. 1ª edição. 2017. 504 páginas. Preço de Capa: R$ 99,90.

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.